Este texto partiu de uma conversa animada com alguns Quadrados sobre a recente reformulação (que chegará ao Brasil em breve) da DC Comics, na qual se abriu novamente a boa e velha discussão sobre o quanto este processo pode ser válido ou necessário para a sobrevivência dos quadrinhos norte-americanos e porque a Marvel (outra gigante do mercado estadunidense) não adota uma política tão hard em seu "complicado" universo. O principio deste ensaio é descrever a minha opinião sobre o tema, partindo da premissa que as duas editoras hoje têm a convicção da diferença em suas próprias características históricas, o que acarreta uma distinção de abordagens para a renovação de público em suas franquias.
 
Explico. A DC, desde seus primórdios, não tem pudor em "rebootar". Veja, por exemplo, nos anos 40, quando eles ja tinham criado super-heróis como Batman, Superman, Lanterna Verde, Flash, Mulher-Maravilha, etc. Porém, na década de 60, a editora se aproveita da nova moda heróica  para trazê-los de volta, mas acaba por reinventá-los, desconsiderando o que existiu há 20 anos. Assim, a trindade (formada pelo Superman, Batman e Mulher-Maravilha) até guardava bastante semelhança com a original, mas personagens como o Lanterna Verde e Flash foram completamente reinventados. Poucos anos depois, o escritor Gadner Fox tem a ideia dos universos alternativos, na qual considerou a existência da chamada Era de Ouro paralelamente à nova geração (Era de Prata). Na minha opinião, Fox teve uma genialidade espetacular para conceber o que ficou conhecido como multiverso, ainda mais se levarmos em conta que a própria DC era uma gigante e produzia muitos quadrinhos, além de adquirir outras tantas empresas menores que poderiam ser consideradas como outros planos de existência. De certa maneira, era uma soma qualitativa muito grande para uma época quando não existia nenhuma preocupação realistica ou cronologica, transcendendo o heroísmo de forma mais lúdica, sem limites para criar.
 
 
No entanto, os anos que se passaram fizeram com que essa falta de limites proporcionasse o que todos nós já sabemos: com um número exorbitantes de universos e personagens – principalmente repetitivos – muitos leitores, editores e escritores não sabiam mais onde se localizavam cada um. Para se ter um exemplo, só do Superman existiam várias versões do mesmo, com pelo menos 3 destes com suma importância na cronologia principal. Mas justamente desse momento desesperador e confuso para as vendas que outra grande ideia editorial surgiu: a mega-saga Crise nas Infinitas Terras, que trouxe uma onda de antimáteria funcionando como uma gigante borracha metafórica, que passava por tudo que já foi criado, fazendo com que somente aqueles que provassem o seu valor fossem salvos no final. Recentemente, foi até dito que a Crise teve a intenção de ser uma reformulação desesperada após a Marvel ter sido impedida pela justiça de adquirir a DC, usando até as equipes criativas e os conceitos que a Casa das Ideias havia imaginado para os heróis em sua "quase nova casa" – com John Byrne, por exemplo – mas o importante, é que resetar (quase) tudo realmente funcionou.
 
Diferente da sua maior rival, a Marvel Comics funcionou desde o início com outro recurso, o chamado retcon. Diferente de um reboot total, nesse processo sempre se pode achar alguma brecha para recontar a história clássica e adicionar mais coisas ao cânone de uma franquia. E antes que os puritanos de plantão vejam isso como algo criado recentemente, saibam que já acontece desde a época de Stan Lee/Jack Kirby, quando a dupla trouxe de volta personagens como Capitão AméricaNamor, mantendo o que havia sido feito pela Timely/Atlas (antigos nomes da empresa), mas desconsiderando o pouco que foi produzido nos anos 50 (época da Guerra da Coreia, na qual mais tarde também foi criada um retcon para justificar o que fora escrito no periodo). Além disso, o próprio Lee deixou espaço para futuros escritores que pudessem agregar mais conteúdo retroativo. O que acontece até hoje em quase todos os títulos.
 
 
Mesmo assim, apesar da forma distinta de suas gêneses, tanto a Marvel quanto a DC tentaram flertar um pouco com o status quo alheio nos tenebrosos anos 90, onde o número exorbitante de vendas praticamente fez destruir qualquer tipo de tradição ou marca registrada no mundo dos quadrinhos norte-americanos. Dessa forma, os dois conglomerados viajaram em temas estaparfurdios e fizeram de tudo um pouco. A saga Zero Hora, por exemplo, foi um reboot leve e tosco,que deveria funcionar como uma nova crise (mas nunca foi). Já a saga A Morte do Superman, mesmo sendo bem eficiente, proporcionou um mal secular nessa mídia, pois matou o sentido de morte nas HQ's de super-heróis para sempre. Como era marca da época repetir ideias bem sucedidas, ao extremo e em todo lugar, é algo que vez ou outra sempre retorna, quase como um "castigo histórico".
 
Na Marvel, a falta de respeito com a maioria dos produtos ocasionou uma crise tão grande em relação aos títulos não-mutantes, que a "solução" foi rebootar e separar algumas franquias na malfadada Heróis Renascem. Ainda lembro como se fosse ontem dos discursos que Mutantes (e o Demolidor e o Aranha) não poderiam viver no mesmo lugar que os Vingadores e o Quarteto. Só esqueceram de contratar bons roteiristas. Deu no que deu. A contra-solução foi re-rebootar – pois não podemos esquecer que antes do Massacre, Tony Stark era adolescente, Thor era um "alienígena", Vespa uma "mutante" e Gavião Arqueiro era surdo – e mostrar o melhor de cada herói, dando a eles uma releitura respeitando o clássico e trazendo um mundo novo de qualidade.
 
 
Então, não me alongando mais, acredito que hoje as editoras tem enxergado mais como funcionam os universos especificamente. Mesmo sabendo que essa reformulação mostrada com os Novos 52 foi uma ordem direta da Warner contra o fracasso retumbante da DC. Crise Infinita e Crise Final já haviam aparecido como tentativas de reboot pelo grupo criativo, mas recusadas pelos sócios. No entanto, a instabilidade era tamanha que após enxergarem que tudo ia de mal a pior, impuseram finalmente um novo recomeço. Ainda assim, com coisas boas rolando – e outras nem tanto – sinto que em vez de zerar, eles poderiam muito bem ter resolvido tudo de uma forma mais comprometida com o seu público, explicando que aquele universo se completou e que outro seria abordado, por exemplo. Sem traumas nem neuras. Um caso semelhante aconteceu com Star Trek onde uma nova abordagem vem acontecendo mas não dá fim ao universo antigo. Outro caso desse também é o Ultiverso, criado como um novo começo pela Marvel, mas vivendo em paralelo com a boa e velha cronologia vigente.
 
Falando em Marvel, a empresa tem feito suas mini-revoluções anuais e dando mais pano para a manga em recontar origens. A exceção à regra foi somente a franquia do Homem-Aranha, que claramente pode ser vista como uma decisão editorial fora da filosofia da editora, o que proporcionou certo mal-estar entre os integrantes da própria equipe criativa e a diretoria da empresa, repercutindo até hoje entre os seus fãs. Acredito que outra decisão como essa (que de acordo com boatos, será levada a efeito após a saga Vingadores vs. X-Men) não traria beneficios por não ser algo "da Marvel" ou a "cara da Marvel". Eles já conseguiram trazer novos leitores de várias maneiras distintas e os seus personagens não carregam uma simbologia tão épica como os heróis gigantes da DC, que mesmo passando por fases ruins sempre tem a sua filosofia principal enraizada no âmago da cultura pop. 
 
Mesmo com essa distinção entre as duas editoras, não creio que exista muita diferença entre as reformulações para conquistar um novo público. Tudo continua funcionando como um ciclo. Algumas de forma mais leve e outras como uma completa revolução, mas sempre com a intenção de trazer um novo público e eternizar a mitologia dos super-heróis por todo o panteão da era contemporânea.
 
 
 
 
— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.