Retomando mais uma coluna do site, o Dicas de leituras dos quadrados! Dessa vez, colhemos recomendações do Marcello, Beto, Daniel Maioral, Dani, além das minhas. Teve dicas de hqs de super-herói, teve quadrinho alternativo americano, teve quadrinho nacional, teve hq autobiográfica… E o interessante é que dois membros recomendaram a mesma hq, um com recomendação positiva e outro com recomendação negativa! Vale a pena conferir! 

 

 Beto Magnun

Os Novos Vingadores – Tudo Morre

566082_novos-vingadores-tudo-morre-712789_l1_635876789537468000A Panini vem republicando em encadernados as primeiras histórias do Marvel Now (Nova Marvel), e lá fui eu voltar a ler Marvel. Os péssimos Vingadores – Mundo de Vingadores e Fabulosos Vingadores – A Sombra Vermelha, me fizeram ficar com o pé atrás, mas ainda assim resolvi dar uma chance ao Os Novo Vingadores – Tudo Morre. E dessa vez não me arrependi. Já é uma das minhas fases preferidas da super equipe. Pode não agradar a todos, pois Jonathan Hickman talvez tenha escrito a HQ de super-heróis mais niilista e cínica desde Whatchmen. Temos heróis com dilemas morais para assegurar a sobrevivência da Terra (eles chegam a discutir qual a maneira mais eficiente de destruir um universo), outros tentando se recusar a aceitar que o mundo vai acabar, e no fim nos faz refletir sobre o quão impotentes estão os super-heróis, depois de décadas de aventuras salvando o planeta e o universo das mais variadas ameaças. Talvez funciona-se melhor se fosse uma história com personagens não tão icônicos, um “elseworld” ou uma outra equipe tipo os Thunderbolts ou Esquadrão Supremo. Ainda assim é uma história acima da média. Quem espera uma história fechada pode passar longe, este é só o primeiro volume da longa passagem do Hickman pelo título, e que prepara terreno para Guerras Secretas a grande saga da vez que chega ao Brasil esse ano. E claro ainda tem o sempre espetacular Steve Epting encarregado dos desenhos.

Autor: Jonathan Hickman e Steve Epting
Editora: Marvel/Panini
Lançamento no Brasil: Dezembro de 2015 (encadernado)

RyoTiras nº4

Autor: Ricardo Tokumoto
Editora: Independente
Lançamento no Brasil: Novembro de 2014

Manual da Auto-Destruição nº2

Autor: Ricardo Tokumoto
Editora: Independente
Lançamento no Brasil: Novembro de 2014

Mangaka: Lições de Akira Toriyama

Autor: Akira Toriyama e Akira Sakuma
Editora: Conrad
Lançamento no Brasil: Novembro de 2002

 

 Daniel Maioral

Você é minha mãe? – Um drama em quadrinhos

65058_gAlison Bechdel ainda é um nome relativamente desconhecido no mercado de HQs, talvez ela circule no mesmo nível que Chester Brown ou Bryan Lee O'Malley, nomes desconhecidos quando comparado aos famosos autores das grandes editoras, porém se tem algo que estes três têm em comum é o fato que entram pra minha lista de "Gênios Desconhecidos". Este é o segundo volume dos romances autobiográficos de Alison Bechdel publicados no Brasil, o primeiro, Fun Home – Uma Tragicomédia em Família –  que está esgotado desde 2007 e atualmente alcança valores absurdos em qualquer lugar – é mencionado constantemente nesta edição. Obviamente a HQ trata da relação da autora com sua mãe, Alison conta a história de como decidiu contar a história de sua mãe e de sua relação amorosa/afetiva/invejosa com ela (um verdadeiro show de Metalinguagem). O romance possui uma forte carga de psicologia, é isso que permite a autora de entender suas angústias maternas, afinal um outro ponto bem elaborado na obra é a relação de Alison com suas psicanalistas, ambas acompanham e a aconselham (em períodos diferentes) durante o processo de se libertar da sombra da imagem que ela impôs a si mesma da mãe. Para Alison o relacionamento das duas é tão peculiar que a única maneira da autora encontrar paz é justamente escrever o livro, porém quanto mais material ela encontra mais ela se sente mal e julgada pela "mãe" (psicólogos entenderão) e por si mesma. O drama possui uma linha do tempo peculiar, alternando em passado e presente de maneira confusa algumas vezes, porém nada que desqualifique a obra como um todo. Para psicólogos, que conhecerão mais sobre as obras de Freud, Jung,  Lacan e até mesmo mais sobre uma brilhante mente chamada Donald Winicott, e para todos aqueles castrados e com "mommy issues" a HQ será um prato cheio de uma leitura densa, sincera e emocionalmente acolhedora como um abraço de mãe.

"A função do escritor é encontrar uma configuração na vida conturbada que sirva à trama. Não é bom notar que sirva à família, ou à verdade, mas que sirva a trama."

Autor: Alison Bechdel
Editora: Quadrinhos na Cia. 
Lançamento no Brasil: Julho de 2013

 

 Marcello Fontana

Dica negativa: Os Novos Vingadores – Tudo Morre

Jonathan Hickman consegue nesta edição uma façanha: construir a história de super-heróis mais enfadonha já feita! O tema é recorrente – colisão de realidades – e já rendeu sagas memoráveis, como Crise nas Infinitas Terras. Hickman escreve bem, conduz a história de forma correta (apesar de algum furo aqui outro acolá), mas propositadamente imprime um ritmo que faz com que a leitura seja massante e cansativa. Nos desenhos Steve Epting tenta fazer bem a sua parte, mas a narrativa o roteiro lhe exige pouco e a partir do terceiro capítulo já dá sinais de que nem ele está aguentando mais aquilo. Mas o pior mesmo é quando você chega na última parte e vê que não vai acabar ali. Ainda tem continuação. Espero que a sequência possa ser mais dinâmica. 

Autor: Jonathan Hickman e Steve Epting
Editora: Marvel/Panini
Lançamento no Brasil: Dezembro de 2015 (encadernado)

 

Dani Marino

Parafusos – Mania, depressão, Michelangelo e eu

Parafusos-capa.inddAlgo que costumo reparar muito nas HQs que leio é o enquadramento, muito mais do que os traços. Certas HQs nos cativam por seu aspecto artístico, outras não pelo roteiro ou algumas vezes pelos dois aspectos, mas no caso de Parafusos, os recursos narrativos usados chamam a atenção pela criatividade da autora em descrever sua trajetória desde antes do diagnóstico de sua bipolaridade até encontrar meios de se manter estável.

Gostei especialmente de como ela utiliza os balões ou a completa ausência deles e a forma como distribui as imagens nas páginas. A cada crise de mania ou depressão, o leitor é capaz de captar cada camada de suas oscilações apenas pela forma como as imagens estão representadas. Por exemplo, na maior parte da história não há quadrinhos, as imagens são soltas, embora sigam uma sequência, com exceção de quando ela está em consulta, aí, os acontecimentos se dão dentro do formato tradicional de HQ. Por isso, alguém que não tenha a menor noção do que seja o transtorno bipolar de humor, consegue compreender e sentir o que é cada um desses estágios, até mesmo pelo ritmo que Ellen consegue imprimir à história, narrando com precisão o que sentiu durante sua busca por estabilidade.

Para quem é artista, Parafusos é uma ótima fonte de referências justamente pela criatividade com que a autora conseguiu expressar detalhes tão sutis e pessoais, e para quem é apreciador da nona arte, é uma ótima narrativa, nada entediante, sobre escolhas que temos que fazer, problemas inesperados que temos que lidar e principalmente, sobre como não são nossos problemas que nos definem, mas a forma como os encaramos.

Autor: Ellen Forney
Editora: Martins Fontes
Lançamento no Brasil: Outubro de 2014

 

Guido Moraes

Parker – o Caçador

parkerO caçador é a primeira HQ adaptada por Darwyn Cooke da série de livros do autor Richard Park, sobre o canastrão Parker. E espero que seja apenas a primeira, pois estou ansioso pela série toda. Cada volume é uma história fechada, mas fica a vontade de ler mais assim que o último capítulo se inicia. Darwyn Cooke é um mestre de narrativas e de estilo, e acerta em cheio em toda a ambientação Noir. Neste volume, Parker volta a Nova York após ser traído por esposa e amigo, parceiros de roubos de banco. Mais que recomendado!

Autor: Richard Park. Adaptação: Darwyn Cooke.
Editora: Devir
Lançamento: Agosto de 2015

 

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço

lizziebordello_capaCompilação da hq online homônima, da autora Germana Viana, que já foi muito bem resenhada pela Keli aqui. Além das sacadas muito divertidas, como baratas fazendo cosplay de pombos (que a própria Keli citou), acho que o forte da obra é como Germana trata a diversidade de todas suas personagens. Cheias de vida, tão diferentes entre si e tão únicas… todas são tratadas com a naturalidade que devem ser tratadas, mas o que nem sempre é bem feito nas hqs por aí. Vide as grandes editoras americanas, onde temas inclusivos costumam se cercar de polêmicas e desconfianças. Deveriam ler mais Lizzie Bordello.

Autora: Germana Viana
Editora: Jambô
Lançamento no Brasil: Novembro de 2015

 

O árabe do futuro – Uma juventude no Oriente Médio (1978-1984)

87646590Primeira parte da hq que conta a história do autor, Riad Satouff, em sua infância na França (onde nasceu), Líbia (onde seu pai trabalhou por um tempo) e Síria (onde seu pai nasceu e foi morar no final da hq). A obra é primorosa em contar aspectos tão contrastantes entre os países, em coisas muitas vezes inimagináveis para nós que nascemos no ocidente. As dificuldades da vida no oriente são impactantes, como por exemplo as comidas contadas na Líbia de Kadafi (mesmo para a família de Riad, cujo pai é professor com doutorado). Por muitas vezes eles só tinham banana para comer a semana toda! O que não era em si um problema para Riad, que adora bananas. Na Síria governada por Hafez al-Assad, as coisas são tão complicadas quanto. Por exemplo: em celebrações, as mulheres (mesmo a mãe francesa de Riad) só podem comer o resto da comida dos homens. Apesar de tantos problemas, a hq passa longe do drama excessivo. É muito bem contada e a leitura também não se torna pesada demais. E se você está se perguntando onde ouviu o nome do autor antes, bem, ele foi um dos que protestaram contra a falta de participação feminina em Angouleme. E também assina uma série de quadrinhos para o semanário Charlie Hebdo. Ou seja, Riad Satouff é um artista muito influente e que com certeza deve ser acompanhado.

Autor: Riad Satouff
Editora: Intrinseca
Lançamento no Brasil: 2015

 

Hoje é o último dia do resto da sua vida

ultimo_dia_capa-221x300Mais uma recomendação de hq autobiográfica, dessa vez da autora austríaca Ulli Lust. Nesta hq, Ulli retrata sua viagem com uma amiga ninfomaníaca para a Itália, no auge da revolução sexual e no auge de seus 17 anos! Sexo, drogas e punk rock, num passeio clandestino, que envolve muita liberdade e obviamente muitos problemas. Mendicância, prostituição, prisão e até um envolvimento com a máfia… todos retratados com uma sinceridade impressionante. Mas o que mais impressiona é o abuso por parte dos homens. Assédio, estupro… Ulli sentiu na pele e consegue passar suas dores em sua narrativa de forma que dói no leitor também, se ele tiver um pingo de humanidade apenas. Hoje é o último dia do resto da sua vida é como aquele trovão que assusta, que parecia estar tão longe mas está muito mais perto do que você imagina.

Autor: Ulli Lust
Editora: Martins Fontes
Lançamento no Brasil: Outubro de 2015

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.