cabra_capa_grandeParece que Rota 66 (as "aventuras" de um cacto e uma caveira de boi a beira de uma estrada), Jab (um simpático cachorrinho lutador), Jayne Mastodonte (praticamente uma Schwarzenegger de saias) e Aú (o alegre capoeirista soteropolitano que já vendeu sete mil exemplares) foram a preparação para o novo lançamento de Flávio Luiz: O Cabra. E como hoje é Dia do Quadrinho Nacional, vamos falar dele.

Em O Cabra acompanhamos as desventuras de Severino Crispin dos Santos, o último cangaceiro de seu bando, vivendo em uma Terra pós-apocalíptica que mistura Tatooine (o mundo desértico da série Star Wars) com as coisas da caatinga. É uma história carregada de referências óbvias e outras nem tanto (aquele padre me lembra alguém…), ou, como escreveu o Marcelo Campos na apresentação, "uma história de amor, uma história pra macho, uma mistura de gêneros.".

Essa mistureba, que abre com os versos da música Sobradinho (Sá/Guarabira) e termina com um belíssimo trecho de Templo (Chico César/Milton de Biase/Tata Fernandes), lança o leitor diretamente na vida de Severino, sem muitas delongas, com uma seqüência de abertura digna dos melhores filmes de ação hoolywoodianos – mas com a narração de Tropa de Elite.

O que temos em seguida é uma rápida sucessão de situações que nos permite conhecer melhor o protagonista e o cenário, tudo de forma direta e rápida, sem excessos. O ritmo da aventura lembra as saudosas sessões da tarde, onde o compromisso era entreter e divertir – porém no caso de O Cabra trata-se de uma sessão da tarde feita para o público adulto.

Afirmar que O Cabra é "uma história pra macho" não é apenas de modo de dizer, algumas das situações retratadas podem chocar os mais sensíveis. Violência, pobreza e abuso são utilizados direta e contundentemente, de forma que se trata de leitura para uma audiência madura.

O formato incomum (25 x 38 cm, 56 páginas) e a escolha precisa das cores (especialmente na seqüência de flashback) complementam o roteiro e a arte de Flávio Luiz, deixando a obra com aquele jeitão de "coisa do nordeste" (como um cordel).

Entre os versos de abertura e encerramento temos recordatórios e diálogos memoráveis, pelo menos para fãs de filmes de aventura como aqueles de Stalone e Schwarzenegger, cheios de clichês que marcaram gerações. Mas um me chamou muito a atenção, neste recordatório O Cabra diz o seguinte: "Não tolero arma barulhenta… Uma peixeira afiada, um pulso firme… Perfeito". Dá pra imaginar a seqüência que ilustra esse diálogo? Pois pega um exemplar e dá uma olhada!

Na noite de lançamento em Salvador, Flávio Luiz disse (informalmente) que tem mais de O Cabra vindo por aí. Tomara, pois no final das contas crescemos mas não precisamos abandonar o prazer de uma boa sessão da tarde. Especialmente uma que seja feita pra nós.

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— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.