FOTO CEDRAZ

Ontem estive no belíssimo Cerimonial Cosme & Damião para participar de uma homenagem a Antônio Cedraz, Mestre dos Quadrinhos Nacionais (título concedido pela Associação de Caricaturistas e Desenhistas de São Paulo), criador da Turma do Xaxado e seis vezes agraciado com o troféu HQ Mix. Com um currículo destes parece mais do que natural que ele tenha sido o primeiro homenageado da série Mestres dos Quadrinhos, organizada pelo Quadro-a-Quadro. Mas Cedraz é muito mais do que um mestre dos quadrinhos, ele é um mestre da vida.

Aproveitei o evento para contar a ele como sua influência me levou a escrever quadrinhos. Falando alto e gesticulando muito, coisa que já faço normalmente, consegui gerenciar a emoção de narrar como aquela visita ao seu estúdio nos idos de 2009 plantou na minha cebeça a semente da escrita, e como nossas diversas conversas posteriores regaram esta semente. Foi mais ou menos assim…

Em 2006 ganhei de presente de aniversário “A Guerra dos Gibis”, de Gonçalo Jr. A prosa leve da obra descortinou perante meus olhos o universo vibrante e cheio de reviravoltas da produção de quadrinhos no Brasil entre 1933 e 1964. Aquilo me deixou com vontade de conhecer mais sobre produção de quadrinhos e sempre que podia pesquisava alguma coisa na Internet. Dois anos depois, através de um fórum sobre gibis, conheci Lucas Pimenta.

Eu e Lucas conversamos muita coisa nas linhas de discussão daquele fórum, até que um dia descobrimos que morávamos na mesma cidade, a uns 500 metros um do outro. Ainda em 2008, acredito ter sido no último trimestre, aconteceu uma reunião dos quadrinistas residentes em Salvador para discussão sobre a criação de uma associação de quadrinistas. Lucas me convidou para participar e eu fui com a expectativa de conhecer o pessoal e bater um papo, nem imaginava o quanto esta reunião mudaria minha vida.FOTO DA REUNIAO

Cheguei lá e havia muita mais gente do que eu esperava, todo mundo se conhecia, falavam de projetos realizados, histórias em desenvolvimento, exibiam portfólios… E eu lá, meio patinho feio, meio estranho no ninho, já receoso de ter ido. Encontrei Lucas (foi a primeira vez que nos falamos pessoalmente) e ele me apresentou a alguns dos presentes, entre eles Antônio Cedraz.

Não era a primeira vez que eu via Cedraz, acompanhava as tirinhas dele (publicadas no jornal A Tarde) e já havíamos conversado rapidamente nas feiras onde eu comprava seus álbuns e pegava autógrafos. Antes da reunião propriamente dita começar, bati papo com um monte de gente, vi alguns portfólios e aproveitei cada minuto daquele mundo de novidades para um fã de longa data da nona arte. Em determinado momento, observando o respeito, carinho e admiração com que todos tratavam Cedraz, comentei com alguém  e a resposta foi “Cedraz? Cara, todo mundo aqui já fez algum trabalho com ele ou foi incentivado por ele a continuar produzindo…”.

A reunião começou e foram feitas as apresentações: roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, coloristas, letristas, editores, jornalistas especializados… E eu, apenas um fã de quadrinhos. Tanto que quando me apresentei e falei sobre as minhas expectativas disse: “Sou só um fã de quadrinhos que vai tentar ajudar como puder, tentar trazer a visão de um simples leitor…”. Depois desta primeira reunião ainda aconteceram mais algumas e em uma delas Cedraz me convidou a conhecer seu estúdio e ver como era o processo de produção das tirinhas do Xaxado.

Apenas no ano seguinte, em um período que estava de férias, pude fazer a visita ao estúdio de Cedraz. Conheci os detalhes do processo de produção, as pessoas responsáveis por cada etapa, e no final ele me perguntou “por que você não me manda uns roteirinhos de tira? Eu remunero. Mesmo não sendo muito você pode ir treinando.”. Claro que declinei argumentando que não tinha jeito pra coisa, mas ele insistiu “Não tem mistério! Pense em uma piada dividida em três partes, são o três quadros da tirinha. Aí você faz um rafe e me manda.”. Quando eu argumentei que não saberia rabiscar nem um rafe ele respondeu “Então faça bonecos palito com as letras dos nomes dos personagens sobre a cabeça, basta dar ao desenhista uma noção da posição dos personagens.”. A semente havia sido lançada.

TIRINHA BALOESSaí de lá extremamente feliz por conhecer um estúdio de quadrinhos e disse que ia ver se mandava alguma coisa pra ele, mas nos dias que se seguiram as férias acabaram e a rotina de trabalho passou a tomar a maior parte do meu tempo. Eu sempre pensava nas tiras, em escrever e mandar pro Cedraz, mas nunca achava que minha ideias eram boas o suficiente. Em março de 2010 eu resolvi fazer um teste, preparei umas tirinhas apenas com os balões e mandei (depois de vários dias tomando coragem) para a lista de discussão da União de Quadrinistas da Bahia. A receptividade não foi das piores e Hector Salas, que tinha aberto contribuições para seu site oinfernosaoosoutros.com (já desativado), topou publicar.

Isso foi o começo. De lá pra cá li (e dei pitaco em) um monte de roteiros, passei a publicar Balões semanalmente, descobri um francês e um brasileiro que faziam o mesmo tipo de tirinha só com os balões, escrevi roteiros maiores, participei de atividades de fomento à nona arte no Brasil, escrevi resenhas, publiquei uma história online (com arte de Ygor Vieira) e outra na antologia internacional Máquina Zero (Guerras do Sono, com arte de Jefferson Costa), participei de duas edições do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e conversei várias vezes com Cedraz.

A Associação de Quadrinistas da Bahia não foi criada, mas as reuniões para sua criação deram início a vários projetos e parcerias, inclusive a parceria de criação do Quadro-a-Quadro. Em uma destas reuniões Lucas e eu conhecemos Marcelo Fontana, que mais tarde, juntamente com Lillo Parra, formaria a base de criação deste blog.IMAGEM TURMA DO XAXADO

Para encerrar disse ao Cedraz “E pode ter certeza de que em cada coisa que eu escrever vai ter um pouco de você, pois foi você que colocou a semente da escrita na minha cabeça”. Neste momento me dei conta de que também sentia o que tinha visto naquela reunião de 2008, uma mistura de admiração, respeito e carinho por uma pessoa que com sua generosidade e energia inspira-nos a realizar, a construir, a dar nosso melhor sempre. Depois de abraçá-lo continuamos conversando por um tempo, ora Cedraz contando um pouco sobre sua vida, ora falando dos seus planos para o futuro.

Obrigado Mestre Antônio Cedraz! Esta resenha é minha homenagem a você. Este dia 30 de janeiro de 2014, Dia do Quadrinho Nacional, é dedicado a você!

 

 

 

 

 

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.