Eu juro que não consigo entender. Mas eu sou meio asno e muito, muito lerdo pra algumas coisas.

Mas me lembro muito bem que dos 07 aos 19 anos não se passou um único dia em que eu não tivesse The Fireside Angel, 1937<br /><br />
Oil on canvas<br /><br />
44 7/8 x 57 ½ in (114 x 146 cm)<br /><br />
Private collection<br /><br />
© 2004 Artists Rights Society (ARS), New York/ADAGP, Paris<br /><br />
lido um gibi da Marvel ou da DC. E também me recordo muito bem quando deixei de lê-los. Foi no começo da década de 90 e eu estava interessado em outras coisas. A principal delas era o teatro, que eu havia começado aos 17 e que me ocuparia pelas duas décadas seguintes. Mas a verdade é que eu havia me desinteressado pelo mundo dos comics. Foi exatamente na época em que comecei a conhecer as obras de artistas como Gauguin, Duchamp e Max Ernst. Basta olhar para o quadro aí ao lado (de autoria de Ernst), para entender porque os comics norte americanos perderam repentinamente o valor para aquele jovem estudante de Educação Artística.

Mas essa é uma outra história. Nos anos seguintes eu ensaiei diversos retornos ao mundo dos comics. Mas a cada volta a coisa parecia ter piorado. Na década de 80 comprávamos na banca, a preço de banana (em formatinho, é verdade, mas a preço de banana), gênios como Frank Miller, Alan Moore e Bill Sienkiewics. Não dava pra engolir Todd McFarlane com aquele traço afetado. Ou então o Rob Lief… Não, não posso dizer o nome desse cara aqui no QaQ. É perigoso o servidor cair.

E aí veio a internet e o mundo ficou menor. De repente todos os nerds estavam se juntando em comunidades e discutindo quadrinhos. Isso me economizou uma boa grana, porque sabia de antemão se algo valia ou não a pena ser lido. Claro que os fãs desse gênero podem estrilar. Como assim saber de antemão que não vai gostar sem nem ao menos ler?

Vão por mim. Depois de conhecer caras como Pratt, Moebius, Colin e Osterheld, você sabe de antemão se vai gostar ou não de uma história apenas lendo a sinopse e vendo meia dúzia de ilustrações. Não acredita? Eu também não acreditava. Fiz o teste umas dez vezes antes de me convencer, não falhou uma. Desde então aprendi a confiar na minha intuição.

E é a minha intuição (aliada ao meu eterno otimismo) que me faz passar nas bancas todos os dias, para ver o que andam lançando. Esse expediente já me trouxe ótimas surpresas como 100 Balas, Y – O Último Homem ou Homem Aranha Noir. E nessa semana me trouxe outra: Justiceiro – As Meninas de Vestido Branco, de Greg Hurwitz e Laurence Campbell.

Justiceiro_As-Meninas-de-Vestido-BrancoCom o selo MAX ( a linha adulta – mas não necessariamente inteligente – da Marvel), a capa já me conquistou logo de cara. Emulando uma pintura em latex sobre madeira, o Justiceiro, com seu uniforme clássico, está parado em meio a diversas caveirinhas de madeira (numa referência ao Dia de los muertos mexicano). Ao fundo, as cores da Bandeira do México.

Uma rápida folheada: arte bacana, muito sangue, muitos corpos, alguns deles nus, opa, aquilo ali era uma menininha morta?

Resolvi então perder mais alguns segundos lendo alguns quadros. Daí, inserido numa outra sequência regada à sangue, leio um diálogo interno de Frank Castle: “Eu limpo minhas armas e ela está morta. Carrego os pentes e ela está morta. Ela está morta. Ela está morta. Ela está morta. E, em breve…eles também estarão.”

Para mim já era o suficiente. Resolvi levar.

Trezes estações de metrô depois, tinha a certeza de ter lido uma ótima história do Justiceiro.

“As Meninas de Vestido Branco” coloca o Justiceiro na pequena e aterrorizada cidade mexicana de Tierra Rota, fronteiriça com os Estados Unidos. A proximidade com a fronteira trouxe o que os Estados Unidos tinha de pior, que por sua vez, rapidamente se aliou ao que o México tem de pior. O resultado: meninas de 15 anos mortas, centenas delas, sem que ninguém saiba a causa ou possa ao menos se defender. Sem esperanças, o povo da cidade busca ajuda no mais frio dos justiceiros. E a obtém.

Gibi de ação de verdade, com roteiro bem escrito numa história robusta, que não foi amarrada com os barbantes que geralmente prendem as tramas dessas mega sagas ou mortes/ressurreições inexplicáveis.

E é por isso que eu me acho um lerdo. No começo dos anos 60, quando o mundo dos comics ainda vivia sob o temível Comics Code Authority – uma desgraça que reduziu uma das melhores indústrias do mundo a uma mera piada de mau gosto sobre si mesma – uma editora surgiu com uma nova proposta, apresentando personagens inusitados, superpoderosos mas com dramas e tragédias humanas. O sucesso da Marvel foi estrondoso e revolucionou o mundo dos comics. E por quê? Porque a genialidade de caras como Stan Lee e Jack Kirby aproximou aquele mundo fantástico de seus leitores.

O que a Marvel fez foi dizer a todos: Ei, eu sou tão forte quanto o Kriptoniano, mas choro, sofro e rio como qualquer um. De que adianta tantos superpoderes se eu não consigo nem pagar as contas no fim do mês? Olha, eu sei que seus planos de dominar o mundo são cruéis e tal, mas vamos acabar logo com isso que eu tenho que ver minha namorada daqui a 15 minutos.

A Marvel subverteu a ordem das coisas. O Herói não era mais o modelo. O modelo era o homem e – exatamente por ser humano – poderia fazer coisas fantásticas.

E em algum momento dos últimos 20 anos ela se perdeu. Ou perdeu a batalha com a indústria ou então foi incorporada por ela. Não sei, como disse, não consigo entender algumas coisas.

punisher616“As Meninas de Vestido Branco” apresenta tudo aquilo que consagrou a Marvel e a tornou a maior editora do mundo: medo, pobreza, injustiça, ódio. Todos os dramas humanos, tão típicos a qualquer ser humano mas em especial em povos onde grassa a corrupção e a impunidade, ali representados pelo povo mexicano mas fartamente encontrados em outros países latino americanos e africanos, estão contidos naquelas páginas belissimamente escritas e ilustradas.

Quem lê o gibi automaticamente identifica aspectos de sua vida ou de sua comunidade no roteiro.

Um tipo de história que deveria ser a regra, não a exceção.

É claro que a desgraça de Tierra Rota, dada a total incapacidade e submissão de seus habitantes subdesenvolvidos, só poderia ser resolvida por um super herói americano, apropriadamente chamado de Justiceiro.

Mas aí já estamos falando de mecanismos de colonização e infiltração cultural e isso é uma outra seara que fica para um outro dia, com exemplos muito mais contundentes que o desse belo gibi…

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.