O Pernambuco era um nordestino que já estava na casa dos 60 quando eu era ainda um moleque. Linha dura, rosto marcado, homem de poucas palavras.

Ninguém sabia quando o Pernambuco havia migrado para São Paulo.

Não sabiam sequer se Pernambuco era mesmo pernambucano. Podia ser do Sergipe ou de Alagoas, ninguém sabe. A verdade é que Pernambuco podia ser de qualquer lugar, até mesmo de São Paulo.

Era traficante na pequena favela ao lado da casa da minha avó. Tinha mais de dez filhos com idades que variavam entre os 4 aos 40 anos.

Todos o conheciam.

Todos tomavam café no seu boteco. Alguns tomavam outras coisas.

Ele morreu quando eu entrava na adolescência.

Seu filho assumiu os negócios.

Seu filho morreu quando eu ainda era um adolescente.

Um outro filho continuou servindo o café.

Até onde sei, o boteco “passou o ponto” há alguns anos. O negócio da família havia acabado junto com boa parte da própria família.

Mas num dia desses, para minha surpresa, vi um de seus muitos filhos, no centro velho de São Paulo.

Sei que era seu filho porque nunca esqueço uma fisionomia. Reconheço meninos que estudaram comigo no primário e e que não via por mais de 30 anos. É impressionante, às vezes cruzo com o rosto de alguém no metrô e me lembro do mesmo rosto, no mesmo metrô, anos antes. Pra compensar, meu cérebro não processa nomes ou lugares, os confundo constantemente.

Mas aquele era o filho do Pernambuco, tenho certeza. Além do rosto peculiar daquela família (todos os irmãos tinham a mesma cara, apesar de várias mães diferentes), ostentava uma já antiga cicatriz no pescoço – obra de uma ponteira de lança de portão numa busca descuidada por uma pipa que caía.

Tinha uma crachá de um banco (dos grandes) mal disfarçado no bolso da camisa sob o terno caro.

Algumas pessoas conseguem destruir um ciclo vicioso.

Infelizmente não é o caso da maioria.

lucille

Lucille é uma adolescente problemática. Filha de um lar desfeito, com uma mãe superprotetora que em sua proteção mais prejudica do que protege. Anoréxica e socialmente desajustada, passa os dias lamentando sua triste existência, sonhando com uma vida diferente mas incapaz de mudar seu próprio destino.

Até que o acaso a faz cruzar com Arthur.

Ele tem basicamente a mesma idade que ela e é igualmente desajustado. Triste, amargurado, filho também de um lar desfeito, embora seus pais ainda estejam casados.

Ambos amaldiçoados pelos fantasmas seculares de suas famílias, ambos em busca de um outro eu.

4145-1Crescer assim é um martírio. É triste você ver todos os seus amigos sempre mais bonitos, mais alegres ou mais ricos. Seja no isolamento da hora do recreio na escola, seja na substituição dos prazeres infantis pela dura rotina do trabalho contra a fome, os danos são irreparáveis.

Se esse desajuste, essa estranheza, se estender e se transformar numa irresistível vontade de nunca mais voltar para casa é sinal que algo está muito errado – errado para sempre.

A força de vontade necessária para se mudar uma situação assim é geralmente proporcionalmente inversa à idade de seus protagonistas e quase nunca acaba bem.

O que não impede que situações extremas não possam ser mudadas. Mesmo que se morra tentando.

O arrebatador Lucille, de Ludovic Debeurme (Barba Negra – R$ 54,90), trata exatamente dessa busca pela mudança, dos conflitos que uma pessoa tem que enfrentar para derrubar suas próprias barreiras.

Da falta de aceitação familiar às inevitáveis “escolhas” tomadas pela total falta de opção, Lucille acompanha a trajetória dos dois adolescentes na construção de um destino diferente daquele imposto pelas circunstâncias. É impressionante perceber como detalhes narrativos que vão sendo mostrados são essenciais para entender por quais caminhos seguem o pensamento de Lucille e Arthur (a essa hora já Vladimir, mas para descobrir o motivo só no gibi) e em como alguns são responsáveis por todo o conflito da trama.

Não se enganem pelo traço simples e pouco atraente de Ludovic. A força de seu roteiro é tamanha que seu traço, aparentemente deslocado, se encaixa perfeitamente à trama, conferindo-lhe uma dramaticidade ainda maior. A Barba Negra, acertou em cheio ao trazer essa obra rara ao mercado brasileiro. Não por acaso, é a mesma editora responsável pela edição nacional do belíssimo – e igualmente perturbador – Cicatrizes, de David Small

Quadrinhos assim não são agradáveis mas são essenciais para se mostrar de que matéria é feita a nona arte, que pode apresentar obras tão intensas e contundentes quanto o cinema ou a literatura.

Luciile, especificamente, é uma obra que não deixa dúvidas de que a vida é muito mais perigosa do que a morte.

Lucille e Arthur sabem disso, ou ao menos estão descobrindo.

O filho de Pernambuco, que em algum momento da vida resolveu trocar o perigoso destino atrás de um balcão que servia muito mais do que café, sabe melhor do que qualquer um.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.