O dia de hoje não é apenas para a comemoração dos avanços das mulheres num mundo onde as relações de gênero se mostraram desiguais, mas, sim, para refletir no quanto que as mudanças são significativas para uma relação melhor entre homens e mulheres. As histórias em quadrinhos, durante sua extensa vida enquanto produto do entretenimento, dialogaram com a realidade, apresentando o trajeto que o feminino e o feminismo traçaram em busca da igualdade de direitos de gênero.

Desde seus primórdios, os quadrinhos tendem a representar todo um imaginário e reproduzir condutas e modos de seus públicos, sejam homens ou mulheres. A Indústria Cultural já fornecia, em formato de livros e livretos, publicações muitas vezes de baixo orçamento, leitura segregada para públicos masculinos e femininos, o que não quer dizer que ocorressem invasões entre esses espaços. Herdando essa maneira de publicar as coisas, os quadrinhos tenderam a separar publicações específicas para "as meninas", como são os casos de My Romance (setembro de 1948), Miss Bervely Hills of Hollywood (março de 1949), Girl´s Love ((julho de 1949), Secret Hearts (julho de 1949) e Romantic Affair (janeiro de 1950). Narrativas que comungavam com construções sobre o gênero feminino nas primeiras décadas do século XX.

Apesar disso, as mulheres sempre estiveram presentes nos espaços "dos meninos", algumas vezes como partícipes coadjuvantes das histórias dos heróis e super-heróis (muitas vezes com a função de romance heteronormativo), outras vezes até assumindo curiosos destaques de autonomia (nem sempre a Lois Lane é uma vítima indefesa). Além disso, personagens femininas já se destacavam nos periódicos de diversão, como são os casos estudados pela historiadora Natania Nogueira: Miss Fury (inverno de 1942) e Miss America (janeiro de 1944). A Miss Fury, inclusive, foi criada por uma mulher, June Tarpé Mills. Os textos de Natania Nogueira, como o Representações Femininas nas Histórias em Quadrinhos da EBAL, com uma cronologia informativa riquíssima, são facilmente encontrados na internet e eu recomendo a leitura.

Os anos 50 e 60 buscaram reorganizar o lugar da mulher na sociedade estadunidense e teve efeitos em outras sociedades, com o fim da guerra colocando as mulheres novamente como protagonistas ideias ao mundo privado, mais distantes do mundo público. Mas as conquistas dos movimentos feministas dos anos anteriores conseguiram sedimentar uma base sólida o suficiente para que as mulheres voltassem a questionar seus papeis nos anos 70. A revista Wimmen´s Comix (novembro de 1972), com importantes nomes como Trina Robbins, Diane Noomin e, a esposa e declarada musa do Robert Crumb, Aline Komisky. Aline, inclusive, foi membro fundadora do grupo de artistas Twisted Sisters, como críticas ácidas ao machismo e que publicou-se em formas de coletâneas de artistas mulheres e ativistas até 1995.

Ainda que não esteja em nenhuma fala da Mafalda, podemos ouvir ressoar as melhoras ocorridas nas últimas décadas, ainda que ameaçadas por conservadorismos machistas diversos. As super-heroínas estão cada vez mais autônomas de suas vivências e discursos, já não precisam de pares românticos tradicionais, vivenciam sexualidades dissidentes (principalmente homossexuais) e já não são mais fracas que seus amigos e colegas ficionais. A quantidade de artistas também vem crescendo com vigor, inclusive no Brasil, com artistas como Adriana Melo, Francisca Nzenge, Bi Anca, Sirlanney Nogueira, Lilian Mitsunaga, Carina Sena e Lu Caffagi, entre tantas outras.

Apesar de um dia existir para se comemorar as vitórias e se lembrar das crises do passado e dos perigos do futuro, não há como negar que a história das mulheres nos quadrinhos não caberiam apenas a um dia. Faço, então, essa postagem como ponto de reflexão desse momento convencionalizado, sem lhe definir limites. Hoje é um dia, mas foram décadas de lutas, discursos e representações das mulheres na mídia quadrinhos. 

                    

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!