oliverPor Oliver Borges*

* Oliver Borges é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Em meados da década de 1990, tempos antes da unificação com a Disney, por questões financeiras a Marvel precisou ceder para algumas empresas de ZKM5oLhcinema o direito de uso de alguns de seus super-heróis nas telonas. Nessas negociações a FOX se beneficiou com uma fatia generosa de personagens, e esta incluía o universo mutante da Marvel, que além de amplo era um grande sucesso de vendas e popularidade, sendo este o grande trunfo que a esperta FOX usou para iniciar, com os seus X-men, o que hoje conhecemos como a febre dos filmes de super-heróis. De lá pra cá, todos conhecem o final da história, além da FOX, a Sony, Warner e até a própria Marvel (já recuperada) abriu seu próprio estúdio e começou a produzir a linha de filmes mais financeiramente promissora de Holywood atualmente. No decorrer desses anos, a FOX contribuiu com filmes mornos, inexpressivos e uma sequência gigantesca de X-men mal costurados entre si. Deadpool teve sua primeira aparição na “bomba” X-men Origens – Wolverine (sem sombra de dúvida o pior filme da franquia). A aparição do “Mercenário falastrão” não poderia ser mais desastrosa, ele foi transformado em uma espécie de monstro do Dr Fankenstein, sem boca e com uma mescla dos poderes de Ciclope, Noturno e Wolverine, incluindo um par de garras desproporcionais ao tamanho dos seus braços. Interpretado por Ryan Reynolds, que na época foi alvo dos ataques mais severos da crítica e do público, este se manteve firme e forte graças ao seu “fator de cura mutante” e sua popularidade nas páginas dos quadrinhos, para hoje retornar às telas trazendo consigo o mesmo ator no papel principal, mas dessa vez interpretando uma versão muito mais fiel ao Deadpool dos quadrinhos.

Para quem não o conhece direito e precisa entender a história por trás do filme Deadpool, vou explicar rapidinho: O mutante Deadpool surgiu nos quadrinhos da Marvel Comics no ano de 1991, e por dividir as páginas com personagens como Wolverine, Fera, Noturno e outros mutantes do Universo Marvel, que na época estouravam em sucesso de vendas, acabou adquirindo uma boa popularidade. Criado por Fabian Nicieza e Rob Liefeld que é considerado por muitos como o pior ilustrador da história dos quadrinhos de super-heróis, Deadpool no início era apenas mais uma figura de uma série de personagens que foram criados para compor uma tendência da época, anti-heróis mercenários, durões e implacáveis, com suas armas ninja e suas frases de efeito, demonstrando sempre uma tranquilidade e segurança diante das mais desesperadoras situações. Quando a moda passou, a Marvel não teve outra alternativa a não ser reestruturá-lo, criando um Deadpool que escrachava o estilo decadente, mas ainda sobrevivente, do qual ele surgiu. Detentor do “Fator de cura”, poder que permite regeneração praticamente instantânea a quase todos os tipos de ataques e que é tão famoso entre os mutantes, o até então sisudo e sombrio mercenário passou a ser o rei da zoeira nas suas páginas, e vez ou outra, invadindo, sim… eu disse invadindo as HQs alheias dos diversos ícones da “Casa das ideias”. Deadpool não respeita nada e nem ninguém, podendo vencer a própria morte, ele está acima de qualquer lei (se é que existem muitas) no mundo dos quadrinhos; a coisa é tão esculachada que por muitas vezes ele dialoga com o próprio leitor. Persona non grata em meio a todos os heróis Marvel, ele se supera a cada aparição, fazendo uso de sacadas irônicas e violência sem igual; ele tece um humor negro fora do comum entre os roteiros da linha MAX da Marvel (linha de quadrinhos para adultos), onde diversas de suas histórias divertem os fãs e admiradores do estilo. Deadpool é hoje nas páginas dos quadrinhos, o anti-herói mais querido do Universo Marvel.

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A Marvel Studios, parece ter firmado uma regra no estilo de super-heróis: Faça a adaptação do personagem para o cinema, mas mantenha o visual e a essência do herói o mais próxima possível do quadrinho, pois este é a real estrela do filme e não o ego pomposo de alguns diretores de pseudovanguarda… E não é que FOX resolveu seguir!?  O filme conta a história de Wade Wilson (Ryan Reynolds), ex-membro das forças especiais que ganha à vida como mercenário, aceitando apenas as missões que lhe pareçam justas. Nos tempos livres, este homem de humor ácido, transita em um ambiente underground lotado de criminosos, prostitutas, mercenários e pessoas de caráter DF-26953duvidoso; estourando a grana de seus trabalhos com farras, bebidas, garotas de programa e arriscando a sorte em um bolão de apostas chamado Dead Pool, onde ganha aquele que acerta qual deles irá morrer primeiro. Um dia, ele conhece uma prostituta chamada Vanessa (Morena Baccarin) e sem perceber se apaixona por ela, dando início a um relacionamento que incrivelmente o fazia feliz. Um ano depois, quando sua vida parecia ter se acalmado, Wade é diagnosticado com câncer terminal e parece ter pouquíssimo tempo de vida. Então, um misterioso homem, membro de uma organização secreta, promete curar toda a enfermidade de Wade através de uma experiência científica, transformando-o em um mutante com capacidades sobre-humanas. O que Wade não sabia era que o processo lhe custaria muito caro, além da incalculavelmente dolorosa experiência de quase -morte, ele sofreria deformidades irreversíveis e seria transformado em um super-escravo pela mesma organização. Ao conseguir escapar com os seus poderes de cura e sua cara horrível, Wade Wilson decide adotar o nome Deadpool e começa sua guerra por vingança à tal organização. A guerra é tão destrutiva e sanguinolenta que atrai a atenção dos X-men Colossus e Míssil (em uma versão feminina), e a presença destes cria um contraponto heroico à toda a crueldade e sarcasmo do anti-herói escarlate.

O filme de história simples e um pouco previsível atende completamente às expectativas, principalmente por não se levar a sério, ou seja, inova por não tentar inovar. Completamente politicamente-incorreto, violento, sujo e desrespeitador, a produção transpõe para as telas tudo o que o Deadpool é, sem deadpool-23dez2015_02tentar reconstruí-lo em uma visão alternativa do diretor X ou Y; a história se atém a mostrar cenas de ação de qualidade incontestável, tiradas engraçadas, momentos surreais de conversas com o espectador e alfinetadas em outras produções do cinema, artistas, personagens, onde nem o próprio Ryan Reynolds (um dos produtores do filme) fica livre das críticas sacanas feitas pelo personagem principal. Com efeitos de primeira qualidade, coreografias de luta muito boas, movimentação de câmeras admiráveis e o melhor Colossus já visto nas telas até agora, o filme de Deadpool agrada. Em alguns momentos senti falta de um descanso mental em meio a tanta loucura, mas o Deadpool está lá, visualmente e em sua essência irreverente, violenta e imprevisível. O filme rende boas risadas e empolga com as sequências de ação, vai de encontro à tendência politicamente correta dos dias de hoje e cumpre o dever de casa no que se refere à fidelidade aos quadrinhos originais. A despretensão de mostrar algo absurdamente fantástico faz de Deadpool um filme especial, forte candidato a ser um dos melhores do estilo nesse ano. Sua não evidente participação na guerra que a Warner declarou contra Disney nos cinemas mostra maturidade e segurança na produção, o que teve como consequência um filme de censura mais elevada, característica que ajuda a equipe artística a desenvolver algo denso e objetivo na forma de contar a história. Quem gosta do verdadeiro Deadpool, vai gostar muito, mas não sei se este tipo de produção consegue se sustentar dentro do estilo de filmes de super-heróis por muito tempo. Será? Como sempre, só as bilheterias vão dizer.

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►Por Oliver Borges

* Oliver Borges é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pela mesma.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.