Nos anos 80 do século passado era comum as bancas da cidade de Salvador ficarem mais de trinta dias sem receber nenhum título de quadrinhos – e isso para os quadrinhos regulares.

Começar uma mini-série era uma aventura, nunca sabíamos se, ou quando, iríamos concluí-la. Felizmente mini-séries não eram tão comuns, pelo menos na primeira metade daquela década. E nem vou falar do fenômeno das revistas que chegavam fora da ordem, com a número 81 (por exemplo) chegando antes da 80.

No comecinho dos anos 90, viajei a trabalho pra São Paulo e descobri uma verdade aterradora, os quadrinhos que chegavam em Salvador estavam pelo menos 3 meses atrasados em relação ao lançamento. E de lá pra cá tenho acompanhado os altos e baixos da distribuição de gibis em Salvador – muitos mais baixos do que altos.

Acabei me acostumando com a defasagem de pelos menos 30 dias na chegada dos títulos nas bancas locais. Também acabei me habituando com a tal distribuição setorizada – que nada mais é do que dar um nome para o que já era feito na década de 80. Mas nunca mais tinha presenciado uma situação como a que estamos passando agora.

Fazem quase 60 dias que as bancas de Salvador não recebem os títulos mensais de quadrinhos. Tirando um ou outro título que fura o bloqueio invisível imposto pelas distribuidoras, nada de nada. E isso já está ficando claro, as prateleiras das bancas estão ficando vazias – e não apenas as de quadrinhos. Só os semanários e alguns títulos especializados estão chegando normalmente.

Conversei com alguns dos responsáveis pelas bancas e todos disseram a mesma coisa "uma distribuidora comprou a outra e eles estão fazendo inventário, além disso virou um caminhão com as revistas e até agora nada de reposição". Era sempre isso, ou uma variação disso.

Quando perguntava qual a previsão de normalização, recebia como resposta sorrisos sarcásticos, balançares de cabeças ou o famoso "sem previsão". Me senti de volta aos anos 80 – no pior sentido possível.

Acessei o site das duas distribuidoras citadas pelo pessoal das bancas, DINAP e Fernado Chinaglia, e a única informação disponível está no site da Chinaglia, informado sobre a autorização do CADE para aquisição da distribuidora por parte do Grupo Abril. Só.

Agora o jeito é fazer como nos anos 80, esperar e rezar para as revistas chegarem… Ei! Peraí! Estamos em pleno século XXI e eu posso adquirir o que quiser pela Internet! Mesmo com os recentemente reajustados valores dos Correios, é possível dar um jeito.

Quer dizer, posso resolver o meu problema mas não resolvo o problema da terceira maior capital brasileira simplesmente ficar 60 dias sem ser abastecida de informação, tecnologia, ciência, entretenimento e… Quadrinhos!

E na sua cidade? Como anda a distribuição?

——— Atualização em 16/5/2012 ———

Desde o dia 14/5/2012, mais de 60 dias depois da interrupção na distribuição de gibis em Salvador, tenho acompanhado o irregular retorno das HQs às bancas soteropolitanas.  Algumas bancas receberam partes dos títulos regulares, outras ainda não receberam mais que um ou dois títulos, mas nenhuma recebeu todos os gibis que costumava disponibilizar mensalmente a seus clientes.

Continuo aguardando a chegada de J. Kendall e de Mágico Vento às bancas. Desde o início do desabastecimento em Salvador já foram lançados os números 117, 118 e 119 de Mágico vento, além dos números 88, 89 e 90 de J. Kendall.

——— Atualização (final) em 20/5/2012 ———

Depois de procurar em diversas bancas por J. Kedall e Mágico Vento, finalmente encontrei uma que dispunha de duas edições de J. Kendall, a 89 e a 90. O dono da banca disse que se o número 88 não veio com esses dois que chegaram era mais provável que não chegasse mais. Ou seja, a editora tá se lixando pro direito do consumidor e para os prejuízos dos seus revendedores.

Agora é só esperar a chegada das edições 118 e 119 de Mágico Vento, por que dificilmente a 117 vai chegar aqui em Salvador. Acho que depois dessa suspenderei definitivamente a compra de gibis em bancas de revistas.

 

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.