Por Marcelo Lima*

Daytripper, série em dez partes publicada nos EUA sob o selo Vertigo e criada pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá tem sido considerado pela crítica norteamericana como o melhor trabalho da dupla. A coletânea com as dez histórias acabou de entrar pra lista do New York Times como o álbum de capa cartonada mais vendido desta semana. Os próprios autores se gabam pela produção da obra no site 10 Pãezinhos e www.fabioandgabriel.blogspot.com – onde eles lançaram o Daytripper Challenge. Eles estão mais que certos em comemorar a grande fase: Daytripper é primorosa, tem um enredo complexo que toca e concilia diversos pontos narrativos.

É um pouco complicado falar sobre Daytripper sem estragar surpresas. Como revelaram os gêmeos, a HQ é sobre a vida, mas para isso eles se dedicaram a criar toda  uma atmosfera ligada à morte. Brás de Oliva Domingos, protagonista, vive um cotidiano pouco movimentado, tentando conciliar seu trabalho como escritor de obituários e a carreira que não decola como escritor. Desde a primeira edição o leitor é cativado pelas questões que pairam na cabeça de Brás Domingos, que é à referência de Brás Cubas (personagem de Machado de Assis no romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas"), busca desvelar o significado de sua vida. Para isso, os gêmeos criaram histórias narradas, quase sempre, por Brás, que demonstram suas relações pessoais e com os fatos do mundo. Em cada história ele morre numa idade diferente, havendo distensão ou encurtamento do seu tempo de vida de uma edição para outra, permitindo assim ter um vislumbre dos diferentes Brás Domingos que uma vida pode conter.

 

Trata-se de um trabalho com arte espetacular – tanto nos traços dos gêmeos, quanto nas cores de Dave Stewart – e, principalmente, uma obra arte sequencial com argumento e estrutura narrativa precisos, que conferem, ao mesmo tempo, unicidade e multiplicidade à trama. Em meio aos anseios e pensamentos inconclusos de Brás sobre sua vida há dois condutores do enredo: sua rede de relacionamentos variados, que envolve seu pai e mãe, sua mulher, seu melhor amigo, a ex-mulher e seu filho; e o universo urbano do Brasil, com passagens pela Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.

Os relacionamentos, quase sempre vistos sob o ponto de vista de Brás, são o cerne da HQ. Através da maneira como a personagem lida com seus íntimos comentários vão sendo tecidos acerca da importância que a família, a amizade e o amor tem na vida de um indivíduo. Em destaque está a relação pai e filho, tendo aquele uma enorme importância sobre a formação dos sonhos de Brás – o rapaz quer ser escritor como o pai, ao mesmo tempo em que teme ser comparado a ele. É um assunto que pode cair facilmente no brega ridículo, mas felizmente isso não ocorre, pura e simplesmente porque texto e desenhos estão muito acima da média, convencendo facilmente qualquer leitor dos sentimentos de Brás e dos que o rodeiam.

A representação da contemporaneidade e do espaço geográfico em que as histórias acontecem não funciona somente como fundo histórico e palco para desenrolar do enredo. Desde a ida ao Teatro Municipal de São Paulo, da primeira história, ao acidente em no Aeroporto de Congonhas, e passando pela festa de 2 de fevereiro no Rio Vermelho, todo a narrativa é permeada por um retrato fidedigno do Brasil da primeira década do século XXI. A história que acontece na Bahia foi a razão de ter me adiantado a ler Daytripper antes de sair no Brasil (lançamento que está previsto para o segundo semestre de 2011). Tomei conhecimento dela através do post “Now, then, and how something that happened to you can inspire you 10 years later”, escrito por Fábio Moon no blog da Vertigo. Neste texto ele esclarece ao leitor norteamericano como são as festas populares no Brasil, especificamente na Bahia, e como isto lhe inspirou na criação da segunda história de Daytripper.

A Bahia é graficamente bem ilustrada. O pôr-do-sol na Chapada Diamantina mostrada na HQ é capaz de remeter rapidamente a essa experiência única – mesmo para quem nunca a teve. As caminhadas no Pelourinho deixam ver que Salvador não é só a terra de gente simpática e agradável, mas também de pessoas insistentes que tentam ganhar a vida tirando a paciência de turistas. A observação dos autores vai tão longe que eles colocam um de seus personagens falando mal do Cabula, bairro soteropolitano de reconhecida má fama devido a roubos e falta de estrutura. Mas o melhor dessa história é a Festa de Iemanjá e a amarra feita entre vida, morte e orixás que não pode ser revelada nessa resenha.

A faceta cronista dos gêmeos, que já se via em algumas de suas HQs e na tira “Quase Nada”, chega neste trabalho ao melhor nível executado pelos dois – onde, inclusive, fazem suas melhores referências literárias. E isso se afina à ficção sobre a vida, mas que fala sobre a morte, quando eles retratam o acidente no Aeroporto de Congonhas com uma verve dramática que relembra a cobertura detalhada e espinhosa do 11 de setembro.

Mesmo tendo início, meio e fim em todas as edições, há continuidade de sentido na leitura da série. Ao fim, se tem a impressão de que um grande tratado sobre a vida foi lido, algo que não respondeu verdadeiramente aos mistérios de nossa existência, mas jogou luz sobre essa experiência. É um trabalho único na Vertigo por não recorrer a aventuras extraordinárias, poderes místicos, monstros, intrigas políticas ou qualquer artifício do tipo. É uma história sobre a mundanidade da vida e a multiplicidade que se esconde sob a aparente simplicidade ligada ao cotidiano. Talvez tenha sido uma das melhores HQs  finalizadas em 2010.

P.S.: Sobre questões de vida e morte, há uma outra HQ que consegue tão bem o mesmo que Daytripper consegue ao tentar mostrar a multiplicidade de vidas contida em uma vida. Trata-se de Vidas Breves, de Neil Gaiman, arco dentro da macrossérie Sandman.

P.P.S.: A leitura de Daytripper se deu em um único dia, a tarde da quarta-feira, dia 16 de fevereiro de 2011. Aquele dia ficou marcado em minha mente como um dos mais cinzas da minha  vida, apesar de ter lido o álbum sob o sol do Rio Vermelho, sentado sobre areia de praia. Ideias sobre vida e morte se alimentando ficaram se contorcendo em minha cabeça. No dia seguinte, 17, aniversário de minha mãe, morre minha avó.

VEJA PREVIEW DE DAYTRIPPER AQUI!

* Marcelo Lima é o autor do quadrinho "Lucas da Vila de Sant'Anna da Feira", álbum premiado com o Troféu Angelo Agostini de melhor lançamento independente em 2011.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...