Em um futuro muito distante, a humanidade está dividida entre vários planetas. Com características bem distintas, cada esfera tem particularidades que redefiniram a cultura e os costumes dos seus colonos, criando civilizações surpreendentes em cenários completamente inóspitos ou em paraísos perdidos. Entretanto, apesar das longas distâncias e séculos longe de sua “casa”, o ser humano carrega em seus genes o mesmo instinto de sobrevivência dos tempos primordiais, refletido nas suas relações e seu comportamento com seus iguais. Esse poderia ser uma bom resumo para falar da série O Ciclo de Cyann de François Bourgeon e Claude Lacroix. Porém, não é o suficiente para englobar todos os fascinantes universos criados nesta grandiosa obra de ficção cientifica e um dos melhores quadrinhos do gênero no mercado europeu.

Na história, somos apresentados a Cyann Olsimar, herdeira da família mais poderosa de Olh e única pessoa que poderá comandar uma expedição a longínqua colônia de Ilo em busca de uma provável cura a epidemia de febre púrpura, que assola a população masculina de seu lar. Entretanto, a jovem aristocrata não tem nenhum tipo de disciplina ou responsabilidade. Apesar de sua aptidão em pilotagem e luta corporal, é famosa pelas suas atitudes levianas e seu temperamento inconstante, o que agrava uma crise entre as duas instituições dominantes da sociedade: A ordem religiosa da Fonte e os Sondadores, descendentes dos primeiros habitantes.

O primeiro álbum da saga, A Fonte e a Sonda (1993), se resume a destrinchar sobre o fantástico mundo de Olh e mostrar as desventuras da relutante protagonista em sua terra natal. Na verdade, falar em “resumir” soa até como algo injusto para o grande trabalho feito pela dupla francesa não só neste como nos próximos números. Altamente detalhista e muito minucioso, Bourgeon ultrapassa os limites da imaginação com a incrível concepção de todo um planeta nos mínimos detalhes, tanto na construção da flora e da fauna como na própria sociedade humana presente e sua ordem cultural. Um exemplo disso, são as castas e sua identificação com a letra “O”, onde as mais respeitadas e ricas ostentam no início dos sobrenomes (como Olsimar) enquanto as famílias das terras baixas o apresentam no final, como é o caso de Nacara ThilvarO, melhor amiga de Cyann.

E se no primeiro número o trabalho é digno de muitos elogios, a segunda edição (Seis Estações em Ilo, de 1997) consegue superar a sua predecessora com um novo mundo a ser explorado e uma trama tirada das aventuras expedicionárias. Nesse ponto, é também preciso salientar que o trabalho narrativo não fica atrás, com personagens ricos e em processo de mutação constante, solidificando totalmente o universo proposto pelos autores além de produzir um thriller repleto de reviravoltas e com uma boa dose de romance e política.

Já em Aieia de Aldaal (2005), criado com um hiato de quase 10 anos (devido ao litígio de Bourgeon com a Editora Casterman), o tempo/espaço deixa de ser um limite e vemos Cyann encarando uma novo desafio em um planeta de rotação absurda e uma sociedade que luta pela sobrevivência a qualquer custo. Nesse ponto, a personagem se mostra completamente acima de suas origens, mas com a força característica de todas as mulheres que povoam as obras do escritor. Seu ultimo trabalho na franquia, As Cores de Marcade (2007), consegue conservar tudo que foi concebido nos seus antecessores e se mostra como um poderoso capitulo introdutório a conclusão que está por vir – e que ainda não tem previsão de saída.

O Ciclo de Cyann tem tudo que qualquer história de ficção cientifica precisa para se legitimar. Altas doses de abstração, com boa profundidade nos seus personagens e nenhum pudor na principal característica desse gênero: uma potente dose de realidade travestida de  imaginação, como vemos nas protagonistas Cyann e Nacara, que refletem muito bem as diferentes faces da juventude e seus conflitos com a tradição familiar. Ou até mesmo na perversa ordem social de Marcade, que pode se equiparar as grandes cidades capitalistas onde interesses e informações custam mais caro do que a própria vida. Ou seja, coisas constantes em nosso cotidiano que tomam um visão macro e “chocam de frente” para nos fascinar em seus reais absurdos.

Além disso tudo, temos um trabalho minucioso de criação para ecossistemas encantadores, que de tão bem pensados renderam uma edição especial no formato de um Compendium (100 – La Clef des Confins, de 1997) onde o leitor pode se deslumbrar com os elementos que formam a inquietante galáxia do futuro, desde a fauna e a flora como na moda ou arquitetura de determinados povos, como vemos na ilustração abaixo. Ler uma série de álbuns tão fascinantes, originários das mentes de verdadeiros criadores de mundos, faz qualquer um sentir que um boa dose de fantasia, é sempre boa para enxergar a realidade que nos cerca.

Ps: Infelizmente, não somente O Ciclo de Cyann como outras obras de Bourgeon nunca foram publicadas oficialmente no Brasil. No máximo, chegaram as nossas terras pela editora portuguesa Meribérica, que já teve uma representação em nosso país e publicou as duas primeiras edições da franquia. Já as duas ultimas foram traduzidas pela Editora ASA, também lusitana.

— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.