Em 2013 tive a oportunidade de participar de um curso de estudos de Quadrinhos promovido pelo site educativo coursera.org. O curso, comics-essay-2-crimnal-bad-nightintitulado Comics, era destinado àqueles que gostariam de se aprofundar na História dos HQs nos Estados Unidos e era ministrado todo em Inglês.

Para quem não está muito familiarizado com a língua, talvez não saiba que algumas palavras e conceitos não possuem uma tradução equivalente em português, ou quando possuem, seu significado dentro de nossa cultura não tem o mesmo peso que nos países de língua inglesa.

Um desses conceitos é o que se refere à palavra “closure”. A tradução mais próxima seria encerramento, porém, ela não é usada no Brasil na mesma forma que é usada lá fora. Por exemplo, é muito comum em filmes e séries que um casal se separe e depois de anos um dos personagens envolvidos ainda esteja remoendo fatos do passado sem conseguir seguir em frente (move on) e aí, um amigo próximo sempre diz: “you need a closure!”, ou seja, você precisa resolver isso, por um ponto final, se resolver com a pessoa e enterrar o passado para conseguir seguir em frente.

Enfim, um dos essays que tínhamos que escrever era sobre uma página da série noir Criminal. A análise é feita em cima do que o professor havia indicado anteriormente nas aulas, seguindo parâmetros estipulados pelo curso. De acordo com o prof. William Kuskin, cada página é um poema e deve ser lia como tal. Em cada análise devemos apontar um argumento que devemos seguir até o final.

 

All you need is…. Closure! ( Todos precisamos de um ponto final! – parodiando a música dos Beatles – All you need is Love)

Não se deve nunca deixar coisas a serem ditas ou a fazer. “Preciso de um ponto final!” É o que ouvimos o tempo todo nos filmes. Aquele sentimento de deixar algo sem terminar pode consumi-lo por dentro durante noites a fio. “O que fiz de errado? Como posso mudar? Como seguir em frente?”É como se esta necessidade por um ponto final fosse o que nos move adiante e esta sensação não é diferente para Jacob em sua Bad Night do volume dois de Criminal.

Apesar de termos apenas uma página para analisar, esta única página é tudo que precisamos para extrair algumas ideias que acredito possam ser encontradas em toda a série de Criminal. Nesta página de quadros 3×3 com uma forte atmosfera noir, encontramos Jacob sozinho em seu apartamento. Ele é um cartunista, cujas tiras podem ser vistas no jornal local todos os dias. Ele tem prazos e não parece se importar. Por que?

O telephone toca. É seu editor. Ele deixa uma mensagem já que Jacob não atende… O que em sua vida ou em seu passado faz com que pareça que ele tenha um fardo para carregar? Não parece feliz e mesmo se pensarmos que ele ama o que faz, seu apartamento é escuro, como reflexo de sua vida.

Talvez possamos encontrar mais pistas sobre sua personalidade se prestarmos muita atenção no personagem de sua tira. Seu nome é Frank Kafka e ele é um detetive particular. Seria Kafka seu alter ego? Afinal, seu nome é uma alusão ao famoso escritor checo que contou a estranha história do homem que se transformava em barata no livro Metamorfose. Uma análise superficial nos diria que ele é um homem que busca mudança, mas ao mesmo tempo está preso a um evento em seu passado que não permite com que siga em frente, e, mesmo assim, ele parece ter desenvolvido um método para isso:

 “I try to always leave a strip in progress, but close to being done… That way, the next day you have something to start right in on because that last panel calls out to you… like an unfinished sentence.” (Brubaker, Criminal: volume 2. P. 3)

“Procuro sempre deixar uma tira em progresso, mas perto de termina-la… Desta forma, no dia seguinte você tem algo para recomeçar porque aquele último painel grita por você… como uma frase inacabada.”

É senso comum pensar que um trabalho diga mais sobre seu autor do que qualquer biografia e se considerarmos isto, o que levou Ed Brubaker a criar um quadrinho dentro de outro quadrinho nos daria alguma perspectiva sobre Jacob oferecendo uma maneira bem original de entendermos a personalidade de seu protagonista, mais que isso ainda, o que Jacob pensa sobre seus métodos é exatamente o que nos chama a atenção para como ele se sente.

Se dermos uma olhada no quarto painel, podemos lembrar de uma das aulas do professor Kuskin nos dizendo que uma das razões dos quadrinhos serem tão atraentes é porque na maioria das vezes eles nos dizem sobre nós mesmos, portanto, ao nos contar sobre seus métodos – que na verdade é um método criado por Archie Lewis – ele nos faz pensar sobre nossa busca por significado e continuidade de nossas vidas. Esta página nos deixa com mais perguntas que respostas, mas não é exatamente isso que uma história em quadrinhos deveria fazer?

No intuito de encontrar algum significado ou de tentar descobrir qualquer coisa, nós precisamos mergulhar em cada painel e sentir a tensão desta história de suspense: do primeiro ao quarto quadro Jacob está realmente concentrado no que está fazendo, mesmo quando é interrompido pelo telefone e então, no quinto quadro ele sai deixando o relógio no sexto quadro para nos lembrar que é hora de ir, mas juntamente com as imagens temos sua fala explicando porque ele sempre deixa alco inacabado, para que assim ele tenha algo em que se agarrar, como gostaríamos de acreditar que temos em nossas vidas. É como se sua vida dependesse daquela sequencia de eventos repetitivos, da mesma forma que as nossas vidas dependem. Ele se sente seguro desta forma… Por que? Que esqueletos ele tem escondido em seu armário?

É provável que nunca saibamos as respostas para estas perguntas, mas o que sabemos de fato é que esta necessidade de encerramento de algo é relevante para todos nós e ao deixarmos algo inacabado, podemos levantar no dia seguinte com um propósito. Esta necessidade é o que nos faz esperar por algo de bom a cada dia e talvez seja exatamente isso que Jacob mais deseja: um ponto final.

 

 “Você pode se conter diante dos sofrimentos do mundo – é algo que tem liberdade de fazer e corresponde à sua natureza, mas talvez seja esse autocontrole o único sofrimento que você poderia evitar.”

 Franz Kafka

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.