Quem nunca ficou tabaréu de amor? Abestalhado mesmo com o brilho no olhar e, inspirando-se ao bom e velho Gonzagão, ocabra1deu "psiu" e pediu um auxílio do formoso sabiá? Ah, amar é isso: transforma o homem apaixonado em pássaro, em lenda! Pois é essa a tônica do álbum O Cabra (Flávio Luiz – roteiro e desenhos; Artur Fujita – cores /Papel A2 Texto & Arte).

Tudo começa em três mil e lá vai trabuco na árida Sanfônia, lugar abastado repleto de açudes, que comanda os lugarejos de Capachia, parte ‘puxa-saquística’ da região, e Forroboland, lado miserável onde calangos e cururus são gente e pelejam para sobreviver. E não precisa ir lá para sentir na pele essa realidade, bem presente em nossos tempos, infelizmente.

Nessa “febre da Babilônia”, como diria o meu pai – pernambucano de nascimento, encontramos Severino Crispim dos Santos, O Cabra dado como morto, tocaiado outrora em pleno casório pelos capangas, vulgo ‘puliças’, de Antonius Bentus, coronel que desaprovava o romance com sua filha Mary Beautiful.

Severino nem desconfiava que o amor expressado para Mary, sentimento tão singelo como a beleza da flor de Fortaleza, não passava de insignificância à moça de olhos verdes e pele lustrosa. Ela queria luxo, vida de princesa e não a riqueza da simplicidade, a amizade do bando de Severino. Saiba, amigo leitor, que menosprezo dói mais que espinho de mandacaru no couro; é dor doída no coração.

ocabra2

Entre padre papador de querubins, tanajuras e moscas elétricas, O Cabra precisa enfrentar com paixão esses dilemas em nome dos humildes, e sua sede de justiça matará a sede dos justos, dos puros de coração. Pureza florescida em Mary Beautiful 99. Quem diria que um robô-clone sobressalente pode amar sem ressalvas, desobedecendo comandos e circuitos!  

O amor é cego, assim como um dos olhos de Severino, pulsante rio vermelho que é o sangue que corre apaixonadamente. Agora, nosso herói irá batalhar para desfazer os malfeitos cometidos.

Flávio Luiz mostra-nos, nas mais de 50 páginas que compõem a HQ, que para formular uma grande trama basta poucos ingredientes, dignos de um bom tempero nordestino: a humildade, o resgate à nossa cultura e origens, o puxar da faca com coragem e um sujeito com alma de menino e sabedoria de ninja.

Porreta O Cabra, não sabe? Lembra aqueles Severinos que cruzam nossos caminhos, lampejam como ninguém as sapiências dos cordéis, que narram as histórias desse Brasil de meu Deus.  

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1