► Por Guido Moraes*

 


Black Dossier é o terceiro volume da Liga Extraordinária, e único título a não ser publicado no Brasil. Pois é, temos em língua portuguesa o quarto volume publicado (Liga Extraordinária: Século 1910 e Século 1969), mas não temos o terceiro, simplismente por causa dos custos de publicação. Neste volume, a megalomania de Alan Moore chega ao máximo, e o livro é cheio de textos em diversos formatos e papéis.  Isso porque a editora que publicou a obra na época (DC Comics, 2007) censurou muitas outras coisas, como por exemplo um vinil LP45 com músicas da banda de Alan Moore a servir de trilha sonora para a história.

A história se passa em 1958, após a dissolução da liga ao final do livro 2. Quartermain e Mina Murray estão atrás do Dossiê que dá nome a HQ, e que contém arquivos detalhando a atividade de todas as ligas de heróis conhecidas pela inteligência britânica, inclusive a deles. E numa história de espionagem, meio estilo guerra fria, o legal é ver o casal enfrentando ninguém mais ninguém menos que James Bond, o espião mais famoso do mundo. O personagem traz um ar caricato, oculto sob o nome "Jimmy". Mas quem é fã dos filmes do agente, sabe que a estrutura da MI-6, com seu chefão atentendo por "M" é inconfundível.

Bom, aí vem a justificativa da megalomania do Moore. Quando eles finalmente conseguem o Dossiê e começam a ler, a história para, e ao virar a página, damos de cara com o próprio Dossiê, exatamente na página que a Srta. Murray estava lendo. Uma variedade de textos, como relatórios da inteligência britânica, contos de literatura, quadrinhos sobrea vida de alguns personagens, relatos eróticos de outros, peças de teatro inacabadas de Shakespeare, etc. Como disse anteriormente, cada um em um papel diferente, em um formato diferente. O problema é que mesmo para os mais fluentes no inglês, alguns textos são de difícil compreensão, pois a técnica de escrita varia de uma mídia para outra, e as referências são inúmeras, impossíveis de se acompanhar. Fãs britânicos e norte-americanos chegaram até a elaborar um guia, mas mesmo assim fica difícil e cansativo acompanhar tudo se seu intuito é mais acompanhar a história do que absorver todas as referências.

A história, com a narrativa de Moore e os desenhos de Kevin O`Neill continua impecável. Os personagens, muito bem trabalhados, seguram o leitor só pelos olhares. A comunicação corporal do casal Murray-Quartermain também é fantástica, fazendo nos ler algumas páginas rapidamente só para ver o desfecho prometido pelos dois durante as cenas. Para detalhar, em uma determinada parte da história (sem spoilers), Mina Murray e Allan estão a caminho de um encontro com um certo Sr. Conversando, a Srta. Murray cobra Quartermain por estar excitada e ele não ter correspondido na noite anterior. E assim, toda a conversa com o Sr. em questão torna-se desinteressante, já que tanto o casal quanto nós leitores estamos esperando o que vem depois. A dupla se entreolha algumas vezes, quando percebe informações importantes, e é isso que mais uma vez demonstra o grande poder de narrativa dos autores, nos trazendo para dentro da história ou nos levando a imaginar o desfecho, Quadro a Quadro, página a página.

No mais, não contarei detalhes para não estragar a história, mas vale dizer que até páginas em 3D ela tem, com aqueles famosos óculos (de lentes verdes e vermelhas) destacáveis no meio do livro. 

Vale a pena!

 

____________________

*O conteúdo deste post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...