Hoje é dia do equinócio de setembro, chegada da primavera no hemisfério sul e estréia no Quadro-a-Quadro: teremos o primeiro post da coluna Contatos Imediatos.

A intenção é que gente que não costuma ler quadrinhos descreva suas impressões sobre alguma obra da nona arte que tenha lido.

A primeira abduzida foi Lorena Vasconcelos, jornalista que também faz aniversário hoje. Feliz aniversário Ló!

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 Lorena Vasconcelos

► Por Lorena Vasconcelos*

 

 

Quadrinhos podem ser mais do que nostalgia

Sempre tive a opinião de que quem gosta de Quadrinhos sofre de uma grande dose de nostalgia. Como se ao ler ou colecionar, a pessoa quisesse resgatar um sentimento, uma sensação, um cheiro, uma época que passou, que ficou pra trás.

Apesar de sempre ter sido sensível a todos os tipos de manifestações artísticas (é o que dá nascer sob os efeitos do signo de Libra), nunca me senti “tocada” pelos quadrinhos, apesar de reconhecê-los como arte de primeira. Para explicar esse meu deslize de personalidade (o exagero também faz parte do pacote libriano), repito sempre uma frase que um amigo meu diz: “Todo sentimental tem seus dias de Brutus”. E acho que essa é uma das minhas manifestações desse meu lado insensível.

Mas quando, há alguns poucos anos, ganhei de preseCapote no Kansas (capa)nte de aniversário o livro “O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão”, comecei a perceber que, mais do me remeter ao sentimento de nostalgia, os quadrinhos podiam (e podem) me mostrar mais uma possibilidade de diálogo entre as artes, dentre elas o Jornalismo. Afinal, como representante da classe que sou, tenho que defender a forma que arranjei pra fazer arte, já que nunca soube cantar, dançar… enfim, mas essa é uma questão para outro texto.

Recentemente, a mesma alma boa que me apresentou ao livro “O Fotógrafo”, me entregou um exemplar do livro “Capote no Kansas”. A minha primeira reação foi positiva, porque só poderia ser sucesso um quadrinho baseado no livro “A Sangue Frio”, do fantástico – e excêntrico – Truman Capote, escritor norte-americano, pioneiro do Jornalismo Literário, que para mim escreveu esse que é um dos melhores livros que já li.

Dei início à leitura duas vezes. Parei no início. Ainda vou conseguir aprender a dividir o meu tempo corretamente: muitas horas para o trabalho, muitas pra família e muitas pro lazer e pra leitura. Até lá, algum desses aspectos continuarão a ser esquecidos: vida cruel.

Essa semana disse a mim mesma: agora vai! Comecei a leitura. Terminei. E gostei. Muitas impressões ressoam fortes ainda. Contar uma história através dos quadrinhos permite que sejam criadas diversas formas para diferenciar os espaços de tempo pelos quais os personagens passam. E gostei disso. No caso do “Capote no Kansas”, a dose exata entre as cores preta e branca foi feita de maneira bem criativa e clara. Para mim, como uma leitora iniciante, facilitou bastante o entendimento do percurso da história.

Gostei também da sensação de que a leitura transcende a palavra e perpassa o entendimento através de cada ilustração. Os traços da personalidade de cada um dos personagens são facilmente identificados nos desenhos, a forma como um deles manuseia objetos ou o olhar e postura do corpo podem definir perfis, definir o tom usada para pronunciar uma frase.

Também como leitora iniciante, algumas dificuldades me atormentaram. Acho que ao desenhar personagens, as diferenças físicas entre eles devem ser bem destacadas. Me perdi algumas vezes sem saber qual dos personagens estava em cena, especialmente naquelas em que o diálogo não ajudava na identificação.

Vou capote-no-kansas-parteapontar também outra dificuldade, mas por favor, não me chamem de louca. Falei aí em cima do quanto é bom o entendimento transcender a palavra e basear-se também no visual, no desenho. Mas ao mesmo tempo isso tem seu o lado contraditório, muitas vezes tive a sensação de que minha mente não construiu imagens naturalmente e ficou somente baseada na ilustração feita pelo artista.

Sabe aquela sensação de você ter pensado uma cena de um jeito e o autor ter construído de outro? É mais ou menos isso. Mas acho que essa é uma situação comum a todo tipo de arte que parte da palavra para a construção de imagens. Sinto muitas vezes isso no cinema, no teatro e até em novelas, pra ser mais simplista.

De todo, a experiência foi positiva, principalmente porque deu início à transformação em alguns pensamentos que sempre tive. Confesso que continuo com o sentimento de que pessoas que gostam de quadrinhos são nostálgicas. Mas já começo a entender que os quadrinhos podem ser muito mais que isso, e que mesmo quando é nostalgia, ainda sim pode ser bom.

Portanto, além de estar aberta a ler outras obras (por favor, indiquem aquelas que não me façam desistir no meio do caminho), ainda sou capaz de indicar a leitura. E quem sabe com ajuda de almas boas, não espanto de vez a nostalgia e no futuro escrevo o meu próprio livro ilustrado? Alguém se habilita?

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P.S.: Se puderem ler “A Sangue Frio”, leiam imediatamente.

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*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.