Foto RafaCom o anuncio essa semana do lançamento do quadrinho Female Force: Liza Minnelli com arte do quadrinista baiano Rafael Cordeiro, nós do Quadro a Quadro fomos correr atrás de saber quem é esse artista que começa a mostrar seu trabalho no mercado estadunidense. Num encontro bacana, acompanhado de uma boa pizza, Rafael falou sobre seu trabalho, como os quadrinhos surgiram em sua vida e quais são as suas expectativas para o futuro.

Confiram abaixo nosso bate papo com o Rafael e saiba mais sobre esse baiano de 39 anos, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um verdadeiro apaixonado pela nona arte.

 

Pra começar, vamos ser direto: Quem é Rafael Cordeiro?

– Um cara que nasceu artista, estudou pra ser arquiteto urbanista e se tornou também conselheiro para assuntos randômicos.

A Arquitetura levou aos quadrinhos ou os quadrinhos mostraram o caminho para a arquitetura? Existe uma relação entre ambos em sua vida?

– Gosto de quadrinhos desde muito pequeno, mesmo antes de saber ler. Meu talento sempre foi relacionado majoritariamente à ilustração e, embora os quadrinhos tenham sido minha porta de entrada para o mundo da leitura, ainda vejo o mundo pelos olhos de um desenhista.

A arquitetura e o urbanismo entraram como uma opção mais lógica e de maneira “tardia” na minha vida. Fiz um teste de aptidão no colegial que apontou para duas áreas: Belas Artes e Arquitetura, praticamente com o mesmo percentual (mais de 90%). Em Belas Artes, achei que veria mais do mesmo que estava acostumado a fazer de maneira instintiva; optei por Arquitetura por achar que teria uma visão diferenciada do mundo, além de conseguir enxergar uma carreira mais sólida – pensando estritamente no mercado de trabalho em Salvador.

RAFAEL_Imagem 009Durante a faculdade, estes dois aspectos começaram a dialogar entre si, de maneira bastante natural e, francamente, os quadrinhos ganharam muito mais com a arquitetura do que o contrário no meu caso. A visão espacial inerente ao ofício do arquiteto confere uma qualidade singular ao ato de desenhar.

Você trabalhou com Cedraz, para muitos o principal quadrinista da Bahia. Conte-nos como foi essa experiência e qual fator de importância desse período na sua formação como autor de quadrinhos.

– Trabalhei com Cedraz no ano de 1997, numa época bastante conturbada da vida: estava no terceiro ano da faculdade, me desdobrando entre os estudos e o trabalho como desenhista. Foi um breve trabalho com ilustração infantil, não relacionado à turma do Xaxado, mas que foi fundamental para minha formação como autor de quadrinhos, pois ele era uma prova viva de que era possível, embora árduo, trabalhar com quadrinhos na Bahia.

Não tive um contato mais duradouro como gostaria, mas lembro deste momento com muito carinho, e fiquei muito sentido com a partida dele. Era um homem bom e um sonhador, que inspirou muita gente a seguir no mundo da nona arte. Só lamento que ele não tenha sido tão celebrado pela mídia local como ele merecia em vida, embora seja um nome respeitado nacionalmente, tendo recebido vários prêmios. Mas embora o homem seja mortal, o artista e a suas criações têm a bênção da perpetuidade.

Você ainda lê quadrinhos? Quais títulos tá acompanhando?

– Leio bastante, é quase como respirar: um reflexo fruto da necessidade interior. Entre o que tenho lido recentemente, destacam-se:

Habibi, de Craig Thompson;
Asterios Polyp, de David Mazzucchelli (que reli mês passado);
Astronauta, de Danilo Beyruth (pelo selo Graphic MSP);
Bidu – Caminhos, de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, do mesmo selo;
X-men (All New X-men e Uncanny X-men), que voltei a acompanhar no final do ano passado.

TLBD - fear fullfilledDentro dos quadrinhos, qual o sonho do Rafael?

– Ter destaque e reconhecimento na área, além de propiciar que outros que partilham do mesmo sonho possam ter a possibilidade de encontrar seu espaço no meio e, acima de tudo, ajudar na consolidação dos quadrinhos como expressão artística de qualidade.

Qual foi seu primeiro trabalho profissional para os quadrinhos?

– Trabalhei por 06 anos em uma editora voltada para o público infantil sediada em Salvador, na qual era possível incorporar alguns elementos dos quadrinhos nos livros publicados. Mas o primeiro trabalho profissional 100% com quadrinhos aconteceu em 2004.

Um escritor de quadrinhos francês, chamado Jean-Stephen Kneip, viu meu portfólio online à época no site da Dargaud, gostou do meu trabalho e me convidou para montar uma série de posters para uma história dele (Rhys Dante, Detéctive des Revenants) que foi apresentada no festival de Angoulême em 2005. Produzi ainda alguns esboços para outra história dele, mas ele faleceu precocemente em meados de 2005.

Foi a primeira pessoa do meio que teve acesso a meu trabalho como autor (mostrei a ele uma história que escrevia e desenhava na época), e tive o primeiro parecer profissional sobre o conjunto de uma obra minha – percebendo que teria que melhorar substancialmente minhas capacidades como escritor, já que confiava somente no encanto que os meus desenhos causavam nas pessoas em geral.

TLBD_page 03E quando você sentiu que estava preparado para trabalhar profissionalmente? Foi uma decisão sua ou alguém o influenciou?

– Uma decisão minha, baseada no feedback que eu fui tendo das pessoas ao longo do tempo. Jean certamente foi um divisor de águas, porque o contato com ele me reconectou às HQs europeias, depois de uma adolescência voltada para o quadrinho norte-americano e para o mangá, que na época poucos brasileiros conheciam.

Minha visão sobre o mundo dos quadrinhos se ampliou exponencialmente, e comecei cada vez mais a estudar sobre quadrinhos e atividades correlatas, como a arte da escrita. Fui apresentando alguns projetos próprios nas oportunidades que tive, como na Rio Comicon 2010 e em algumas editoras parisienses em 2013, o que me ajudou a entender como funciona a outra ponta do universo dos quadrinhos – o processo de seleção, publicação e distribuição de revistas.  Posso dizer que entender os quadrinhos como negócio ajudou a alimentar o sonho de trabalhar no meio, de maneira realista.

Como surgiu a possibilidade de trabalhar nessa HQ sobre Liza Minnelli?

– Após minha peregrinação em Paris no ano passado, tive contato com pessoas na área que me levaram a descobrir a existência de diversas editoras e estúdios de quadrinhos em diversas partes do mundo. Um contato foi levando ao outro, até que surgiram três possibilidades – uma delas com a Bluewater Productions, sediada nos EUA. Das três, a Bluewater me pareceu mais promissora – e foi quem me respondeu mais rápido, quase que imediatamente.

Darren Davis (editor) me ofereceu algumas possibilidades de HQs, todas biográficas, e o nome que se destacou foi o de Liza. Nunca tinha feito uma biografia, e o processo de criação das páginas, baseadas no texto de Michael Frizell, foi ao mesmo tempo desafiador e instigador.

FAME_Liza Minnelli_RED COVERQuais aspectos da vida de Liza que a HQ aborda?

– Desde pouco antes do seu nascimento, fazendo inclusive uma referência ao “Mágico de Oz”, filme que sua mãe (Judy Garland) estreou quando jovem, até a fase atual.

Existe alguma possibilidade da obra ser publicada de forma impressa nos EUA? E no Brasil? E a versão digital vai sair em português?

– Se não me engano, existe uma parcela dessa edição da revista (e dos materiais que eles publicam em geral) que é impressa, mas o foco por enquanto é a versão online. Quanto à publicação no Brasil, seja impressa ou digital, é uma possibilidade que eu não descartaria, mas que vai depender da estratégia deles para atuação em mercados além do norte-americano.

Fale um pouco do seu processo de trabalho nessa HQ. Você tinha liberdade para criar? Chegou a influenciar alguma passagem da história? Qual sua relação com o roteirista Michael L. Frizell?

– Entre os vários aspectos positivos na elaboração desse trabalho, um deles foi a liberdade que tive para criar. Recebi o texto de Michael, que já tinha um ano de pronto e que aguardava um ilustrador para tomar corpo, e fiz algumas considerações, ligadas majoritariamente às imagens que iriam dialogar com o texto dele.

Alguns quadrinhos tinham indicações precisas sobre a imagem que ele via como sendo a mais adequada; em outros, ele fazia uma menção vaga, dando-me a possibilidade de desenhar a cena sob meu ângulo de visão. Uma das páginas em que isso foi notável é a página 15, que mostra uma festa no estúdio de Andy Warhol, em que eu tive a orientação para colocar “qualquer artista dos anos 60 e 70”, o que me levou a fazer uma pesquisa sobre quais artistas realmente eram frequentadores daquele ambiente. Foi uma das páginas que mais demorei de fazer, mas é das que mais me orgulho do resultado.

O estilo do desenho foi algo que levei aproximadamente um mês para definir, optando pelo cartoon por um motivo: para mim, um desenho mais realista iria visualmente “competir” com os filmes em que ela atuou, e essa competição seria desleal. Um desenho mais estilizado, ao meu ver, traz um equilíbrio mais concreto entre o real e a interpretação artística dessa realidade.

Sobre o processo de elaboração gráfica das páginas, não houve muito mistério: para algumas páginas, eu fiz rascunhos com o lay-out das mesmas, mas em outras eu já comecei desenhando a página definitiva. Fazia no lápis, e depois cobria com caneta nanquim descartável e caneta bico de pincel, fazendo correções diretamente no computador, bem como a pintura.

RAFAEL_Imagem 010Minha relação com Michael se deu no campo da consultoria, uma vez que a história já estava pronta quando eu entrei no processo; eu queria que o trabalho refletisse ao máximo a visão dele em relação à história, mas sem deixar de imprimir a minha personalidade. Tanto ele quanto Darren são pessoas muito bacanas de se trabalhar, o que me deu ainda mais estímulo para produzir a HQ.

 

Qual recado você pode deixar para outros quadrinistas que desejam seguir esse caminho?

– Primeiro, entender que embora quadrinhos seja uma paixão, também é um negócio – e seu trabalho, seja como desenhista, roteirista ou ambos, será avaliado pela possibilidade de se tornar um produto rentável. 

Assim, se faz necessário que o aspirante a quadrinhista se profissionalize, apurando sua técnica. E isso se faz buscando informação, seja através de cursos ou por conta própria. Independente de qual seja o modo, uma coisa é certa: a pessoa que quer trabalhar com quadrinhos deve ampliar sua percepção para muito além da Nona Arte: teatro, cinema e literatura são apenas algumas das ferramentas que podem ajudar muito no entendimento das técnicas narrativas, propiciando que seu produto tenha o impacto desejado no público alvo de sua escolha.

E, mais importante de tudo, é manter-se fiel a si mesmo e ao papel que você quer ter no mundo das HQs. Nem sempre pessoas com a mesma paixão concordam em todos os aspectos – o que é bastante saudável, mas muitos enxergam na discordância uma crítica negativa, até pessoal, ao seu trabalho. Seja profissional, e faça com que cada experiência te engrandeça como autor e, principalmente, como ser humano.

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Rafael Cordeiro tem 39 anos; é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia. Além dos quadrinhos, seus trabalhos na área de Ilustração e Design Gráfico incluem elaboração de livros infantis, personagens para a TV e peças para o mercado publicitário, bem como atuação como educador do Liceu de Artes e Ofícios e produção de cartilhas para a UFBA, Prefeitura Municipal de Salvador e Governo do Estado, dentre outros. 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...