Entre os fãs de quadrinhos, é quase unanime a opinião de que as duas gigantes do mercado sequencial norte-americano se tornaram escravas de sua própria cronologia. Entre mega-sagas e “fases”, os personagens passam por turbilhões de mudanças que só encantam os mais aficionados dos nerds, principalmente aqueles que tem como maior passatempo ficar horas e horas intermináveis de debate sobre erros de continuidade ou “quem é o mais forte” em muitos crossovers (na grande maioria inúteis).

Entretanto, não podemos negar que em meio a tantas e tantas reviravoltas, existe muito material interessante sendo produzido dentro desses conceitos, como a mini-série “Reinado Sombrio – Jovens Vingadores” (Dark Reign – Young Avengers) que se aproveita do momento conturbado do Universo Marvel para readaptar uma discussão interessante sobre a figura do super-herói no atual cenário mundial.

Com a ascensão de Normam Osborn ao poder da S.H.I.E.L.D. (agora intitulada M.A.R.T.E.L.O.), a sociedade norte-americana vive sob o domínio do medo. Após a invasão Skrull, o novo manda-chuva do programa de registros de super-humanos molda a sua maneira o combate aos “inimigos da ordem”, deturpando completamente o sentido de liberdade ao levar a ideia de obediência como motor principal para sobrevivência do Estado. Dessa maneira, antigos vigilantes tornam-se renegados, enquanto que criminosos confessos e guildas de vilões usurpam lendárias instituições mascaradas (como os Vingadores e os X-men), para remodelar o mundo a sua imagem.

Neste cenário confuso, surge nas ruas de Nova York uma nova confraria de garotos superpoderosos, que apesar de se intitularem “Os Jovens Vingadores”, estão bem distantes da filosofia do grupo original. Liderados pelo atormentado Derretedor, a equipe tem em suas fileiras alguns personagens amorais como a facista Grande Zero, o hacker Executor, a versão adolescente da asgardiana Encantor, além do modelo de vida artificial Cabeça de Ovo.

Porém, diferente do modo como os Vingadores Sombrios lidam com o “combate ao crime”, tudo é na verdade um experimento da jovem artista plástica Cota-de-Armas, que após um contato “transcedental” e nada amigável com o próprio Osborn, resolveu colocar em prática a sua mais nova obra: O que é ser um Vingador?

Mesmo apenas em 5 edições, o escritor Paul Cornell (Stormwatch, Demon Knights, Capitão Bretanha) revigora de forma simples um dos melhores títulos da Marvel nos últimos anos e constrói um novo capítulo sobre a visão dos jovens contemporâneos aos super-heróis. Em 2003, por exemplo, a “Casa das Ideias” trouxe em “Fugitivos” (Runaways) a completa renuncia das capas e dos colantes com um grupo de garotos que renegam completamente as ideias dos adultos, vivendo suas próprias vidas em consertar os erros dos próprios pais (membros de uma organização criminosa) e fugir dos esteriótipos ”bregas do século passado”.

Em contrapartida, em 2005, somos apresentados aos “Jovens Vingadores” (Young Avengers),versões adolescentes dos lendários vigilantes da equipe original, que preferem seguir o legado dos seus mitos de infância e levar a mensagem da justiça e da ordem para uma nova geração, mas da mesma maneira que os seus antecessores.

Diferenças a parte, os dois títulos representam faces diferentes de uma mesma moeda, que de uma maneira ou de outra existe com algum senso comum na definição do que é certo ou errado no combate ao crime. Já na versão Dark, o motor principal do título é realmente descobrir o que define um defensor do bem em tempos tão conturbados. É necessário fazer justiça com as próprias mãos e punir os criminosos com a morte? Ou segmentar a sociedade por cor, credo ou orientação sexual? Será que os valores morais do século XX não estão tão ultrapassados como as roupas brilhantes?

 

Tudo bem que muitas (ou quase todas) das perguntas não são realmente respondidas (E deveriam?). Na verdade, a própria história se equivoca um pouco em alguns momentos da trama, mas não chega a estragar o que foi construído anteriormente ou nem em seu final. Em relação ao traço,  Mark Brooks (Ultimatum, Novos X-men) complementa o título e traz bastante identidade e força tanto aos personagens novos como os já conhecidos, sendo um ponto forte no título.

Resumindo, vale a pena conhecer essa obra que mesmo sem nenhum atrativo primoroso é construída com muita inteligência, usando referências e o cenário presente na cronologia de maneira simples e confortável para todos os leitores. Pode não ser “essencial” ou “obrigatório”, mas quem disse que só dessa forma podemos ter algo bem feito e divertido?

Ps: Para quem ficou curioso, a mini-série completa foi publicada no Brasil na edição 46 de Avante Vingadores, revista bimestral da Editora Panini Comics.

— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.