Por Luciana Zamprogne.

No primeiro dia do Quadro-a-Quadro predominantemente das "quadradas", vou mandar uma dica principalmente para os meninos ou para a mulherada que até se interessa por quadrinhos, mas acha um saco ficar vendo aquele bando de super-herói de colant se batendo o tempo todo e um monte de mulher com peitos-de-bola e nada de órgãos internos desfilando pelos quadrados.

Todo mundo sabe que o mundo das HQs é predominantemente masculino. Os meninos crescem adorando a Vampira e querendo ser o Wolverine.  Agora tem poucas mulheres que sonham em ser a Lois Lane ao invés da Barbie.

O grande lance é que o gênero de super-heróis é, para a maioria das pessoas leigas, a única coisa publicada em quadrinhos e aí, para aqueles que não curtem ler um gibi de trás pra frente (mangás) fica parecendo que não tem mais nada que nós, leitores ávidos das revistas em quadrinhos, temos para ler. Ledo engano. O universo menos “pop” dos quadrinhos, sem teias, socos e coisas explodindo é um mundo. Existem diversas publicações para todos os estilos e gostos. Por isso Sr. Marmanjo, que está com problemas conjugais porque sua esposa/namorada/ficante/peguet não entende porque raios você gasta tanto com essas revistinhas, fique sabendo que a culpa é exclusivamente sua, que não mostrou pra moça algo que não venha com bundas e peitos entre os soc, tum, paf.

Pensando nisso, elaborei uma listinha de HQs que fogem do gênero super-herói e que são uma boa maneira de você trazer sua mulher/comcubina/amante/gueixa para o lado negro da força:

1 – Fábulas.

Não conheço uma mulher que lê HQ que já disse que não gostou de fábulas. Todas gostam de fábulas por dois motivos: primeiro porque essas personagens fizeram parte da nossa história infantil, o que traz o sentimento de reconhecimento. Segundo porque, ao contrário de Grimm Fairy Tales, o foco da HQ não está nos peitos da chapeuzinho vermelho, e sim em uma trama muito bem elaborada que mistura desde teorias da conspiração sobre o reino das fábulas até uma novela mexicana entre a Branca de neve e o Lobo mau.

2 – Persépolis

Escrito pela Iraniana Marjane Satrapi, persépolis conta a história da revolução islâmica do Irã, sob o ponto de vista dos próprios iranianos. Você vai ganhar pontos com a sua namorada pelo seguinte: primeiro porque é uma história muito cativante, segundo porque é fofo, ver a marjane criança conversando com Deus e Karl Marx, e terceiro porque depois você pode presenteá-la com a nossa próxima indicação.

3 – Bordados

Da mesma autora de Persépolis, bordados é uma história sobre o gênero e a sexualidade entre mulheres iranianas de várias gerações. Com ressalvas para as devidas adaptações culturais, o drama da sexualidade na vida feminina é quase universal. É uma leitura fácil, gostosa e divertida de ler. Parece mesa de bar no dia 08 de março.

4 – Gemma Bovery

Graphic Novel adaptada da obra-prima de Flaubert, a grande diferença é que Gemma é contemporânea e independente. Quando o marido dela já torrou a paciência o suficiente, ela arruma um amante (Tome cuidado com essa HQ se você for casado). Mantém os mesmos dramas da Madame. A história é contada pelo vizinho, que apaixonado pela Gemma, fica meio de voyeur na vida da pobre.

5 – Estranhos no Paraíso (Strange In Paradise)

Eu sei que o Lucas postou sobre SIP no dia de São Valentim, mas vale falar de novo dessa revista porque ela é muito boa. Terry Moore é um cara peculiar do meio. Ele conseguiu criar uma HQ independente que foi publicada por 10 anos. Se teve tanto tempo assim na banca, coisa ruim não é. SIP atrai a mulherada por vários motivos, mas principalmente porque: 1 – as protagonistas são mulheres comuns, uma gordinha a outra baixinha (calma não tem nenhuma dentuça, isso é em outra HQ) Francine e Katchoo poderiam ser encontradas no condomínio que você mora. 2 – porque trata dos dramas e da vivência do cotidiano, mas não cai na chatice. Por trás existe uma trama total de teoria da conspiração do Big Six, das Parker Girls, etc, que só lendo para entender. Para curiosas de plantão como eu, é um prato cheio. 3 – porque o David, um dos personagens principais, é um fofo.

6 – Echo

Também de Terry Moore, Echo é a história de uma repórter que está no lugar errado na hora errada (novidade) e acaba, numa trama muito mirabolante, ficando presa a uma armadura ultrapoderosa de um projeto secreto do governo americano. É engraçado. A protagonista me lembrou muito a Michelle Pfeiffer quando fez a mulher gato que chegava em casa dizendo: “querido, cheguei” e sempre se lembrava de que morava sozinha depois. É uma revista mais movimentada que SIP, mas o Moore realmente tem uma vocação para escrever para mulher.

7 – 10 pãezinhos: mesa para dois

Não poderia deixar de fora o talento dos Brazucas. Essa edição de 10 pãezinhos conta uma história de amor. A estética e a sensibilidade dos gêmeos (Fábio Moon e Gabriel Bá) está bem expressa nessa obra que já ganhou alguns prêmios por aí. Se a sua digníssima curte essa coisa de arte e expressão, essa é a pedida certa para ela.

8 – Sandman

Neil Gaiman é o cara das coisas obscuras. Se a sua parceira é chegada num lápis de olho, num coturno e ouve coisas como My chemical romance, abra o bolso e presentei-a com essa grande obra do homem. Sandman é altamente colecionável e já caiu no gosto de 8 entre 10 leitores de HQs (ou alguma coisa assim). Contando a história dos Perpétuos, não tem mulher ou ser do gênero feminino que não se simpatize com a Morte. Já não posso falar o mesmo de Desespero e Desejo. Mas se o negócio dela era Madonna e Cindy Lauper, você também pode mandar essa HQ porque Delírio faz as vezes pelas outras.

9 – Preacher

Alguém deve ter soltado um AHN? Na hora que leu isso. Preacher? A história do pastor ateu que desafia Deus? É. Preacher. Mesmo que claramente o público da revista não ser o feminino, a Tulipa é foda. Apesar de dar muita raiva do Cassidy, aquele vampiro-meia-boca lá no meio da história, depois ele tem o troco dele. Pra você que tem um relacionamento com alguém com veias revolucionárias, questionadores e perturbadoras da ordem social, ou ainda, uma fã inveterada de aventuras que misturem religiões, conspirações, e humor, Preacher é uma ótima pedida.

Eu poderia colocar mais uma HQ aqui e enfatizar o sistema decimal na ordem da racionalidade humana, mas como gosto de ser do contra, paro por aqui e desejo que as relações sociais entre os gêneros se estabeleça e não seja abalada por mais uma prática cultural cotidiana para uma luta por espaço e dinheiro entre os gêneros. 

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...