fotosergio ►Por Sérgio Moraes¹

 

 

 

O título da história² já é por si só assustador: amar é um sentimento generoso demais para um artefato de destruição…coisas do roteirista Grant Morrison

A cidade de Thursdyke, decadente, tenta se recuperar do fechamento das minas pelo governo com HB26um grande evento, o “carnaval” . Como se não bastasse, a cidade trocou uma lanterna Davy por um traje antirradiação, mais ou menos as palavras do reverendo e pacifista Godfrey Bayliss.  Thursdyke tornou-se apenas  a extensão de uma base militar, um sistema de alerta defensivo  nuclear… O ambiente não é muito receptivo a John Constantine e entre os moradores: “ Era pra estarmos nos divertindo hoje à noite, não matando uns aos outros!” , mais ou menos o que irá acontecer…

Esse é o clima no “pub” onde John entrou por vinte Silk Cuts…,  nos subterrâneos do sistema de defesa, túneis como imensos formigueiros de aço, a conversa entre o professor  Horrobin e o dr. Poole é esclarecedora. Diz o professor: “ A manipulação dessas energias invisíveis pode resultar em homens similares a anjos” e dr. Poole completa:” Ou demônios talvez?”

O professor Horrobin possuía o equipamento para transformar seres humanos  em anjos ou demônios, como ter certeza que funcionaria? Testando-o: “ Bombardeei a cidade com micro-ondas configuradas para ressoar em sintonia com a frequência de dez hertz do cérebro humano. Todos os desejos inconscientes e temores e impulsos reprimidos foram libertados”.

Grande parte da população é afetada, inclusive John, que é chamado de volta à razão por sua amiga Una, que esclarece como ficou imune: “ Certos barulhos rítmicos parecem bloquear o efeito. Assim nossa mente não é afetada. Eu tinha uma fita do Sonic Youth no meu Walkman…”

 Como tudo se desencadeia? Sob o olhar da Física, há muitos conceitos envolvidos, todos complicados. Não por “desejo” dessa ciência, mas pela complexidade da Natureza, que torna todas as ciências que tentam decifrá-la complexas também! A começar pelo trecho “A manipulação dessas energias invisíveis”, pode ser possível manipular a energia, estou fazendo isso em meu computador, no momento em que escrevo. Manipulo energia elétrica, luminosa…Mas uma parte, o “calor desprendido” pelo mesmo computador perde-se inevitavelmente…Quanto à ser visível? Só seus efeitos … sequer sabemos dizer o que é energia. Podemos medi-la, descobrir para onde está indo, buscar fontes alternativas, mas defini-la razoavelmente…

E o nosso professor bombardeia microondas com frequência de 10 hertz, ou seja, se for uma onda eletromagnética, significa que em uma antena, a transmissora, há um elétron oscilando 10 vezes em cada segundo e o resultado dessa oscilação é uma onda que se propaga no espaço com igual frequência. Essa frequência é muito menor do que a utilizada em um forno de microondas que produz, utilizando um dispositivo chamado magnetron, ondas da ordem de 2 500 000 000 hertz! Menor até que as ondas produzidas pela corrente elétrica alternada, que em nosso país é 60 hertz. Será que essa frequência produziria tais efeitos? Ondas sonoras, que são mecânicas, podem produzir êxtase, prazer,  mesmo estranhamente  como os sons graves e em volume elevado que estimulam o sistema vestibular (no ouvido !), em carros barulhentos, cujos proprietários caminham para a surdez…

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Se tocamos a superfície da água com a ponta de um lápis, ela ondula, a corda de um violão ao ser defletida ondula  e a compressão e descompressão de colunas de ar, transporta essa energia até nossos ouvidos, envolvendo-nos. Nesses exemplos de ondas mecânicas, facilmente identificamos o meio que ondula. Mas e ondas que se propagam no vácuo? O som não se propaga no vácuo, não é possível ouvir a destruição nas batalhas das naves interplanetárias. Mas ondas eletromagnéticas se propagam sim, e quem é que oscila, que ondula, que vibra, se  não há matéria para fazê-lo? Como entendê-las? Essa é uma questão interessante demais, que envolve muita magia e acho que devemos nos ocupar dela, se não quiser ser enganado novamente como um amador, não é mesmo John?

Podemos situar o fio da meada em Sir Isaac Newton, também inglês, nascido em 25 de dezembro de 1642…Não, não estou invocando um racionalista, talvez o primeiro, estou invocando o último feiticeiro…uma criança deixada pela  mãe  aos três anos, quando ela contraiu o segundo matrimônio. Newton a adorava, mas  deixado aos cuidados  da avó materna,  chegou  a escrever na sua lista de pecados que pensara em atear fogo na casa do padrasto, queimando-o juntamente com a mãe. Muita revolta,  lembro do pequeno Sammy…. Newton poderia ter se tornado um homem de família? Talvez sim, mas em certo sentido ele foi além…um alquimista, um adepto do bispo Arius, um ariano que trabalhou no Trinity College, mas não aceitava a Trindade e muito menos a autoridade papal…que conhecia a Tábua de Esmeralda, dizem que parte do terceiro olho  despregado da testa do próprio Lúcifer, a Estrela da Manhã, quando de sua rebelião…se Sandman estivesse vivo, poderíamos perguntar se ele ouviu falar do terceiro olho do primeiro dos caídos, agora é tarde…

“É verdadeiro, completo, claro e certo. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.” O ensinamento da Tábua de Esmeralda pode parecer sem sentido , mas para um iniciado, acabou por extinguir as diferenças entre céu e terra, tudo era igual e uma única coisa. E assim Newton, jovem, propôs uma lei que valia para o céu e a Terra, para a maçã que cai da macieira e para a Lua que cai em direção à Terra…Newton completou o trabalho de Copérnico, Kepler, Galileu…tirou definitivamente a perfeição do céu… O conhecimento alquímico, muito mais perigoso que milhares de  Silk Cuts e  uísques baratos…Mateus 7,6  – “ Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” O conhecimento alquímico não é para qualquer um, não se pode dar pérolas aos porcos…o conhecimento hermético é para poucos…em Newton explicaria  a ação à distância! A Terra atraindo a maçã, o Sol atraindo a Terra, tudo  à distância! Magia! Cálculos corretos, utilizados  até hoje, mas ação à distância é magia! Não, não estou divagando… pensar em milhares de “silks” me deixa  enjoado , mas estamos chegando.

Michael Faraday, outro inglês, nascido em 1791 e James Clerk Maxwell, escocês, nascido em 1831 foram os criadoresQuarkTemplate 22pg..doc.qx do conceito de campo na Física. A ideia, o conceito de campo veio para substituir a velha magia, a ação à distância. Quem é que conta à serpente que seu ataque à presa não será mais surpresa? A elevação da temperatura do corpinho do animal. A presença da serpente não é mais novidade. E como então a serpente “sabe”? A temperatura do animalzinho alterou-se e consequentemente do espaço em torno dele. Complicado? Imagine que você lendo, fecha os olhos entediado,  e eu aproximo um  “silk” aceso de seu rosto, você irá afastar-se, sentirá a presença da pequena brasa, mesmo sem vê-la, basta que eu a aproxime o suficiente e à medida que eu aproximo-a mais, mais você se preocupa. Há uma alteração no espaço que circunda a brasa e essa alteração desaparece à medida que a brasa se extingue. À essa alteração no espaço, provocada no caso por uma brasa chamamos de campo de temperatura, uma massa provoca um campo gravitacional, uma carga elétrica, um campo elétrico, a ideia de campo está ligada à essa alteração no espaço, provocada por um corpo, o corpo central e  que pode ser sentida por um outro corpo, o corpo de prova. Assim a maçã cai, não pela ação à distância, mas pela alteração do espaço que circunda a Terra e a maçã, imersa nessa alteração, nesse campo gravitacional, cairá quando o ramo que a segura à macieira estiver suficientemente “maduro”.

No caso das ondas eletromagnéticas, o que vibra, ondula, não é a própria matéria, como no caso do som, sei que já disse isso…são os campos elétrico e magnético produzidos pela carga elétrica oscilando na antena, na  frequência de 10 hertz. O vai e vem da carga, induzido por um campo elétrico alternado, produz um campo magnético que também varia, que por sua vez produz um campo elétrico que também varia e assim sucessivamente …e quando não há matéria envolvida, essa onda pode percorrer distâncias  tão grandes que são  medidas em anos-luz. Não, não estou divagando , é só pra dizer que o alcance da tragédia poderia ser bem maior, uma antena com potência e altura adequadas …

Há muitas rádios clandestinas, isto é, antenas que produzem ondas eletromagnéticas que são  portadoras de sinais sonoros, e que podem  interferir na comunicação de aeronaves. Há também seres que insistem em ligar seus celulares  antes da autorização do pessoal de bordo. São homens ou mulheres de família que ignoram, ou não se importam com a tragédia que podem causar. É diferente da ação direta provocada pelo professor Horrobin, mas cuidado com eles John, estão em toda parte….

 


¹ Sergio O. Moraes ingressou na USP em 1981, no Centro de Energia Nuclear na Agricultura. Em 1982 começou à lecionar Física, junto à Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz". Desde sua graduação preocupa-se com o ensino de Matemática e Física, e tenta utilizar história da ciência, quadrinhos, filmes, música, poesia em suas aulas. Realiza sistematicamente "Shows de Física"  com o objetivo de levar  a ciência para estudantes do ensino médio e fundamental e o público em geral, atuando junto ao Museu e Centro de Ciências, Educação e Artes "Luiz de Queiroz" . Durante algum tempo manteve uma coluna em um jornal voltado à crianças e adolescentes, falando sobre física em quadrinhos, filmes e no cotidiano. Toda a ciência que tenta tornar próxima, aprendeu com mestres e livros, o gosto pelos quadrinhos atuais, aprendeu com seu filho Guido, responsável também por  voltar à escrever sobre ciência em quadrinhos. John Constantine também é parte disso..

² Como Aprendi a Amar a Bomba (How I Learned to Love the Bomb) foi publicada em Hellblazer #26 nos Estados Unidos, e recentemente incuída na antologia Hellblazer Origens #5 publicada no Brasil pela Panini. O curioso nome foi baseado no filme "Dr. Strangelove: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", de Stanley Kubrick, que no Brasil ganhou o nome "Dr. Fantástico".

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.