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Sabe quando você percebe que uma coisa vai bem? Quando você começa a vê-la nos lugares mais inusitados e nas formas mais inesperadas.

Quando a lógica é subvertida coisas estranhas começam a acontecer. Muito se disse nas últimas semanas sobre uma suposta morte do mercado nacional de quadrinhos.

Pois bem, se estamos morrendo o estamos fazendo com uma classe danada.

Gibicon, Rio Comicon, FIQ, Jornadas Internacionais, FestComix…

Como se não bastasse, para os próximos meses teremos Moebius e Pratt inéditos em terras brasileiras, André Toral e Spacca com novos lançamentos e uma inusitada (e muito bem vinda) invasão hermana.

Sem dúvida alguma estamos pútridos. É só ver a quantidade e variedade de títulos nas prateleiras das livrarias ou a guinada editorial que a Quadrinhos na Cia, a Zarabatana, a Gal e a Barba Negra estão promovendo ao lançarem um material que não usa cuecas por cima do colant. Ou ainda, dar uma olhada no mercado independente, cada vez mais pulsante.

Não estamos nas bancas? Não temos títulos que vendam centenas de milhares de exemplares?

É verdade, mas finalmente estamos lançando. E cada vez mais. 

Mas o que aconteceu nessa semana é uma covardia, principalmente com alguém que andam dizendo por aí já estar com o pé na cova.

Afinal, exumar cadáveres só com ordem judicial, do contrário estamos falando de crime previsto em Lei.

silva_renato_Garra_CinzentaMas os facínoras pouco se importaram. Parados em frente a uma cruz cinza, daquelas de cimento, numas das alas esquecidas do Cemitério da Vila Formosa, encontraram, desenterraram e colocaram às vistas de quem tiver coragem de olhar, um ilustre defunto, esquecido por décadas: o temível bandido outrora conhecido como Garra Cinzenta.

Quer saber quando uma coisa vai bem? No nosso caso, quando ela lança coisas novas e ainda possui coragem pra começar a resgatar sua história.

O Garra Cinzenta foi um sucesso há setenta anos atrás. Foi exportado, influenciou muita gente e, inexplicavelmente, caiu no esquecimento do grande público.

hqmix_trofeu_2004Alguns até ficaram curiosos com a horripilante figura tema da 16ª edição do Prêmio HQMix. Houve até quem jurasse já ter lido um gibi do bandido. Mas a verdade é que o fascinante personagem continuava acessível apenas a aqueles que se dispunham a estudar a história da imprensa e dos quadrinhos nacionais ou a revirar as prataleiras de sebos e livrarias especializadas.

Publicado entre 1937 e 1939 na Gazetinha (suplemento de quadrinhos do jornal A Gazeta), em 100 capítulos de 01 página cada, Garra Cinzenta é um clássico, sua qualidade artística salta aos olhos no elegante traço de Renato Silva, um dos mais profícuos ilustradores que o Brasil já teve. E posso garantir, antes do 10º capítulo você estará fisgado pelo excelente roteiro de Francisco Armond, um cara que ninguém sabe até hoje quem é, mas que produziu uma das melhores criações dos quadrinhos nacionais em todos os tempos.

E o pior de tudo isso é que até uma semana atrás eu não sabia absolutamente nada do que acabei de escrever aí em cima. Aprendi lendo a belíssima introdução de Worney Almeida de Souza ao excelente álbum Garra Cinzenta (Conrad Editora, R$ 39,90), republicação na íntegra de um material até então praticamente inacessível.

E que material!

Robôs, feras monstruosas, ressurreição, experimentos científicos, um cérebro brilhante e macabro, muita pancadaria e tiros por todos os lados. Não é a toa que os guris que jogavam bolinha de gude com meu avô adorassem a série.

É claro que por se tratar de uma edição fac-similar o leitor deverá se acostumar a ortografia da época, que hoje soa estranha e deslocada. Mas tal estranheza dura muito pouco tempo.

Há também o ritmo narrativo próprio da época e do meio em que foi publicado, mas isso pode ser facilmente contornado. Quem deu a dica foi o amigo Gualberto Costa, cartunista e dono da Livraria HQMix: “legal seria ler um capítulo por dia, pra dar tempo de esquecer um pouco do que leu no dia anterior e sentir o mesmo clima da molecada daquela época”.

Garra Cinzenta é um daqueles lançamentos que enchem os olhos e que não pode faltar na coleção de ninguém que se diga amante da nona arte.

Se o mercado de quadrinhos nacionais está morrendo, melhor epitáfio não poderia existir.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.