"Me deu vontade."

A afirmação acima pode parecer três simples palavras, mas no mundo das significações uma palavra não é apenas uma palavra. Imagina então três.

Crianças vivem usando tal afirmativa para justificar atos aleatórios nos seus momentos de exploradores; também é usado por aqueles que não se prendem a muitas amarras da sociedade, expressando assim uma liberdade de espírito que conquista muita gente: “nossa, porque você pulou do alto do prédio de para-quedas?” “- Ah, me deu vontade…” “porque você me beijou?” “me deu vontade!”

A vontade por algo é uma das coisas que move a humanidade. O ser humano vive em prol de uma série de vontades (também chamado de desejos) e, como nem tudo na vida são flores, a sociedade providenciou inúmeros mecanismos para barrar certas vontades humanas. Afinal, se todo mundo realizasse todas as suas próprias vontades, o caos se instaurava.

Essa foi a pequena reflexão que nutri lendo a edição de dezembro de 2011 de Julia.  A criminóloga mais carismática do mundo dos quadrinhos é posta em uma situação de “quase-sequestro” e então tenta entender todas as motivações do criminoso da vez que, dando vazões às suas vontades, comete uma série de atos caóticos numa noite chuvosa em Garden City.

Muito pouco li de Julia Kendall, mas esta edição não é uma das melhores, entretanto, um elemento de narrativa que se destaca é o efeito de sinestesia que a narração provoca em alguns momentos da história. Logo de cara, 10 quadros são usados para descrever a chuva e é legal como pode-se “ouvir” o barulho da chuva bem baixinho no seu ouvido. E, se você não mora em Salvador ou em qualquer outra cidade que parece o próprio inferno de tão quente que é, ainda é possível sentir aquela brisa fria que sopra em noites de chuva.

 

J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga n.º 85: Chuva Rubra tem roteiro assinado por Giancarlo Berardi e M. Mantero e os desenhos por Steve Boraley

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.