Sabe aquele amor que você curtiu quando tinha 13, 14 anos? Aquele amor que fez seu coração disparar na primeira dança ou no primeiro beijo? O mesmo que não resistiu à mudança de escola, de bairro, ou simplesmente de interesses?

Eventualmente encontramos algum amigo em comum "daquele tempo" e sabemos notícias da turma, inclusive do ex-amor. Aí 20, 30 anos depois reencontramos casualmente a antiga paixão e batemos um bom papo sobre os velhos tempos, falamos um pouco sobre "as novidades" e muito sobre "aquela época". Coisas como, por exemplo, os eventos que fizeram com que nos conhecêssemos.

Captou a sensação? Pois foi assim que me senti na semana que passou.

Como falei em outro post, as únicas revistas de super-herói que acompanho regularmente são os títulos do Batman. Mas isso não quer dizer que não continue olhando as novidades nas bancas, e isso me fez bater os olhos sobre a X-Men Anual 6. Já havia folheado outros números desta revista e a proposta é bem interessante: mostrar como foi a formação da equipe clássica do X-Men. Nestas histórias, Ciclope, Anjo, Fera, Iceman e Garota Marvel são descobertos e treinados pelo Professor X no Instituto Xavier, nos permitindo acompanhar a gênese do grupo que décadas depois estaria presente em diversos títulos do universo Marvel.

No verso desta edição de X-Men Anual constava a chamada “E mais, depois do terrível evento em Krakoa, foi preciso se reunir uma nova formação dos X-Men para salvar a antiga equipe, com o surgimento de novos heróis como Tempestade, Colossus, Noturno e Wolverine! Confira as histórias inéditas de seus primeiros dias no Instituto Xavier”. E foi exatamente esta última parte, sobre os primeiros dias de treinamento nos Novos X-Men, que me trouxe a sensação de reencontrar casualmente um velho amor.

Meu primeiro encontro com os discípulos do Professor X ocorreu em 1982, no Almanaque do Hulk 7. A revista tinha uma capa que causou amor a primeira vista e trazia uma história dos tais Novos X-Men: Banshee, Tempestade, Colossus, Garota Marvel, Ciclope, Wolverine e Noturno. Eu não fazia a menos ideia de quem eram os “velhos” X-Men (só iria descobrir quase um ano depois, na Superaventuras Marvel), mas me apaixonei pelos novos! E agora eu poderia reencontrar este antigo amor pra saber dos velhos tempos.

Comecei a leitura pela última história, que foi a que me inspirou a comprar a revista, e encontrei uma narrativa preparada a 48 mãos! Foram 3 roteiristas, 7 desenhistas, 7 arte-finalistas e 7 coloristas responsáveis pelas 38 páginas contando como Ciclope começou a lidar com os novos recrutas. Mais ainda, cada recruta faz um pequeno relato sobre si – escrito, ilustrado, arte-finalizado e colorido pelos 24 artistas que participaram da história.

Com tantos estilos envolvidos e cada grupo de artistas responsável pela história de um personagem, gostar ou não é mais uma questão pessoal. Pode até acontecer o que ocorreu comigo, gostei mais de umas narrativas do que outras. Curti muitíssimo as narrativas sobre Colossus e Wolverine, gostei mais ou menos das do Noturno e Tempestade, mas, apesar da bela arte, a história do Banshee não me animou muito. No geral fiquei satisfeito com o resultado, apesar de achar que estava faltando alguma coisa.

Fui para a primeira história e a página de abertura foi um presente e tanto, com Iceman fazendo as apresentações e uma piadinha com o “laser” dos olhos do Ciclope. Se o roteiro não surpreende, também não decepciona, e arte do Roger Cruz não carece de meus comentários. Mas esta história me brindou com a última página que faltava pra saber como os “velhos” X-Men foram parar na ilha de Krakoa, de onde tiveram que ser resgatados pelos Novos X-Men. Agora eu conhecia os eventos que me fizeram encontrar meu grande amor da adolescência!

Com tantos sentimentos trazidos de volta, estava mais do que satisfeito e poderia até me despedir do meu antigo amor pra seguir a vida, mas ainda havia uma historinha de 9 páginas com roteiro de Jeff Parker e arte de Colleen Coover. Algo como aquelas últimas palavras que você troca com sua antiga paixão quando o papo já deu o que tinha que dar e vocês precisam seguir suas vidas.

Ao término da leitura estava pra lá de contente por poder ter visto tantas coisas do passado por outro ângulo, relembrando com alegria de como tudo era tão brilhante, mas feliz por ter trilhado os caminhos escolhi – mesmo que isso tenha me afastado de meu antigo amor.

E a formaura? Ela está na capa de X-Men Anual 6 como texto de chamada e desenhada lá pelo final da primeira história, como um momento de bonança antes da tempestade que estava por vir.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.