“A resistência ao despotismo é legítima. Por isso temos o direito de resistir.”

Quantas pessoas no mundo, deparada com a imagem da capa e do título Castro não saberia que se trata de Fidel Castro, líder revolucionário e déspota cubano? Fidel é uma das figuras mais emblemáticas do século XX e início do século XXI.  Idolatrado, odiado, ditador, herói. As opiniões sobre o caudilho são das mais diversas (e talvez todas verdadeiras), e não há quem não tenha em algum momento feito seu julgamento sobre o barbudo vestido em seu uniforme verde oliva ou, mais recentemente, com seu agasalho Adidas.

E o quadrinista alemão, Reinhard Kleist sabe aproveitar muito bem a notoriedade de personagens polêmicos para criar excelentes obras de quadrinhos. E a populariedade dos seus personagem dão por garantido o sucesso da HQ.  Essa é a terceira obra de Kleist publicada no Brasil. As duas outras, também editadas pela 8inverso, são igualmente obras biográficas: Johny Cash: uma Biografia e Elvis: biografia do Rei do Rock em quadrinhos, esta última se tratando de uma obra coletiva. Mas, para não ser injusto, é bom dizer que de nada valeria a notoriedade dos personagens se não fosse a excepcional competência de Kleist como quadrinhista.

Castro poderia muito bem ser classificada como uma biografia romanceada. Acontece que o autor se vale de um personagem ficcional, um imaginário jornalista alemão, servindo de gancho para as passagens biográficas. E a participação desse personagem ficcional é uma das melhores sacadas de Kleist. Ao mesmo tempo em que este não intervém nos eventos históricos, mantendo a fidelidade da biografia, o jornalista, com a sua postura imutável ao longo da história dá o contraste com as várias faces de Fidel.

Na primeira parte da obra, é mostrado o heróico e corajoso Fidel Castro, filho de latifundiário, advogado que se dedica totalmente e arrisca tudo em prol dos nobres ideais de livrar seu país do despotismo, ainda que a custas de grandes sacrifícios pessoais.

“Na revolução pode tudo. Contra ela, nada.”

Mas não pense que a essa é uma obra que pretende ser parcial e mostrar um Fidel e fazer propaganda do regime cubano. Pelo contrário, é uma HQ que mostra a mais dura realidade. Se fosse uma  obra de ficção, de certo do roteirista seria criticado por criar viradas de postura improváveis ao protagonista. Na segunda parte da história temos uma visão mais próxima daquela que as novas gerações têm do líder revoluciário: o do ditador apegado ao poder e ignorando a essência dos ideiais que o levaram até lá.

O ocaso dos ideiais. O enrijecimento do regime. A conflituosa relação com Che Guevara. A crise dos mísseis soviéticos, que fez o planeta ficar mais próximo do que nunca de uma hecatombe nuclear. E o Fidel de Kleist não parece ver isso como um problema.

 “Eu tentei mudar o mundo… mas isso é uma ilusão.”

Com seu conhecido agasalho Adidas, Castro encena um final pitoresco para uma biografia. O personagem reflete sobre sua vida e seu papel na história.

Em maio de 2008 eu estava em Havana. Kleist havia partido há um mês. Ao ver sua obra – não só Castro, mas também Havanna, ainda inédita no Brasil –, percebi que andamos pelos mesmos lugares que, me parece, que tivemos os dois a impressão que Cuba é um lugar fora do nosso tempo. Talvez tenha valido a pena tudo que aconteceu nos últimos 50 anos, mas nada daquilo faz mais sentido. Nem para nós, estrangeiros, nem para o cubano comum, que não pediu a revolução e nem escolheu seus governantes. O que Kleist nos passa em sua graphic novel é um  retrato histórico de um país em efervecência por mudanças que parecem estar chegando com a pressa de quem se atrasou para algo importante, mas que ainda assim se perde nos labirintos das rugas do poder.

Serviço:

Autor: Reinhard Kleist
Tradução: Margit Neumann e Michael Korfmann
Editora 8Inverso

288 páginas

Preço: R$ 51,00
 

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.