"When I was just a baby, my mamma told me: Son! Always be a good boy, don`t ever play with guns. But I shot a men in Reno just to watch him die. When I hear that train a-pulling I hang my head and cry…" *

* Tradução: "Quando eu era só um bebê, minha mãe me disse: Filho! Sempre seja um bom menino, nunca brinque com armas de fogo. Mas eu atirei em um homem em Reno só pra vê-lo morrer. Quando eu ouço o apito do trem, eu seguro a cabeça e choro."

Johnny Cash – Folsom Prison Blues

A biografia do astro da música country-blues americana, escrita e desenhada pelo alemão Reinhard Kleist é um sucesso. Apesar de ter sido lançada na mesma época do filme Johnny and June (2005), a obra é independente e não buscou se aproveitar da `Cash mania` vinda do sucesso cinematográfico. Como diz Franz Dobler, que assina o prefácio, as abordagens são diferentes, e cada uma delas têm os detalhes que lhes cabem. Para quem já viu o filme, aconselho a HQ, e pra quem já leu, bem, vá ver o filme. Gostando ou não do estilo musical, a vida de Johnny Cash é daquelas interessantes que nos fazem ouvir as músicas por sua história, e nos fazem querer aprofundar mais e mais em seus capítulos. Os desenhos são belos e realistas, e a narrativa funciona como as mais bonitas obras do gênero biográfico, como Retalhos e Cicatrizes.

Historicamente tudo comecaria com a infância de Johnny Cash, mas não é esta a abordagem dada pelo gibi. Reinhard opta por colocar em desenhos os trechos da música Folsom Prison Blues, destacada no início do post. É uma premissa para o contador de histórias que o ídolo do Country iria se tornar. Em seguida, passagem para a própria prisão de Folsom, onde conhecemos Sherley na década de 60, um prisioneiro que terá seu ápice junto com seu ídolo com o passar dos tempos. É o exímio narrador preparando o terreno de uma maneira diferente.

Sem mais demora, a narrativa nos traz para 1935, no Arkansas. A família Cash, de origem pobre, fora uma das beneficiadas pela política do New Deal, do governo Roosevelt, que oferecia um futuro como plantadores de algodão no delta do Mississipi (também no Arkansas) para os necessitados. Durante o trabalho, crianças e adultos cantarolavam canções gospel, blues e country. Tais canções encantavam o pequeno J. R. Cash (Johnny), que sonhava em ter um rádio para ouvir Hank Williams, Jimmie Rogers e também a família Carter.

O tempo passou, tragédias foram superadas, e Johnny que recém voltara da guerra já se casava e se mudava em busca de um novo mundo. Trabalhando em pequenos serviços, conheceu mais dois músicos, com quem montou uma banda e com quem dividiria a vida e os sonhos. Nem tudo foi fácil para o Tenessee three, mas logo eles alcançaram o sucesso, e passaram a dividir os palcos com Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e outras lendas da época. Mas era June Carter, sua paixão do rádio desde que ambos eram crianças, que motivava o pequeno grande J. R. 

"A young cowboy named Billy Joe grew restless on the farm. A boy filled with wonderlust who really meant no harm. He changed his clothes and shined his boots. And combed his dark hair down. And his mother cried as he walked out. Don`t take your guns to town, son! Leave your guns at home, Bill! Don`t take your guns to town…" *

*Tradução: "Um jovem cowboy chamado Billy Joe cresceu inquieto numa fazenda. Um garoto cheio de vontade de viajar que realmente não fazia nenhum mal. Ele trocou de roupa e limpou suas botas. E penteou seu cabelo preto pra baixo. E sua mãe chorava enquanto ele saía. Não leve suas armas pra cidade, filho! Deixe suas armas em casa, Bill! Não leve suas armas pra cidade…"

Johnny Cash – Don`t take your guns to town

Mais do que um cantor, Johnny Cash foi um contador de histórias. Histórias que se confundem com a sua vida. Entre músicas que ele interpreta e que ele escreve com seus amigos, muito do real se combina com o imaginário, a ponto de fundir o irreal com sua personalidade, criando um ícone ainda mais poderoso. Mas Cash se perde nas drogas e no sucesso. As anfetaminas para se manter acordado e o álcool para fugir das pressões trazem o cantor para o fundo do poço, daonde não parece conseguir sair. Porém, o amor pela música e por June, que sempre o motivaram e o moldaram, surge como a obsessão e a salvação. Se o cara outrora religioso passara por cima de tudo e todos, família e amigos, para ser o músico que foi e para ter a esposa que sonhava, estas teriam que ser as razões para salvar sua vida, se não sua alma. 

Cash não parece se preocupar com isso, mas sim reconhecer. Conhecido como o homem de preto, compõe a música homônima Man in Black, onde explica que se veste assim pelos fracos, oprimidos, prisioneiros que já pagaram seus pecados e por aqueles que nunca puderam ler a Bíblia.  O cantor se identifica com esta parte do seu público, e mais uma vez sua história se cruza com suas canções. 

A redenção esperada se dá maneira mais inesperada possível. Johnny, após a reabilitação e o casamento com June Carter, resolve gravar um disco ao vivo na prisão de Folsom. Um show onde daria tudo de si, e onde poderia seguir suas idéias e cantar para aqueles que acreditavam merecer e precisar de sua música. E é ao descer ao inferno que conhece Sherley, o prisioneiro do começo do quadrinho, que escrevera uma música e sonhava ser interpretado por seu ídolo. O auge do show e da história é justamente neste momento, onde Cash e Sherley obtém juntos um dos momentos que esperaram por toda suas vidas. E o que é a redenção além de uma subida ao topo honrosamente após estar no buraco auto induzido.

A alma de Cash é a música, o som e a fúria encarnados em seu violão folk, influenciando a música norte americana tanto quanto Elvis Presley e a liberdade "On the Road" tanto quanto os Beats. 

"You can`t see it with your eyes, hold it in your hands, like the rules that govern our land. Strong enough to rule the heart of every man, this thing called love…"

"Você não pode ver com seus olhos, segurar em suas mãos, como as regras que governam nossa terra. Forte o suficiente para mandar no coração de cada homem, essa coisa chamada amor…"

Johnny Cash – A Thing Called Love

Para os interessados em conhecer outras das principais músicas de Johnny Cash, procurar por Ring of Fire, Walk the line, I got Stripes, Jackson.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.