Em junho de 1979 o famoso cineasta italiano Federico Fellini, diretor de filmes clássicos como Amarcord e A Doce Vida, escreveu uma carta para Jean Giraud, o mundialmente conhecido Moebius, onde se declarava um verdadeiro fã do desenhista francês.

Para os curiosos, nós do Quadro a Quadro traduzimos* a carta, esperamos que gostem:

 

Roma, 23 de Junho de 1979

Meu caro Moebius:

Tudo o que você faz me agrada: até mesmo seu nome me agrada. No me filme Casanova, eu chamei o velho doutor-herbalista homeopático meio-mago e meio-feiticeiro de “Moebius”. Foi a maneira que achei para te mostrar meu afeto e gratitude, por que você é maravilhoso. Eu nunca tive a oportunidade de te contar o quanto ou porque. Eu espero poder transmitir isto para você agora.

Estou no meio da filmagem* como sempre e estou preso em um frenesi febril – talvez seja a hora de um pouco mais de frenesi do que o normal. Eu tenho um sentimento distinto de que ainda estou a começar a filmar, enquanto que em outras vezes eu sinto que já terminei a muito tempo. Eu vivo como se eu estivesse suspenso sem meu peso em um de seus universos oblíquos.

Peço desculpas por esta carta ter sido escrita de uma forma apressada e tendendo para divagações, epecificamente pela alegria e o entusiasmo que seus desenhos transpiram, demandando de mim grande precisão. No entanto, me encontro te contando de toda minha felicidade de uma vez só.

Descobrindo seu trabalho, e o que seus colegas fazem na Metal Hurlant, eu imediatamente redescobri um sentimento pungente que eu tinha quando era criança. Eu esperaria respirando pouco por cada nova edição de “Gionalino della Domenica”, que continha “The Adventures od Happy Hooligan”e “The Katzenhammer Kids.”

Que grande diretor de cinema você seria! Você já pensou sobre isso?

O que é mais impressionante sobre seu trabalho é a técnica de luz que você usa – especificamente nos seus desenhos preto e branco. Tem uma maravilhosa e fosfórica luz central, luz perpétua, um efeito de luz de um arco solar em sua arte.

Fazer um filme de ficção científica de seu trabalho é um antigo sonho meu. Eu já pensei sobre isso durante muitos anos, muito antes destes filmes terem se tornado a moda atual. Sem dúvida, você seria o colaborador perfeito, mas no entanto, eu nunca o chamaria por você ser tão completo, sua força visionária é formidável. O que sobraria para eu fazer?

É por isso, caro Moebius, que eu te digo: continue a desenhar fabulosamente, para a alegria de todos nós.

Bom trabalho e boa sorte,

Frederico Fellini

 

*Nota do editor: Fellini estava trabalhando em City of Woman (La città delle donne – Cidade das Mulheres) no momento em que esta carta foi escrita.

Infelizmente, Moebius nos deixou, mas em vida seguiu o conselho de Fellini e continuou desenhando fabulosamente até o dia da sua partida.

*Tradução: Guido

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...