Gosto do Marcelo Tas, um dos apresentadores do CQC, desde a época do Vitrine  (na TV Cultura) – talvez até de antes, desde a sua passagem pela Rede Globo. Por isso não vou entrar no mérito de sua declaração sobre a preguiça do baiano ao tomar conhecimento da pesquisa publicada em 24/2/2011 pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult), onde consta que 60% dos residentes em Salvador não comparecem a nenhum dos seis dias do carnaval soteropolitano, preferindo ficar em casa.

O humor nem sempre é politicamente correto (e muitas vezes aí está a sua graça), mas talvez o Tas não tenha lido a pesquisa completa e por isso não saiba que a falta de segurança foi o motivo alegado por quase metade dos ausentes à folia. Espero que um dia o pessoal do CQC, ou de A Liga, tenha a oportunidade de curtir o Carnaval de Salvador no (cada ano menor) espaço deixado para o folião pipoca (aquele que não paga pra sair em bloco ou ficar em camarote).

JÁ É CARNAVAL CIDADE, ACORDA PRA VER

Eu, como bom folião “doméstico”, e pipoca, compareci ao circuito Osmar (Campo Grande) apenas um dia pra dar uma conferida no movimento. Vi Ivete, Cláudia Leite, Saulo, Tomate, o Micro-Trio (o menor trio elétrico do mundo), algumas atrações menores e fiquei satisfeito de folia. Aproveitei os demais dias de Carnaval em atividades familiares, bate-papo com os amigos e, claro, quadrinhos.

Batman e A Sombra do Batman são as duas únicas revistas mensais de super-heróis que compro atualmente, acompanho a vida dos demais supers através de folheadas nas revistas das bancas ou empréstimos dos amigos. Mesmo assim, devido a trabalho e outras atividades, em alguns momentos eu acabo acumulando revistas – e foi exatamente isto que aconteceu com Batman 97, 98 e 99. Aproveitei o Carnaval pra ler estes três números de Batman e mais algumas coisinhas.

Batman 97 foi uma leitura sem surpresas: início do arco Vida Após a Morte, fechamento da história Leviatã (com a Caçadora) e a terceira parte do arco A Vingança do Capuz Vermelho, com roteiro de Grant Morrison e desenhos de Philip Tan. Esta última história termina com uma página mostrando Batman rastejando por um túnel, abrindo uma porta pronunciando a frase-chave “zur en arrh” e se fechando em uma espécie de tumba. Fiquei perdido, pois o Batman mostrado na página é Bruce Wayne e ele está morto. A página seguinte tenta empolgar com a chamada “A Seguir, em Batman e Robin, Cavaleiro da Escuridão”.

Como não precisava esperar um mês pra saber do que se tratava, peguei logo o número 98 e fui direto para Cavaleiro da Escuridão – cuja primeira página tem o desenho do Batman (provavelmente o Dick Grayson) carregando o esqueleto do Batman (provavelmente o Bruce Wayne).  A história começa com uma sequência arrasadora onde Batman salva uma criancinha de uma explosão em roda gigante enquanto conversa com a Escudeira (uma espécie de Robin londrina) e em seguida é pego por ela (que está de moto) em pleno ar, sincronizando seu salto de uma grua com o dela. Todo o cenário deixa claro que Batman está em Londres.

Seria um início de história simplesmente arrasador se os diálogos não deixassem a impressão que eu havia perdido alguma coisa. Eles falam sobre as ações do vilão Rei Carvão (?), salvam o bandido Eddie Sedoso (?) de uma bomba e Batman conversa com o Príncipe Perolado (?), que está preso em uma penitenciária londrina.  Na sequência, aparecem a Batwoman e o Cavaleiro (uma espécie de Batman londrino) para lidar com uma tentativa de ressurreição do Batman através de um Poço de Lázaro (utilizado pelo vilão Ra's Al Ghul para se manter imortal). Tudo muito rápido e, pelo menos pra mim, confuso e mal explicado. Não vou comentar nada sobre a continuação desta história na Batman 99 pra não estragar a leitura de ninguém – só posso dizer que achei muito aquém do talento do roteirista.

QUE LOUCURA ESSA MISTURA

É bom deixar claro que eu gosto bastante do trabalho do roteirista Grant Morrison, afinal ele escreveu uma das melhores histórias do Super-Homem que eu li: All Stars Superman (que foi agraciada com dois prêmios Eisner, considerado o Oscar dos quadrinhos). Ele também é responsável por uma excelente fase do Homem-Animal, pelo excepcional Asilo Arkhan, por ótimas histórias da Patrulha do Destino (um dia falo sobre ela), pelo notável Os invisíveis, pelo memorável We3 e por aí vai. Acho que já deu pra perceber que gosto muito do trabalho do cara.

Morrison ainda é autor da obra que mais testou minha inteligência e sanidade até hoje: Os Sete Soldados da Vitória. Já li a série duas vezes e fora o fato de que ela é completamente auto-contida, não consigo entender do que se trata de verdade. Pra mim ficou a impressão de que sou meio burrinho, ou de que ele se esqueceu de alguma coisa, ou colocou coisa demais – sei lá. Na sequência de Os Sete Soldados, Morrison participou da maxi-série 52 (da DC Comics) e concebeu a série Crise Final, uma forma que a DC encontrou pra trazer de volta pra suas histórias o conceito de multiverso (que havia sido eliminado com a Crise nas Infinitas Terras, lá nos anos 80 do século passado).

No meio do caos que ele instaurou no universo DC, Morrison matou Batman de forma nada apoteótica, trouxe de volta um filho de Bruce Wayne que havia sido extirpado da cronologia do Batman e ainda criou uma confusão danada com os personagens relacionados ao homem-morcego. Confusão que, pelo que ando lendo nos sites especializados, ainda vai piorar bastante antes de melhorar – se é que um dia vai melhorar.

E, afinal de contas, do que se trata este post? Da reclamação de mais um fã insatisfeito ou da queixa de um cara chateado com o que considera uma má fase de seu personagem favorito? Não posso negar que fiquei bem decepcionado com o que li e que acho a atual fase do Batman muito ruim, porém este texto é uma amostra do quanto um roteirista pode meter os pés pelas mãos quando lida com um personagem tão grande quanto o Batman. E não estamos falando de uma cara qualquer, trata-se do autor de All Star Superman – um personagem do mesmo grau de magnitude (talvez até maior) que o do homem-morcego.

Mas parece que não é tão incomum artistas extremamente talentosos e carecas (o Morrison é carecaço) meterem os pés pelas mãos de vez em quando, basta ver a declaração do Marcelo Tas a respeito da preguiça soteropolitana no Carnaval…

Os subtítulos deste post são, respectivamente, versos das músicas

Lambada de Delícia (Gerônimo) e Chame Gente (Moraes Moreira)

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.