capacarcara_okEu quase cedo à tentação de começar essa resenha com os versos de João do Vale e José Cândido, imortalizados na voz de uma jovem Maria Bethânia.

Quase…

Aquela música é uma desconcertante denúncia sobre a miséria humana a que milhares de nordestinos são submetidos desde os tempos do Império.

Este Carcará é outra coisa, sendo a mesma coisa.

Não explora a miséria humana, não fala da maciça migração de nordestinos ao Sudeste e nem trata do tema de forma folclórica, sob uma já batida ótica burguesa tão comum à nossa classe média, que acha ultrajante as condições de vida a que estão submetidos os habitantes do vergonhoso polígono das secas mas se aproveita do desespero de quem acaba de chegar em busca de uma vida digna, lhes pagando salários irrisórios, sonegando impostos e ignorando benefícios protegidos por lei, como o INSS e o FGTS.

Este Carcará, de Aloísio de Castro (Qualidade em Quadrinhos Editora selo BooHQ – 96 pags. – R$ 33,00) trata daquilo que poucos procuraram explorar na riquíssima história nordestina, aquilo que faz você olhar para um pernambucano, um cearense ou um baiano e lhe confiar a vida, a morte e a alma. Aquilo que faz você o querer como companhia pelas estradas escuras da vida: sua bravura e sua honra.

E trata disso através do mais icônico capítulo nordestino de nossa história: o Cangaço.

Mítico, sedutor, aventureiro, indignado e cruel, o cangaço brasileiro sempre esteve no imaginário popular. Alvo de uma campanha feroz de desmoralização, que tem seu ápice na inconcebível caravana que percorreu o nordeste brasileiro exibindo as cabeças cortadas de Lampião, Maria Bonita e seu bando (embora recentemente a morte de Lampião tenha sido contestada, afirmando que o cangaceiro na verdade morreu em Minas Gerais, aos 96 anos de idade), o cangaço brasileiro sempre possuiu representantes nos quadrinhos.

De Zeferino, de Henfil, às dezenas de histórias de terror publicadas nos gibis Spektro e Calafrio durante as décadas de 70 e 80, passando pela excelente Turma do Xaxado, do incansável mestre baiano Cedraz e até, por mais insólito que pareça, Hugo Pratt e seu Corto Maltese, o cangaço, ao contrário do que se possa supor, nunca pareceu ter sido devidamente aproveitado nos quadrinhos adultos ou de aventura.

Mas a boa fase por que passa o mercado de quadrinhos nacional tem ressuscitado gêneros até então sistematicamente preteridos nas duas últimas décadas, entre eles o Terror e o Cangaço. Movimento que começa com a publicação de O Cabeleira (Allan Alex, Leandro Assis, Hiroshi Maeda – 2008), chega ao mercado independente com Lucas da Feira (Marcos Franco, Marcelo Lima e Helcio Rogério – 2010), toma de assalto o futuro, misturando Ficção Científica e Literatura de Cordel no apocalíptico O Cabra (Flavio Luiz – 2010) e flerta com o mainstream com o badaladíssimo Bando de Dois (Danilo Beyruth – 2010).

Mas este Carcará é algo diferente, não é essencialmente histórico como Cabeleira ou Lucas, não se passa num futuro assustador (e provável, bastante provável) como O Cabra e nem é cinematográfico como Bando de Dois.

Carcará dá medo e uma vontade louca de que um balaço acerte logo a carcaça de algúém.

carc_3Exatamente porque é centrado nas pessoas e nos aspectos sociais e culturais que levaram aquela civilização a ter um mecanismo social tão cruel e virulento.

Basicamente, Carcará conta a história de luta e ódio entre duas famílias. De um lado o poderoso Coronel Emerenciano, símbolo do coronelismo arcaico que, infelizmente, perdura até nossos dias; do outro, símbolo da resistência a esse modelo, Ananias. Como fieis da balança, a polícia ao lado de Emerenciano e os cangaceiros de Carcará (o mais temido bandoleiro daquelas terras) apoiando Ananias, numa ótima sacada narrativa onde os valores de quem defende ou deve ser defendido são invertidos. Uma sacada que para nossa tristeza não é símbolo apenas excelência artística de Aloísio, mas também da dura realidade daquele passado e – herança maldita – deste presente, seja no nordeste, no sudeste ou – sinal de um funesto futuro – no centro oeste.

Carcará vale cada página porque explora a promiscua relação entre o poder e as leis. Onde escrituras são forjadas e crimes atribuídos a quem já os tem em número suficiente sobre as costas. Uma terra de coronéis e injustiças. Uma terra de Emerencianos.

Mas Carcará também é capaz de momentos sublimes, mesmo nas páginas mais violentas.

Criando uma ficção histórica, Aloísio de Castro diz muito mais do que uma primeira leitura pode revelar. A honra do nordestino, onde a justeza vale matar ou morrer, onde pecados não são esquecidos, onde – ao contrário das grandes cidades – até quem é abastado é considerado “gente do povo”, desde que tenha caráter pra tanto. Uma terra de bravos Ananias.

Aloísio não nos conta isso apenas no roteiro correto e fluído, mas também numa exuberante arte que enche os olhos de qualquer um. Para um veterano (Aloísio está por aí há tempos, desde Calafrio e Front, tendo, inclusive, participado do roteiro da animação Cassiopéia), onde é comum (nem bom, nem ruim, apenas comum) um certo formalismo narrativo e visual, o autor surpreende a todos com um traço arrojado e moderno, com um domínio técnico assustador e uma diagramação ousada.

E é no traço de Aloísio que vemos a crueldade de Emerenciano – ao decretar mais uma execução – e a coragem – mesmo diante de uma morte iminente – de Ananias, ao carregar, tranquilamente, sua arma enquanto seus algozes invadem suas terras. Seu expressivo traço permite horas de contemplação, descobrindo cicatrizes, sorrisos, formas, paisagens e sentimentos. E a cada descoberta, um novo olhar sobre a história.

E a cada novo olhar, mais próximos ficamos de milhares de homens de colher de pedreiro nas mãos, pendurados em andaimes mal pregados nas caras construções onde meses mais tarde veremos mulheres limpando janelas, com o mesmo risco de queda que seus antecessores.

Eu quase cedi à tentação de começar essa resenha com os versos de João do Vale e José Cândido. Mas este Carcará é outra coisa, sendo a mesma coisa.

Tenha isso em mente quando ler Carcará e avalie a real distância que separa o Cangaço dos tempos em que vivemos.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.