Escrevo estas poucas mal traçadas linhas ainda entorpecido. Há quem diga que para escrever qualquer tipo de crítica, deve-se despir-se de qualquer tipo de emoção, que a imparcialidade deve ser prezada mais do que tudo.

Desculpem-me, não farei isso hoje.

Das últimas traduções do mundo dos quadrinhos para o cinema, Capitão América foi o primeiro que conferi sozinho. Uma das melhores atitudes que tive nos últimos meses, verdade seja dita. Não por causa da companhia, muito pelo contrário, aqueles que me acompanharam no deslumbrante mundo do cinema de super-heróis são pessoas fantásticas. Mas há momentos em que uma pessoa precisa ficar só com seus pensamentos, digerir uma produção sozinho, compartilhar a primeira impressão consigo mesmo. E eis que estou aqui, escrevendo sobre minhas impressões sem influência alguma, sem dúvida alguma sobre o que irei dizer.

Ok, ratifico a parte da influência, pois admito que alguns comentários pela rede e ter encontrado amigos com posições tão dispares sobre o filme fez com que existisse um certo eco bem lá no fundo da consciência.

Vamos concordar com uma coisa? Capitão América realmente possui um espirito transformador, um patriotismo que enche o coração dos norte-americanos – e porque não de muitas partes do globo? – transformando-os em criaturas impares. É a única explicação  que consigo conceber no que tange a transformação do Chris Evans. Ou ele de fato é um bom ator, pois é incrível a diferença da atuação entre Johnny Storm e Steve Rogers. A péssima impressão do Tocha Humana nos filmes do Quarteto Fantástico me seguiram como uma sombra durante toda a produção do Capitão América a ponto de ter medo de conferir o resultado. E é tão gostoso quando uma impressão ruim se liquefaz e sai escorrendo ralo abaixo…

Um momento muito especial para mim foi a cena da Feira das Maravilhas do Amanhã, onde podemos conferir como Tony Stark faz jus ao pai que teve e também, por breves segundo, a câmera nos mostra uma das primeiras maravilhas do universo marvel: o primeiro tocha humana; os olhares deslumbrantes das pessoas diante de tantas “Maravilhas” permeia toda a sequência e, nesse momento, não houve jeito: senti-me que nem Phil Sheldon em Marvels, tendo um leve vislumbre e maravilhado com todo o futuro que ali se mostrava, ao mesmo tempo em que relembrava toda aquela emoção que sentira quando li a mini-série do Busiek aos 13 anos, uma verdadeira emoção mesmo, pois levei dois anos para encontrar a última edição perdida em uma banca na periferia da cidade.

Em um mundo onde o bullying virou até piada, Steve Rogers é a representação do não à covardia, não uma apologia à violência – seja ela física ou verbal – , mas sim enfrenta-la de peito aberto, improvisando até mesmo uma tampa de lata de lixo como escudo para ajudar. Em uma época em que os Estados Unidos enfrentam uma crise que abala seu ego de superpotência mundial, a mensagem de não desistir e “eu posso ficar nisso o dia todo” é mais do que pontual.

A trama é mais do que conhecida, não há muita novidade na linha geral. Os detalhes é que dão o doce sabor na história e elemento que move o Caveira Vermelha que, por sinal, mostrou como Hugo Heaveing consegue ser único em cada filme que atua. Cabe aqui uma oração: “Senhor, fazei com que David Fincher dirija um “Caveira Vermelha: o filme”…”

E claro, existem as cenas de ação que são muito bem pontuadas, na dose correta, ao ponto em que não se sente falta dela mas também não há um desperdício delas. 

E a cada detalhe que vou rememorando agora, sou levado a vários outros, não necessariamente a história, mas como a cena foi construída que me fazem querer vivenciar novamente a emoção que foi assistir Capitão América: o primeiro vingador. 

Ao final, restaram apenas três pessoas para conferir as cenas pós-créditos: eu e mais um casal de namorados. Saindo do cinema, pude notar pelos olhares deles aquilo que em mim transbordava naquele momento: a certeza de quão grande a paixão pelos quadrinhos permeia a nossa existência.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.