Sempre gostei de histórias de fantasmas.

É um negócio meu. Quando criança cansei de ler Kripta, Calafrio, Spektro, Sobrenatural e mais tudo que existia de terror. Na Turma da Mônica, até hoje, a primeira coisa que eu leio são as histórias do Penadinho. Comprava na banca (apesar de naquela época já ser um marmanjo) a excelente Turma do Arrepio.

Não importa se são adultas ou infantis, o que me fascina nas histórias de terror é o clima, o universo sobrenatural, o desconhecido. E adoro ver como cada artista trabalha isso.

Histórias de terror – em especial as de fantasmas – são meu ponto fraco nos gibis. Eu posso odiar o autor (não, não estou falando especificamente do Rob Liefeld, embora também o odeie) mas mesmo assim vou lá e leio. É minha bala de prata, meu colar de alhos, meu crucifixo…

E é claro que eu jamais deixaria passar um gibi com Fantasmópolis no título.

É mais forte do que eu.

Fantasmópolis, de Doug TenNapel (Agaquê – Editora Ática, 272 páginas, R$ 37,90) é uma aventura imperdível.

A história toda gira em torno de Garth.

Garth é um garoto como qualquer outro, cheio de imaginação e vida – mas não por muito tempo. Garth tem uma doença incurável e morrerá em breve.

E ele sabe disso. Isso o frustra, o entristece, mas é algo com que ele tem convivido até com relativa tranquilidade.

A merda toda acontece quando o Agente Gallows faz mais uma de suas presepadas. Gallows já foi grande, admirado por seus pares, chegou a ser o melhor caça fantasmas que existiu. Hoje, amargurado e com medo de perder irremediavelmente o seu amor, mal consegue cumprir uma missão direito. Desmotivado, acabou ficando também descuidado.

E sua falta de atenção acaba mandando Garth pro Além…

E assim começa a aventura em Fantasmópolis, a cidade onde os desencarnados acabam parando.

Mas Fantasmópolis não é mais a festiva cidade de antes. Hoje suas múmias, zumbis, caveiras e demais criaturas estranhas convivem com o medo e estão sob o julgo do tirânico Vaugner.

E ele não está nada contente com a presença de um garoto vivo por lá.

Mas Garth não precisará enfrentar o terrível Vaugner sozinho. Gallows – arrependido de sua burrada – se junta a uma antiga amiga e partem para Fantasmópolis, em resgate ao garoto vivo.

E chega de falar da história. Quer mais vai lá e compra, ou pega emprestado do Lucas – ele adora emprestar gibis…

Vamos falar do que me parece esse gibi.

É impossível ler Fantasmópolis e não compará-lo ao excelente Quando Eu Cresci, lançado pelo mesmo selo Agaquê, da Ática.

Afinal, são gibis protagonizados por crianças solitárias, inexplicavelmente enfiadas em mundos mágicos (e perigosos), onde terão que demonstrar todo o seu valor para voltarem pra casa, numa clara metáfora sobre a dificil passagem da infância para a vida adulta.

Mas uma comparação dessas é de uma covardia sem tamanho, pois são duas escolas totalmente diferentes.

Quando eu Cresci é um gibi tipicamente europeu.

Não conhece a escola européia, em especial a Franco-Belga? Rapaz, corra até uma livraria. Você não faz idéia da experiência que está perdendo.

Fantasmópolis é americano até a medula.

E é exatamente isso que o faz um gibi excepcional.

Fantasmópolis não possui a profundidade psicológica ou as incontáveis metáforas do seu primo francês, mas é um gibi executado à perfeição.

A impressão que se tem ao ler Fantasmópolis é que Doug TenNapel está pouco se lixando para a crise criativa (e de mercado) que atinge as principais editoras de comics nos EUA.

Com um roteiro maduro e divertidíssimo, feito sob medida para o público infantil e juvenil, diálogos precisos e um ritmo alucinante, Fantasmópolis sintetiza o que os quadrinhos americanos tem de melhor. Ler Fantasmópolis é se deliciar com uma boa matinê: despretensioso e ágil como um filme de Indiana Jones.

E parece que foi exatamente aí – e não nos caras de colant – que Doug foi buscar sua inspiração. Mas ao contrário do que se vê muito hoje em dia, quando o cinema parece ditar o ritmo e até o roteiro dos quadrinhos, Fantasmópolis  privilegia a história e a maneira como ela é contada, e não simplesmente a imagem – talvez um dos principais erros na industria de quadrinhos nos dias de hoje, que ainda acredita que juntar um monte de super heróis se socando em mega sagas, desde que tenha um visual bacana, é o suficiente para uma mudança na curva das vendas.

O que definitavemente não é o caso de Fantasmópolis, que além de tudo o que eu disse aí em cima ainda tem um visual estupendo.

Ou pode não ser nada disso e eu estar falando um monte de groselha, afinal, como já disse, gibi de fantasma é minha bala de prata…

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.