birdssabiaO Gustavo Duarte é um cara que me deixa doido da vida.

E não é porque fica achincalhando o meu time não. Ele nesse ponto é muito justo, pois vive espinafrando até o próprio time em suas charges – sem dó nem piedade.

Mas essa mania dele de fazer gibi…

A grosso modo: ela pega um monte de bicho fofinho, não coloca uma única palavra no negócio e faz a gente ficar que nem barata tonta com Baygon, quadro a quadro por páginas a fio, perseguindo os pobres dos bichinhos.

Primeiro foi , com suas galinhas alucinadas. Depois meteu um elefante num Taxi

[ Vixe, sabe que só agora eu me toquei da piada? Sou um bicho lerdo mesmo…]

… mas enfim, colocou o elefante no taxi e rodou a cidade numa história insana e deliciosa, regada a muito jazz. Daí me pega um pobre dum peixinho na Fierro e faz até a música do Zé Rodrix parecer canção de ninar perto do que acontece no gibi.

Desalmado, agora mira dois inocentes passarinhos…

Mas não se enganem. Nas histórias desse talentoso desenhista, nada é o que parece ser e tudo sempre leva a um final surpreendente e divertidíssimo.

E a fórmula se repete em Birds, lançado nesta semana em São Paulo (edição do autor – 32 páginas – R$ 12,00).

Se repete???

Não é bem assim. Tem algo novo nesse Birds. Mas eu já chego lá, vamos primeiro falar da história.

Como disse, o alvo agora são dois passarinhos.

birdssabia - CópiaSócios do mesmo escritório, a Palhares & Palhares pode ser qualquer escritório de qualquer lugar do mundo. Propositalmente retrô, nos remete a velhos filmes de detetives, com seus telefones de disco e máquinas de escrever. Mas também pode ser qualquer um dos milhares de escritórios de bairro desse Brasil de meu Deus, o filtro de barro que o diga.

Aliás, ele diz (mas isso, só lendo a história).

E seus dois sócios são belos exemplares do típico micro empresário de classe média, que nunca será um Abílio Diniz mas que vai levando a vida, pagando seus pequenos luxos.

A vida bem arrumadinha dos dois vira de ponta cabeça com a visita inesperada de um futuro cliente, ou pelo menos assim pensavam eles.

A partir daí a história assume ares de um verdadeiro filme B, com mistério, perseguições implacáveis e fugas espetaculares, num clima sobrenatural digno dos filmes de Roger Corman.

E paremos por aqui, porque do contrário muitas surpresas poderão ser estragadas pela minha lingua grande. O medo do Gustavo me enfiar uma faca nas costas se eu acabar contando mais do que devia é apenas circunstancial.

birdsfirstVamos falar sobre a delícia que é se ler Birds.

As histórias do Gustavo são curtas, numa narrativa ágil que te prendem do primeiro ao último quadro. Feitas para serem lidas num único tapa, são uma verdadeira armadilha para quem curte quadrinhos. E ele não facilita.

Cria um enredo e vai distribuindo pistas e referências durante as páginas. Dos objetos no escritório ao ritualístico nó na gravata, do modelo clássico do carro de um dos pássaros a uma sutil homenagem a Taxi, seu trabalho anterior, sem deixar de lado a já clássica referência ao Norusca (Esporte Clube Noroeste, de Bauru, sua cidade), Gustavo vai criando piadas gráficas geniais.

Mais do que a simples diversão, tais piadas também cumprem a função de situar o leitor num mundo indentificável, com cenas e objetos que fazem parte da história de qualquer um. Um artifício que já se tornou sua marca registrada e incorporou-se ao seu estilo narrativo de forma natural.

Mas como disse há pouco, tem algo novo nesse Birds que não havia em seus outros trabalhos.

Primeiro porque é uma história de terror, bem calibrada no suspense e humor.

Segundo porque não tem um final divertido.

Aliás, o final de engraçado não tem nada. Principalmente se você prestou atenção na história.

Uma sutil crítica ambiental, escondida entre as dezenas de piadas gráficas, meticulosamente distribuída desde a página de abertura.

De condomínios que prometem “a maior área verde da cidade” até a insistente mania que temos de mutilar tudo o que tenha folhas, confinando-a em jardins que apenas simulam seu habitat natural, Gustavo construiu uma sutil metáfora sobre nosso modo de vida e a forma como estamos (até com autorização legal, lembre-se) criando desertos no lugar onde deveriam existir florestas.

Um tema atualíssimo que revela um artista maduro, que maneja habilmente várias informações ao mesmo tempo e as mescla de forma imperceptível, disfarçando-as, manipulando-as, transformando uma única história em várias.

Dessa vez Gustavo Duarte não fez apenas um excelente gibi.

Foi além e nos presenteou com algo muito mais duradouro que suas ligeiras 32 páginas.

CapaeBird

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.