BetoPor Beto Magnun*

* Beto Magnun é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

 

 

Bem-Vindo a Astro City, uma cidade de heróis e vilões, monstros, espiões alienígenas e outras especialidades, na qual pessoas comuns caminham lado a lado com o fantástico a1e o bizarro. O primeiro volume de Astro City mostra: um dia na vida do Samaritano, o super-herói mais ocupado do mundo; uma invasão de moradores subterrâneos que é frustrada pelo super time da Guarda de Honra; uma crescente paranoia de miseráveis criminosos – será que o herói Caixa de Surpresas está por trás disso?; histórias introduzindo a a Primeira Família, a heroína Vitória Alada e muitos outros.

Depois de um longo hiato, Astro City retornou as bancas brasileiras desta vez pelas mãos da Panini. A nova edição é repleta de extras e o melhor: Preço acessível. A Vida na cidade grande, reúne as primeiras 6 edições da série criada por BusiekRoss e Anderson.
Para entender o porque Astro City é tão aclamada o leitor precisa entender o que aconteceu com os quadrinhos americanos nas décadas de 1980 e 1990. É aquilo que todo mundo tá cansado de saber: Influenciados principalmente por Whatchmen e O Cavaleiro das Trevas, os quadrinhos da década de 1980, exploravam temas adultos com uma profundidade psicológica até então desconhecida, mas a essência do Herói ainda estava lá. Vários dos autores que vieram depois não entenderam isso, e o resultado foi a sombria década de 1990.

Menos catastrofista que os clássicos da década anterior, ‘Astro City’ mantém a inocência e essência dos clássicos heróis da Era de Prata, mas mostrando sua influência numa sociedade como se eles realmente existissem. Busiek repete a formula que o consagrou em Marvels, mostrando do ponto de vista das pessoas normais (não só delas) como os super-seres afetam suas vidas. No texto introdutório, Busiek basicamente diz que já se cansou da desconstrução do gênero super-herói (se é que podemos chamar assim), e que Astro City é um resgate dos mitos.

a2"Vida na cidade grande",  abre com uma história com protetor de Astro City, o Samaritano (um Superman genérico), na história "Em sonhos".  E história começa justamente num dos sonhos do Samaritano, onde ele pode voar livremente (pelado hehe) sem se preocupar com os perigos que ameaçam o mundo. O sonho dura pouco. O herói acorda e recomeça sua rotina. Busiek e Anderson mostram como o herói faz para gerir logicamente seu tempo, como ele trabalha para resgatar o máximo de pesoas possível. Samaritano analisa constantemente quanto tempo ele gasta em cada incidente, é sempre uma questão de segundos. No fim o herói se dividi entre ajudar as pessoas e seu trabalho como civil, restando pouquíssimo tempo (uns minutinhos) pra si mesmo.​

Em "A noticia", vemos o mundo fantástico de Astro City através dos olhos de Elliot Mills, editor do jornal da cidade, o foguete. Elliot conta a seu mais novo jornalista uma aventura que viveu no inicio de sua carreira jornalistica mas, não tendo como provar o episódio, viu-se impedido de publicá-lo como notícia.
É uma história interessante sobre integridade jornalistica, mas o destaque fica para ambientação criada por Anderson (mais tarde falo sobre isso).

"Ver é saber", monstra Eisenstein, um criminoso de quinta categoria que sem querer acaba descobrindo a identidade do herói Caixa de Surpresas (Jack-In-a-Box no original). No início, Eisenstein imagina as riquezas guardadas para ele caso use essa informação para ganhar dinheiro. Aos poucos os sonhos de Eisenstein transformam-se em pesadelos, e ele prevê um cenário terrível após o outro. E quem nunca passou por isso?  Acho que é impossível não se apegar ao cômico Eisenstein, não por ser um criminoso, mas acredito que todos já passaram por essa situação de imaginar o pior cenário possível antes de uma reunião de trabalho ou algo parecido.

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​A jovem Marta é a protagonista de "Proteção". A trama apresenta o misterioso bairro Morro da Sombra, que é povoado por imigrantes que se acostumaram com os vampiros, fantasmas, demônios e outras criaturas da noite que habitam o local.  Marta vive divida entre a vida na cidade grande, e a os costumes de sua família, mas um combate entre a Primeira Família e o supergrupo de vilões chamado Demolicia, faz com que a jovem tome uma importante decisão. O ponto de vista da Marta, nos mostra o quão maravilhosos podem ser os superseres, e também o quão assustadores eles são.

Sr. Bridwell, é um Alien disfarçado de humano, e em "Reconhecimento", acompanhamos ele em sua missão de coletar informações sobre os seres superpoderosos que protegem a Terra. Bridwell, centra-se no herói Bambambão (no original Crackerjack) e julgando as ações do atrapalhado herói, o Alien deverá decidir se a humanidade merece ou não ser subjugada. E assim… O Bambambão está bem longe de ser um bom exemplo de super-herói, e o texto do Busiek ainda faz questão de focar nos olhos hipercríticos de Bridwell ao longo da história, ilustrando que o personagem está absorvendo todos os detalhes necessários antes de chegar à sua decisão.

"Jantar ás oito", fecha magistralmente o encadernado com um encontro romântico entre o Samaritano e a heroína Vitória Alada. Mas o que era pra ser uma noite romântica acaba se tornando um embate de ideias e posicionamentos, sendo que os dois heróis mais famosos na Terra não partilham ideologias semelhantes. No fim cabe até uma reflexão sobre feminismo.

Nos extras podemos ter uma pequena noção no cuidado que Busiek, Anderson e Ross tiveram para construir o universo de Astro City (até uma simples lojinha de brinquedos ou a4um enorme edifício não estão ali por acaso. Foi tudo planejado). O autores criaram um mundo que poderia existir na era de prata ou na era de ouro. Os personagens e moradores da cidade possuem um toque contemporâneo, enquanto o ambiente tem lapsos nostálgicos de épocas passadas, como uma mesa de reunião na forma de iniciais da super-equipe Guarda de Honra. 

Li algumas críticas dizendo que a arte do Anderson é fraca comparada ao que vemos hoje na industria e, não se destaca. Discordo! Anderson consegue captar todas as reações que o roteiro do Busiek exige (como a revolta da mãe de Marta, quando confronta a decisão da filha de sair de casa), e acho que muitos desenhistas que bombam na industria hoje não teriam essa capacidade (cofEthanVanScivercof cof cofDavidFinchco cof). Astro City não se parece com muita coisa que é publicada hoje em dia. É mais otimista do que é assustador, e qualquer história, ou arco de histórias, pode ser lido de forma isolada. Não existe bem um "inicio" em Astro City. A cronologia é o de menos, o que importa para Busiek, são os personagens sem se preocupar em sempre estar "revolucionando" tudo para deixa-los mais interessantes, ou chocar o leitor para deixar sua marca na industria dos quadrinhos (ouviu essa Scott Snyder???).

No fim Astro City, fala mais sobre pessoas do que sobre super-heróis. São histórias simples, divertidas e reflexivas. Altamente recomendado!

​Astro City – Vol 1: Vida na cidade grande
Autores: Kurt Busiek (Roteiro), Brent E. Anderson (Arte), Steve Bucellato, Electric Crayon (cores) e Alex Ross (capas)
Editora: Panini

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Beto Magnun é um mineirinho de 23 anos que lê HQs desde os 6 anos. Atualmente tenta tenta encontrar tempo entre os estudos, trabalho e as leituras (que nunca param), para se dedicar a produção de sua própria HQ.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.