Diversos textos, documentários, videos, narrativas, trazem a nota curiosa de que em suas primeiras aventuras Batman não abriu mão do uso de uma arma de fogo. Recentemente, por conta do filme Batman vs Superman (arght…) onde ele pega pesado com a bandidagem, vários meios e fóruns não tardaram a relatar que no início de sua carreira o cruzado de capa atirou para matar. É verdade, o homem morcego tinha uma arma.

Não era, na época, um absurdo moral, já que grandes personagens da aventura, como Fantasma (1936) e Dick Tracy (1931), apertaram os gatilhos sem piedade contra homens desvirtuosos. Não havia nenhum questionamento em se usar dos meios possíveis e acessíveis para se acabar com o mau. Estamos falando de Estados Unidos, uma nação que construiu um ideal de indivíduo: O Cowboy. Esse personagem central de uma mitologia do Velho Oeste abria mão de sua condição passiva para tomar a justiça com as próprias mãos, numa nação em construção no século XIX, longe dos olhares da lei e cercado pelos perigos de "bandoleiros inescrupulosos" e de "indígenas impiedosos" na expansão rumo à costa do pacífico.

Mas existe a pólvora fumegante no "DNA" do próprio Batman. Seu criador, Bob Kane, não escondeu que sua inspiração temática vinha de um personagem bastante famoso na época, o Sombra (1930). Diretamente dos programas de rádio, esse ser enigmático caçada os bandidos em vielas urbanas, entre a escuridão e a névoa, entoando um fatal mantra: "Quem sabe o mal que habita os corações dos homens?" – e depois de uma misteriosa pausa – "O Sombra sabe!". Tiros e gargalhada fascinavam os fiéis ouvintes da radionovela. Batman, inspirado nesta sombria figura, não teria nenhuma objeção em usar uma arma.

E usou. Contra criminosos diversos, como na edição de número 32 de Detective Comics, de 1939, onde disparou com balas de pratas em tenebrosos vampiros (enquanto estes tiravam cochilos em seus caixões). Algumas vezes contra objetos, outras vezes contra pessoas. Na edição seguinte, de número 33, matou dois capangas. na edição de número 1 de Batman, em 1940, usou uma metralhadora no Batplano para dar cabo de criminosos que estavam num veículo, mas neste caso ele justificou: "Odeio muito ter que tirar vidas humanas. Temo que desta vez tenha que ser necessário". E pontilhou seus adversários com balas.

Somente na edição de Detective Comics de número 33, em 1939, a origem do Batman foi contada, com seus pais sendo assassinados por um criminoso (covarde) num escuro e desprotegido beco de Gotham. Mesmo na capa desta edição (a mesma que ele matou dois capangas, lembra?), Batman aparece saltando sobre um carro com seu coldre (vazio). Na edição de número 35, janeiro de 1940, Batman aparece com sua linda (e combinando com o uniforme) pistola .45 ainda com seu bafo de disparo. O tempo foi passando e a arma foi cada vez mais abandonada ou, no caso, indo parar nas mãos de inimigos, como o Coringa.

Mas a decisão de abandono não foi sem razão. Começou muito antes, em 14 de fevereiro de 1929, um dia dos namorados que ficou para a história. Na região norte de Chicago, Lincoln Park, na rua North Clark de número 2122 localizava-se uma oficina que clandestinamente funcionava como local de crimes e encontros da gangue de George "Bug" Moran, criminoso rival de Al Capone. O que foi conhecido como Massacre de São Valentino deixou 7 homens mortos, metralhados pelas costas diante de uma das paredes da oficina. Quando as autoridades chegaram ao local, um dos homens ainda com vida respondeu ao ser perguntado quem atirou em todos: Eu não vou falar… Ninguém atirou em mim". Testemunhas no local disseram terem visto dois policiais e dois civis, com metralhadoras em punhos. O Massacre de São Valentino foi tão significativo na guerra do crime organizado e na elevação de Al Capone a seu trono que em 1967 foi narrado no filme O Massacre de Chicago, com a emblemática cena: https://www.youtube.com/watch?v=3tOxTcZNMz0.

Longos anos se passaram até que diante de todo alarde que o Massacre de São Valentino promoveu na sociedade estadunidense, entrou em vigor a Lei Nacional de Armas de Fogo em 1934. Jack Miller (Não é o Frank Miller) e Frank Layton (Não, o Pistoleiro se chama Floyd Lawton, e não Layton), envolvidos no processo, questionaram as proibições como desrespeitos à segunda emenda (que garante ao povo o porte legal de armas), tentando desqualificar a decisão, para deleite da Associação Nacional do Rifle e empresários da indústria bélica estadunidenses. Essa confusão com armas de fogo nos Estados Unidos dura até os dias atuais, mas foi em 1939 que a Suprema Corte Estadunidense decidiu por um caminho que não agredisse a liberdade individual, mas garantisse uma regulação mais rigorosa. Bateu curiosidade sobre o caso e seu inglês anda bem? Então veja: https://supreme.justia.com/cases/federal/us/307/174/case.html

Enquanto tudo isso estava acontecendo, a National Allied Publication (futuramente DC Comics) contratou Whitney Ellsworth para a função de editor chefe de algumas publicações da companhia, incluindo as edições onde Batman aparecia. Numa das reuniões para ver os projetos textuais do Bob Kane, ao ver as cenas de Batman com arma, Ellsworth disse: "jogue essa arma fora". A entrada de Ellsworth foi seguida da criação de um conselho editorial formado por educadores e psicólogos, gente certamente preocupada com as influências dos quadrinhos em eventos sociais e políticos como o caso Estados Unidos contra Miller (não é o Frank, eu juro). Batman só voltou a usar arma no período da Segunda Guerra em poucos casos, obviamente justificáveis.

Uma decisão editorial construiu um dos mais famosos alicerces morais do Batman: a repugnância contra armas de fogo. Sabemos que em muitas edições posteriores a esse período histórico acima o Cavaleiro das Trevas fez uso de rifles, pistolas, fora as ultratecnológicas armas presentes em seus diversos veículos. No apogeu da violência das gangues de traficantes de bebida no período estadunidense da lei seca, um super-herói usar arma tornou-se mais que indesejado, moralmente desagradável. Mas as ondas de violência não promovem as mesmas concepções nas sociedades, pois um novo ápice nos anos 70 gerou um famoso e muitas vezes querido anti-herói: o Justiceiro.

Justiceiro faz aquilo que boa parte dos super-tipos abriram mão durante as décadas anteriores. Da mesma forma que esse personagem questiona a eficácia do combate ao crime na segunda temporada da série Demolidor (Netflix), as discussões sobre os limites das mulheres e homens ficcionais que combatem o crime está longe de um veredicto. De todo modo, o pensar histórico sobre o assunto pode saborear e nos fornecer um banquete de informações. Apesar da velocidade da bala ser demasiada (mesmo o Super-homem sendo mais rápido que uma), existe uma extensa e demorada trajetória entre o dedo, o gatilho e o disparo.

 

 

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!