Esta resenha se destina à aqueles que já assistiram, pois contém diversos SPOILERS (quando alguém conta partes do filme – você sabe o que é, mas tem gente que não). Não é um texto técnico sobre o filme do Christopher Nolan, e sim um texto emocionado de um fã do Batman, expressando apenas minha opinião e não a do resto do pessoal do blog. Serve, aliás, para alimentar a discussão entre nós e todos os leitores que se sentirem à vontade. 

Nesta terça feira finalmente pude assistir Batman: O Cavaleiro das trevas ressurge. O Batman é para mim, meu herói preferido dos quadrinhos, aquele que me faz ler as histórias por si só. É como assistir um jogo de futebol só pra ver seu ídolo jogar. Mas quando o time perde, e o cara pouco aparece, a dor é iminente. Nesta terça fui ao cinema, mas para minha decepção meu ídolo não compareceu. 

Tenho que reconhecer primeiramente que Nolan fez o Batman ressurgir com sua trilogia, tirando do fundo de um poço onde ele não deveria ter caído. Méritos para Tim Burton e seus dois primeiros filmes, mas o que veio depois não é digno de comentário. Esperamos anos para vê-lo de volta, mas Nolan devolve o personagem ao ciclo que estávamos há anos.

Começarei comentando o grande porquê de eu não reconhecer o personagem que fui ver. Durante a HQ Crise de Identidade , que enfoca a Liga da Justiça, o homem morcego é questionado sobre seu trabalho. “Eu sei o que estou fazendo, e posso parar quando quiser. Mas não será hoje, e nem amanhã” responde nosso herói. É esta pessoa determinada e infalível que transmite o espírito de defensor sombrio em quem todos confiam. Este Batman do Nolan é fraco demais, desiste de seus ideais a todo momento e não pensa ou confia no que vai fazer. Confia em Selina Kyle, Talia Al Ghul, Harvey Dent e muitos outros, quebrando a cara todas as vezes. Antes de tudo, o Homem Morcego era conhecido como ‘Detetive’, cuja personalidade insquisidora e desconfiada nunca apareceu nesta trilogia. E o que falar dos romances de Bruce Wayne? Bruce não é a identidade secreta do Batman na trilogia, e sim um ego conflitante. Nas histórias que definiram seu caráter para mim, Wayne era o milionário excêntrico e promíscuo que, por essa imagem, afastava-o de qualquer suspeita. Mas nesse filme, ele se apaixona e interfere nas ações do Batman, inclusive marcando encontros para “seu amigo mascarado”, como ele próprio o chama. Onde fica a identidade secreta? E o vingador que era para ser incorruptível, agora oferece piedade a criminosos? Fui ver o astro em ação mas não vi, vi uma imagem desgastada deste, e por isso peguei implicância de tudo. Já no segundo filme senti um pouco disso, mas lá estava o Coringa que eu queria ver. Mas neste,  não é só porque o cara estava no fundo do poço, pois Frank Miller nos mostrou que o Batman no fundo do poço é mil vezes melhor do que o impotente do terceiro filme.

É claro que Nolan se baseou em vários elementos dos gibis para construir seus filmes (Taí o Lucas sempre pra cavocar acontecidos). Estão lá cenas homenageando todos eles, mas deveria ter usado-os melhres. Nolan cria pontas gigantes nos roteiros, as quais aparentemente soluciona procurando um tapa-furo nos quadrinhos. Quer um exemplo? Bane descobre a identidade de Bruce, assim como em A Queda do Morcego, e quebra tudo do começo ao fim. Mas tudo era um plano de Talia Al Ghul, a sedutora filha de Ras Al Ghul, que de fato passou a perna no morcegão dos gibis. Mas pare pra pensar: no filme, ela começa com a identidade secreta de uma pesquisadora precisando de um investimento da Wayne enterprises para seu projeto de energia renovável. Mas num golpe bem orquestrado, um mafioso toma as ações de Bruce na empresa, com a ajuda do mercenário Bane, e Bruce se vê obrigado a colocar a moça como representante da empresa (não entendi por quê). Tá, eu aceito essa falha grotesca do nosso herói, mas com o desenrolar da história, vemos que tudo isso foi orquestrado justamente por ela, para que ela recebesse tudo sem Bruce desconfiar… Hã? Mas o mafioso não tinha levado tudo? Ela não era uma mera representante com poderes de decisão? Não era mais fácil ela ter roubado tudo da primeira vez do que usar um intermediário? Não era mais fácil ela seduzir o Bruce e ser mais próxima da sua vilã dos quadrinhos?  Me parece que Nolan só resolveu que essa moça seria Talia no final do roteiro em alguma ponta solta.

Aliás essa história de mudar tudo de uma hora pra outra virou especialidade do Nolan neste filme. Bane começa quebrando o Batman com um discurso de ter nascido no inferno, ser criado nas sombras e só ter visto o sol depois de homem. Mas conforme passa, o diretor muda de idéia e diz que quem nasceu na prisão foi Talia, enquanto Bane era seu mero ajudante. Não dava pra ter se decidido antes? Não achei suspense nenhum, só achei uma banalização danada do Bane na história. O cara (apesar da modificação tosca para o uso da máscara e da sua voz mais tosca ainda) é bem fiel a Queda do morcego e toma conta do filme, e tudo o que ele fez diminui-se perante ao mandante. A transformação da pesquisadora em Talia, de coadjuvante em vilã protagonista,  é tão ridícula que na cena em que ela se revela, ela dá uma risada que nos faz rir da cara da atriz, de tão fraca. Paciência, vamos pra outra personagem feminina preponderante.

Mulher Gato, Selina Kyle. A clássica antagonia ao morcego, a ladra sedutora que seduz Bruce tanto fantasiada quanto sem fantasia. Começa bem de fato, me surpreendendo. Mas depois desanda. A personagem que só pensa em si, que rouba por prazer e por luxo logo se perde sendo também enganada por tudo e todos. Dois dos personagens mais espertos disponíveis não dão uma bola dentro. Sinceramente, não sei por que ela esta no filme. Na cena ridícula em que ela negocia Bane pelo arquivo ‘Ficha Limpa’ com Bruce, ela entrega sua parte e vai embora, sem pegar a recompensa? Mas ela não faz as coisas pra si mesma? E se ela teme muito mais o Bane do que o Batman (como depois revela), por que ela entregou o morcego e não pegou sua única chance de fugir? Atrapalhou o morcego em algumas partes, ajudou em outras, saldo nulo. Pelo menos se fosse a Kristen Stewart no papel, mas essa Anne Hathaway não passa credibilidade quando vai enganar o cara.

E o que dizer do policialzinho que descobre a identidade de Bruce por sua expressão facial? Já ia dizer que era o segundo personagem coadjuvante mais inútil, mas aí ele recebe a herança do morcego, na cena que homenageia a hq O Cavaleiro das Trevas (Bem observado Serjão). E revela ter Robin em seu nome. Ora Nolan, fique com seu Robin e com suas surpresas. Uau, esse cara é o Robin! Só se for pra você, achei bem sem graça. Mais sem graça que isso só o Bruce se aposentando com Selina para agradar o Alfred.

Também tem o reator de energia limpa que pode ser transformado numa bomba nuclear, quer dizer numa atômica, nem sei mais. É tanta confusão tecnológica desencessária, deixa pros Vingadores ou para filmes de ficção científica. Queria ver sombras, suspense, vilões insanos e tenebrosos, conflitos internos como entre Coringa, Duas Caras e Batman (segundo filme). Mas o vilão deste filme (Bane, pois a Talia eu descarto como uma mudança de roteiro ridícula) foi trazido pra triturar o morcego, deixá-lo no fundo do poço. É por isso que não gosto de Rocky Balboa, não tenho paciência de ver o cara chegar a beira da morte, treinar e levantar. Pula pro final e boa, não precisa de 2h45m de filme, eu só quero ver o Batman.  Por isso que nos filmes de boxe, prefiro Touro Indomável. O cara é foda, passa por uma provação gigantesca pra chegar ao auge (e não o faz sem perder algo muito importante), e declina, história real. Este era o Batman que eu esperava, forte, imponente como sempre, até ser quebrado. A provação é feita, o espírito restituído, e o trono alcançado, para em seguida continuar seu dia a dia. 

Acho que embaixo da máscara de Bane estava o Nolan, afinal, ao invés de Tom Hardy. Ele me tortura por 2h45m (não perdouo quem filma mais de 2 horas sem roteiro pra isso), me joga no fundo do poço, acaba com minhas esperanças, mas na hora que era pra eu ressurgir, na minha história ele vence. Bane me quebra de novo utilizando a fórmula Balboa, a mais tradicional do cinema, e as reviravoltas baratas de última hora. Deixar o personagem mofando no poço o filme inteiro é uma bruta de uma sacanagem, como se não soubessemos que ele iria sair de lá e dar a volta por cima. E pensar que todo o conflito interno desse filme se resumiu a se Bruce tinha medo ou não… Tá querendo um lugar no próximo Lanterna Verde, Nolan?

Nos filmes que não gosto, ao menos costumo me divertir com os pontos turísticos das cidades. Observar uma Nova Iorque cenográfica e pouco representativa como a de O Espetacular Homem Aranha é muito menos divertida do que a mesma cidade filmada em Vingadores. Sendo Gotham City uma cidade fictícia, não teria esse aspecto para observar, mas qual é a minha surpresa em ver a ponte do Brooklyn, um dos cartões postais da mesma Nova Iorque, marcada com o morcego flamejante? Como que essa ponte única pode servir de cenário para uma cidade fictícia? Tá querendo me agradar Nolan? Mais uma vez você deixou o peão girando…

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.