Há, de fato, uma diferença fundamental entre uma figura como o Superman e figuras tradicionais como os heróis da mitologia clássica, nórdica, ou as figuras das religiões reveladas. A imagem religiosa tradicional era de uma personagem, de origem divina ou humana, que, na imagem, permanecia fixada nas suas características eternas e o seu acontecimento irreversível. Não se excluía que, por trás da personagem, existisse, além de um conjunto de características, uma estória: mas a estória já se achava definida segundo um desenvolvimento determinado e passava a constituir, de modo definitivo, a fisionomia da personagem. (…) a personagem das estórias em quadrinhos nasce, ao contrário, no âmbito de uma civilização do romance. (…) a tradição romântica oferece-nos uma narrativa em que o interesse principal do leitor é deslocado para a imprevisibilidade do que acontecerá, portanto, para a invenção do enredo que passa para o primeiro plano. (ECO, 1974)

Com o sucesso dos filmes de super-heróis nos cinemas e das séries da TV ou de canais de streaming/on demand, eventos promovendo debates sobre o assunto têm se tornado mais frequentes. Aparentemente, super-heróis é um assunto que nunca se esgota e olha que eles nos acompanham há várias décadas.

Até mesmo alguém que não tem o hábito de ler HQs de super-heróis, como é o meu caso, não consegue ficar indiferente a eles. Sua onipresença na cultura pop e em vários âmbitos de nossas vidas é algo tão estabelecido que mesmo crianças que nunca pegaram uma HQ nas mãos sabem identificar figuras icônicas como o Homem de Ferro, Mulher Maravilha, Homem Aranha, Superman e o Batman.

No dia 14 de maio de 2016 participei de um bate-papo sobre o tema na Gibiteca de Santos. Com mediação de André Rittes e participação de Marco Aurélio (Santos Comic Expo) e Emílio Baraçal (Supernova produções), conversamos sobre expectativas, gostos, decepções e polêmicas do universo dos super-heróis.

Bom, minha referência de heróis vem basicamente das séries dos anos 60 (com Adam West de Batman e Lynda Carter como Mulher Maravilha), das animações da TV e dos filmes. Lembro que quando X-Men passava na TV eu me questionava se não estaria muito velha 13220817_717579158384790_3500155992110074740_npra isso, já que eu estava na faculdade e meus amigos não tinham o hábito de assistir desenhos animados.

No entanto, não só os convidados, mas os participantes do evento eram assíduos leitores e como a faixa etária dos presentes era bem variada, entre os 20 e 50 anos, então foi bem interessante notar que apesar da diferença de idade, as insatisfações eram as mesmas.

Uma delas é em relação às histórias atuais. Todos concordaram que a sensação que se tem é que a Marvel e a DC estão requentando as mesmas histórias há alguns anos. Há uma insatisfação por parte dos leitores com o visual massificado que não permite que você identifique mais o desenhista apenas de bater o olho em uma HQ.

Marco Aurélio acredita que isso se deva à velocidade no processo de confecção dessas HQs: Hoje em dia, roteiristas e desenhistas têm muito pouco tempo para produzir uma história e certamente questões burocráticas limitam a criatividade dos artistas.

Emílio Baraçal mencionou Mark Waid como um dos responsáveis pela melhor história de heróis que leu recentemente, o Demolidor. Disse que Waid soube trabalhar um herói que já possuía uma história, acrescentando características que enriqueceram sua narrativa, e foi capaz de mostrar que é possível trazer novas histórias de personagens já consagrados sem ter que alterar traços de sua personalidade ou de sua mitologia.

Como não podia faltar, polêmicas ocorreram quando falamos sobre as adaptações para séries e cinema e quando tocamos no assunto de representatividade nas HQs. Sobre as adaptações, por mais que os fãs se decepcionem ao ver seus heróis retratados muitas vezes de forma “equivocada” nas telas, acabamos concordando que mídias diferentes pedem abordagens diferentes. Mesmo porque, filmes e séries não são feitos para fãs, mas para o público que não costuma comprar HQs, como uma forma de aumentar o alcance de um produto. Prova disso é o merchandising dos produtos licenciados: Por mais que um filme não seja o maior sucesso de bilheteria, itens relacionados a ele esgotam nas lojas em questão de poucas horas, como foi o caso das coleções de lojas de departamento que venderam itens da linha Batman vs Superman.

Em relação à questão da representatividade nos quadrinhos, alguns artigos apontam que apesar da inserção de personagens femininas, negros ou LGBT, a venda das HQs caiu. Talvez não seja o caso da nova Ms. Marvel com a personagem muçulmana Kamala Khan, mas de uma forma geral, chegamos a um consenso de que inserir personagens como uma espécie de “cota” apenas para dizer que foi feito e não atentar para o roteiro, obviamente irá refletir nas vendas. Pessoas querem ler boas histórias, independentemente de quem as escreveu, mas a questão da representatividade tem que ser tratada com mais seriedade por parte dos editores. Quando um homem branco na faixa dos seus 50 anos diz que odiou Ms, Marvel, por exemplo, eu penso que é óbvio, afinal, a história não foi escrita para ele e isso não significa que não há outras histórias ou que todas as histórias passarão a representar apenas um determinado grupo de pessoas, pois há espaço para todos.  Vale lembrar que a ideia de trabalhar nichos dentro da produção cultural não é algo recente. Na verdade, imagino que a diminuição de vendas em determinado setor indique que os consumidores migraram para seus nichos, como é o que vem acontecendo com as revistas de moda, saúde, comportamento …. Para isso que editoras investem em análise de mercado, pesquisas…. É um princípio básico para quem trabalha com marketing e sabemos que no fundo, tudo se trata apenas de vender um produto. Ainda assim, parece que os editores de HQs não atentaram para isso: Obviamente é mais lucrativo vender algo ruim associado a um personagem icônico que criar um personagem totalmente novo em um mercado já consolidado, mas ao interferir em características de certos personagens, alterando sua mitologia, isso pode ferir o conceito de verossimilhança desse personagem, comprometendo seriamente a vendas de produtos relacionados a ele. Imaginem se o Superman ou o Capitão América assumissem um comportamento como o do Comediante de Watchmen! Simplesmente não faria sentido.

Super-heróis talvez seja um assunto que nunca se esgote mesmo. Sempre haverá alguém encontrando um personagem pela primeira vez e isso me remete às histórias de pessoas reais que dizem terem sido salvas por algum herói. A última que conheci foi a da escritora Lilian Robson que afirma ter sido salva pela Mulher Maravilha: Ela se encontrava na banheira de sua casa e teve um problema no joelho que a impossibilitou de se levantar. Desesperada e sozinha teria pensado no que Diana faria em seu lugar e se viu literalmente evocando a personagem, assim teria encontrou forças para se erguer.

Enfim, esses bate-papos são sempre uma oportunidade de aprender algo novo sobre o assunto, como por exemplo, o fato de que muitos leitores acreditarem que os vilões da Marvel não são tão bem trabalhados como os da DC. Realmente, se perguntarmos aos leitores sobre 10 vilões, a maioria conseguirá facilmente elencar 10 da DC, sendo que a maioria aparece só nos arcos do Batman e terão dificuldade de lembrar de bons vilões da Marvel com a mesma facilidade.

Também é uma boa forma de editores sentirem o mercado, afinal, grande parte do público presente nesses eventos é composta de fãs e consumidores dos produtos relacionados aos temas propostos.

Ao final do bate-papo, levantei uma pergunta aos presentes e achei bem interessante que a maioria teve dificuldade de citar uma boa HQ de super-heróis que tenha lido recentemente. Isso certamente indica bastante coisa sobre o mercado atual. Você se lembra qual foi a última boa HQ de super-heróis que leu?

 

 

 

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.