Felipe Parucci é quadrinista e autor de 'Apocalipse, por favor', HQ lançada de forma independente, aclamada pela crítica e indicada ao prêmio Troféu HQMIX 2016 nas categorias Novo Talento Roteirista e Publicação Independente – Edição Única. 'JÁ ERA' é o segundo livro a ser produzido pelo autor, que busca financiar sua publicação impressa pelo Catarse. Para saber um pouco mais sobre seu novo trabalho, resolvemos bater um papo com o Felipe! 

Vamos lá!

[Quadro a Quadro] JÁ ERA é seu segundo trabalho. Pode contar um pouquinho do que se trata, para aqueles que ainda não te FPconhecem?

[Felipe Parucci] Cara, sou péssimo pra escrever sinopses. Sou do tipo de leitor que gosta de pegar um livro na prateleira, folhear rapidamente, e levar pra casa sem saber nada sobre o que vou encontrar ali. Descobrir a história durante a leitura pra mim faz parte da experiência. Acho que por esse motivo as sinopses dos meus livros são extremamente vagas ou genéricas (o que as vezes pode me atrapalhar na hora de vender o livro).Pra JÁ ERA preparei uma sinopse assim: “Regina é uma publicitária que trabalha muito, mas ganha pouco. Sua vida como jovem adulta não é muito diferente da dos outros: chata e cheia de responsabilidades. Mas um acontecimento banal leva Regina a tomar uma decisão grandiosa: largar tudo e fugir!”.
 

[QaQ] Para aqueles que já conhecem APOCALIPSE POR FAVOR, o que podemos esperar de JÁ ERA? Aposta em novidades ou aposta no que deu certo no teu trabalho anterior? As duas obras tem alguma ligação?

[FP] A concepção dessa história foi completamente diferente da APF. Apocalipse, por favor foi uma história que demorei anos pra montar, talvez pela minha falta de experiência da época, talvez pela complexidade da história. Essa nova surgiu de um bate-papo de 30 minutos com a minha namorada. De início pensei em fazer um zine curto, mas de tanto pensar na história, ela foi crescendo por conta própria até virar o roteiro atual, de aproximadamente 300 páginas (ou seja, maior ainda do que APF). Apesar dessas diferenças, acho que dá pra considerar que as duas histórias são ligadas de alguma forma, já que elas surgem de um pensamento parecido. Apocalipse, por favor fala de um cara que sofre uma pressão social tão grande que enlouquece, seu inconsciente decide “fugir” da realidade, enquanto em JÁ ERA, algo parecido ocorre com a Regina, só que ela decide fugir conscientemente.

Já conversei com uma leitora uma vez sobre o plano de fazer um terceiro livro depois do JÁ ERA e fechar o que na hora da conversa eu chamei de TRILOGIA DA FUGA. Mas foi uma pira do momento, não sei se vou fazer mesmo heheheh.

De qualquer forma, meu estilo narrativo deve continuar o mesmo. Introspectivo, com economia de palavras, aquele humor “besta” e no bom e velho preto e branco. Acho que estou mais pra tentar imprimir meu estilo próprio do que pra experimentar algo novo.

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[QaQ] Uma coisa que chama a atenção em seus dois trabalhos é o argumento simples, mas muito cativante. De onde surgiram as ideias para “APOCALIPSE” e para JÁ ERA?

[FP] Bom, já falei um pouco disso na pergunta anterior, mas APF surgiu de uma velha obsessão pela temática do fim do mundo. Desde criança esse tema me cativou. Me lembro de ter escrito um discurso na aula de oratória do ensino médio (na época eu tinha oratória na escola, bizarro) sobre o fim do mundo que deixou todo mundo pensando que eu era maluco. Já na faculdade, tava passando por uma época que todo jovem passa, tinha levado um fora da namorada, andava meio melancólico, descontente com minha rotina, acabei escrevendo uma passagem em que um cara que trabalhava com burocracia tinha um dia ruim e ao pegar o elevador do escritório pra ir pra casa ele dizia “porra, tomara que esse mundo de merda se exploda”, aí quando o elevador abria ele se deparava com o fim do mundo real. Uma historinha boba, que acabou servindo de matéria prima.

JÁ ERA, de uma forma diferente, surgiu de uma conversa com a minha namorada. A gente mora em cidades diferentes e muitas vezes nossos papos tem que ser por telefone. Numa noite qualquer, eu tentei inventar uma história pra fazer ela dormir (hahahahahah), foi aí que surgiu a ideia do livro.

 

apoca[QaQ] Em “APOCALIPSE”, você foi muito elogiado tanto pelo roteiro quanto pela arte. Como é seu processo produtivo? Como desenvolveu teu traço e tua escrita?

[FP] Sempre desenhei, desde pequeno. Houve uma época da minha adolescência, quando todo mundo tinha PC em casa e ficava horas no Mirc, ICQ, MSN, etc. e eu não tinha computador. Passava o tempo desenhando, acho que umas 5 horas por dia. Mas o esquema é que eu gostava MESMO de desenhar, não conseguia parar e adorava meus próprios desenhos (acho que mesmo que tivesse um computador, ele ficaria de lado). Já adulto, trabalhei uns bons anos no jornal Diário Catarinense, de Floripa, como ilustrador. Acho que foi lá que desenvolvi meu traço e minha habilidade de desenhar relativamente rápido, o que é ótimo pra desenhar 300 páginas em menos de um ano. Fazendo Apocalipse, por favor, lembro que meu record foi desenhar 7 páginas num só dia (nesse dia eu não comi e nem tomei banho)!

Em relação a escrita, acho difícil de explicar. Eu sou formado em Direito, e posso ter aprendido muita coisa de redação ali, mas acho que as histórias vêm muito mais de uma habilidade de PENSAR do que da habilidade de ESCREVER. Eu penso muito em histórias e coisas loucas, e leio muito gibi, claro.

 

[QaQ] Em JÁ ERA você optou por cuidar de todo o processo, além de roteiro e arte, vai tratar da produção e edição do álbum.  Você prefere cuidar de cada etapa e publicar de maneira independente ou tem planos de trabalhar com alguma editora no futuro?

[FP] Quando produzi APF eu era completamente desconhecido e não tinha muita opção. Mas mesmo que tivesse, acho que eu teria acabado fazendo tudo de forma independente mesmo. Eu tenho muito esse espírito “lone wolf” quando se trata do meu trabalho. Gosto da ideia de que um trabalho feito totalmente por minhas mãos vai ter muito mais apelo artístico, artesanal, e isso pra mim tem muito valor.

Apesar disso, com o livro pronto eu comecei a perceber a falta que uma editora fez pra esse projeto. Eu simplesmente não tenho as manhas de vender o livro, divulgar, distribuir…o trabalho vai muito além da minha capacidade. No fim das contas, ainda tenho várias caixas do livro em casa servindo pro meu gato afiar as unhas.

Pro projeto novo, o JÁ ERA, penso em manter a independência na produção e edição, mas o plano é encontrar alguma editora pra fazer a função de distribuição e venda.

 

[QaQ] Na campanha de JÁ ERA no Catarse, você prevê o lançamento para Março. Em que fase está o projeto? Em sua primeira campanha (a de “Apocalipse”) você também cronotrabalhou assim? 
(na verdade, Abril)

[FP] Assim como o APF na época do catarse, JÁ ERA ainda está em fase de finalização. No momento eu tenho 15 páginas totalmente finalizadas, um storyboard com 45 esboçadas e um roteiro (tosco) com começo meio e fim. Foi o que consegui fazer desde que terminei APF, me dividindo com trampos que costumo pegar como ilustrador freelancer.Como ambos os projetos são muito longos e precisam de muita dedicação, o Catarse acaba servindo como garantia de recursos pra eu poder me dedicar full time. Sem essa grana, eu simplesmente não teria condições de me bancar durante a produção e o projeto ficaria inviável pra mim.

 

[QaQ] Atualmente, tem trabalhado com algo além de quadrinhos? Se sim, como você encaixa a produção de hqs no teu cronograma? Tem outras ambições artísticas no momento?

[FP] Como mencionei na pergunta anterior, desde 2012 trabalho como ilustrador freelancer, ultimamente trabalhando com animação, principalmente em parceria com o estúdio de um amigo, o Clint Studio, de Florianópolis. Com esse trabalho, acabo me dividindo nas “entressafras” dos trabalhos pra produzir a HQ, mas com o Catarse rolando (dedos cruzados) devo me dedicar full time à produção do livro até o final. Com o APF foi a mesma coisa.

Em relação à “ambições artísticas”, eu gosto muito de pintar, inclusive já tentei emplacar algumas exposições sem muito sucesso. Mas uma das recompensas do Catarse são quadros de uma série que estou pintando na temática do livro. De repente faço uma exposição com eles antes de enviar aos donos.

 

[QaQ] Como é a cena de quadrinhos na cidade em que você mora? Como foi com Apocalipse, teve mais receptividade na sua região ou mais pelo Brasil a fora? E quanto ao lançamento em outras cidades e em eventos, pode falar um pouco como foi?

[FP] Sou suspeito pra falar, mas acho que em Floripa, temos alguns dos maiores quadrinistas do Brasil. Eduardo Medeiros, é gaúcho mas mora por aqui, temos o Pedro Franz, um artista genial, Galvão Bertazzi, que além de meu amigo, é autor de um dos meus quadrinhos favoritos, o Compêndio, Samuel Casal, Fernanda Chiela, etc etc. Tem muita gente boa por aqui. Acho que tanto mar deixa a gente inspirado.
Meu quadrinho fez bastante sucesso por aqui, mas acho que o principal motivo é que TODOS os meus amigos compraram hahahah. Fora da minha cidade eu fiz lançamentos em Blumenau, Joinville, BH, no FIQ (onde tive a melhor repercussão entre meus lançamentos) e São Paulo, na loja da UGRA. Acho que tive uma ótima aceitação do publico, o que me deixou bem feliz e com muita vontade de produzir mais. Apesar de não ter vendido tanto livro, recebo muitas mensagens de quem leu e gostou, pedindo mais.

 

JE2[QaQ] Outro ponto forte de seus trabalhos é a maneira como você desenvolve seus personagens. Sempre peculiares e interessantes, são um atrativo a parte além da narrativa. Se inspira em pessoas reais?

[FP] Muitas vezes sim. Gosto de “homenagear” amigos nas minhas HQs. O Dr. Barbosa (Apocalipse, por favor), por exemplo, é um grande amigo meu. O Jorge também é inspirado em um amigo. E na nova HQ, JÁ ERA, a personagem principal, Regina, é inspirada na minha namorada, a Sarah, que é uma das pessoas mais engraçadas que eu conheço.

 

[QaQ] Para terminar, e se um dia pudesse trabalhar com um personagem já existente, de outro autor, com qual personagem gostaria de trabalhar?

[FP] Interessante essa pergunta. Eu cresci lendo X-men, apesar dos meus quadrinhos não terem nada a ver com essa temática de super-heróis. Poderia ser legal trabalhar com eles, principalmente com o Ciclope, meu favorito, mas só se eu tivesse uma liberdade absurda pra viajar com o conceito das personagens.

Uma vez imaginei uma história maluca, inspirada em Red Son, com o Superman. Na história, a nave do Superman bebê caía no nordesde brasileiro e ele crescia como um messias, estilo “Antônio Conselheiro”, o nome dele seria “Carlos Crente”. A repórter “Luisa Helena” viajaria pro nordeste pra gravar um documentário sobre ele. E um pastor evangélico “Alex Lucro” tentaria engambelar o “superhomi” pra ganhar mais fiéis pra sua igreja. Hahahahhahahaha, uma pira!
 

[QaQ] Hahaha sabe que o Ciclope, depois de tanto calvário, está num lance meio de fuga da realidade ultimamente né? Quem sabe não completaria sua trilogia sobre fuga. E Alex Lucro! Hahahaha! Precisamos ver isso publicado! Obrigado Felipe, valeu por toda a disposição para responder nossas perguntas!

E para o pessoal que se interessou por Apocalipse, por favor! e JÁ ERA, segue novamente o link para o Catarse:
https://www.catarse.me/jaera

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— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.