Quando eu era moleque, todos os dias por volta do meio dia e meia, levava minha irmã na escolinha.

Era um saco pra um moleque de 13 anos fazer aquilo todos os dias.

Lá ia eu, cinco quarteirões de subida, com aquela pentelhinha nas costas, de cavalinho.

Mas não reclamava (mesmo porque se reclamasse levava uma bifa da minha mãe).

Pacote entregue, descia de volta, absorto nas histórias que minha cabeça ia criando pelo caminho.

E adorava os dias de chuva.

Tudo porque, durante as três primeiras quadras daquela descida, não havia bueiros e a enxurrada corria livre.

E em dias de chuva eu sempre levava um barquinho de papel preso no elástico de um horrível shorts de nylon. Não riam, era década de 80, pombas!

Olhava aquela enxurrada, desdobrava cuidadosamente o barquinho e – de repente e sem aviso prévio – aquela sarjeta virava outra coisa.

Virava um mundo particular, onde eu era o capitão de um navio pirata, de uma bat-lancha (da Gulliver, claro) ou qualquer outra coisa que andasse por aqueles mares bravios que minha cabeça criava enquanto acompanhava o movimento frenético daquele simplório brinquedo.

Submarinos inclusive.

20.000 LéguasEu nunca li o original de 20.000 Léguas Submarinas, de Júlio Verne. O que li, há mais de 25 anos, foi uma adaptação da coleção Clássicos da Literatura Juvenil, da Abril. Também assisti o inesquecível filme da Disney, com o Kirk Douglas no papel do arpoador Ned Land.

E só.

Até agora.

Desde que a Editora Nemo anunciou que o João Marcos e o Will adaptariam a obra,  comecei a me coçar na cadeira.

Juro que tentei, de todas as maneiras, conseguir informações prévias sobre o álbum.

Uma imagem não finalizada que fosse!

Mas tudo o que recebi foi o olhar enigmático do Will (odeio quando ele faz isso) e o silêncio categórico do editor Wellington Srbek (odeio tanto quanto, mas não admito nem sob tortura, afinal, se bem me lembro, ele é meu editor também).

O jeito foi esperar.

E a espera valeu a pena.

Vinte Mil Léguas1

João Marcos é Mestre em Artes Visuais e autor de álbuns infantis. Tem um site muito bacana onde divulga seus personagens. Também se dedica à pesquisa teórica sobre quadrinhos, além de ser um dos roteiristas da Turma da Mônica.

É bastante provável que eu já tenha lido – através dos gibis da Turma – dezenas de histórias desse experiente roteirista. Mas de sua produção autoral, eu só conhecia mesmo Sete Histórias de Pescaria do Seu Vivinho. Mas ali ele atuou apenas como desenhista e eu estava curioso para ler seu roteiro, afinal, com esse gibi, a Nemo inaugura uma nova linha de publicações, que tem o sugestivo nome de Quadrinhos Para Todos.

Conseguiria nosso intrépido roteirista desbravar os mares bravios da secular obra de Verne e atingir os mais diferentes públicos?

nautilus A resposta é sim. E com sobras.

Pouco a pouco, João vai nos apresentando o enigmático monstro marinho que aterroriza a todos naquele mundo do final do século XIX. Logo sabemos que o renomado Professor Aronnax, uma sumidade quando o assunto é o que está embaixo d’água, e seu fiel empregado Conselho, se juntarão à tripulação do Abraham Lincoln numa incansável expedição de caça àquela terrível fera.

Lá eles conhecerão o intrépido e honrado Ned Land, o maior arpoador de sua época, e juntos, após uma mal sucedida investida contra o monstro, descobrirão que a pior fera marinha que já se teve notícias é na verdade uma máquina de proporções nunca antes vistas: o submarino Náutilus.

Mas seus problemas estão apenas começando. No leme de tão prodigiosa máquina está um homem que parece talhado a ferro e fogo: o misterioso Capitão Nemo.

Com um roteiro ágil, que passeia de maneira natural numa história já bastante conhecida, e sem medo algum das armadilhas que uma obra desse porte reserva, João Marcos nos apresenta o mundo fantástico de Júlio Verne da maneira que toda adaptação em quadrinhos deveria ser: como um bom gibi, daqueles que se lê com um sorriso maroto de divertimento nos lábios.

E aí temos a arte do Will.

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Em 2011, Will lançou pela Nemo, em parceria com Wellington Srbek, dois volumes da coleção Mitos Recriados em Quadrinhos. Ainda arrumou tempo – sabe-se lá Deus como – para produzir, com o roteirista Daniel Esteves, o excelente O Louco, a Caixa e o Homem, edição independente laureada com o prêmio HQMIX deste ano. 

Desenhista de qualidade ímpar, Will é um daqueles fenômenos inexplicáveis no mundo da arte. Seu traço único tem conseguido algo que poucos – muito poucos mesmo – conseguiram: o reconhecimento imediato de seu autor.

Basta olhar qualquer uma de suas ilustrações para que venha a inevitável pergunta: isso aqui é do Will, não é?

É. E isso não é por acaso.

Will tem a habilidade de capturar em seus desenhos elementos que nos remetem a um outro mundo, num outro tempo e espaço. Uma capacidade única de nos trazer à tona fragmentos de nossa infância.

Talvez seja seu traço cartunesco, talvez sejam as cores que ele usa.

Ou talvez seja simplesmente ele, Will, e seu enorme talento.

As páginas de 20.000 Léguas são estupendas e as cenas no fundo do mar possuem uma beleza rara. Seguindo as indicações narrativas de João Marcos, Will produziu quadros antológicos.

A cena do velório no fundo do mar é de uma sensibilidade absurda, que revela muito da capacidade desse singular desenhista.

E ainda tem a sequência do ataque dos polvos gigantes…

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Quando eu olho para um gibi como esse 20.000 Léguas Submarinas em Quadrinhos, é impossível não lembrar daqueles dias de chuva, em que um simples barquinho de papel tinha a capacidade de me transportar a outros mundos.

Mas também me faz perceber que cresci e que aqueles mundos que criava em minha cabeça, os mesmos mundos que durante décadas julguei perdidos para sempre, na verdade nunca foram abandonados.

Para encontrá-los, basta um gibi.

Sim, o João e o Will fizeram um gibi para qualquer idade.

Nemo Nautilus

Para descolar um autógrafo e bater um bom papo com os autores:

O lançamento de 20.000 Léguas Submarinas em Quadrinhos ocorrerá nesta sexta feira – dia 17 de agosto – na Bienal do Livro de São Paulo, no estande da Autêntica, a partir das 14 horas.

Depois disso, os autores vão pra Gibiteria, para um bate papo sobre quadrinhos em mais uma edição do Dossiê HQ.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.