CONTÉM SPOILERS….PERO NO MUCHO!

Quando foi lançado em 2013, o filme La vie d’Adele (Azul é a cor mais quente, em português) não passou indiferente por onde foi exibido. A grande quantidade de indicações a prêmios que se seguiu após sua estreia colocou grandes holofotes sobre os envolvidos na película em forma de polêmicas, controvérsias, desafetos

Na época não me interessei muito, mesmo sabendo que o filme teria sido inspirado em um HQ.

Pois que no final do ano passado, aproveitei a feira de livros da USP e achei a HQ pela metade do preço. Dei uma olhada, achei o visual bem bonito e resolvi descobrir porque a história sobre a menina que se apaixona por uma desconhecida de cabelos azuis havia causado tamanho furdunço.

Bom, apesar de se tratar de um drama, a leitura da HQ foi muito prazerosa e em poucas horas eu a terminei. A autora Julie Maroh soube trabalhar muito bem as questões do preconceito que as protagonistas sofrem. As cores e disposição das imagens também ajudam a amenizar o peso de tudo que as duas tiveram que enfrentar juntas e ao final, fiquei me perguntando se não fosse o filme, a história teria tido tanta repercussão. Tratar um assunto que ainda é tabu para muita gente, como é a homossexualidade, e achar o equilíbrio entre o exagero e o bom gosto, não deve ser algo simples e as pessoas têm históricos diferentes no que diz respeito a lidar com esses tabus, mas não encontrei na HQ motivo para tanta polêmica. Azul é a cor mais quente é, sobretudo, uma história de amor, autoconhecimento, e aceitação, portanto, temas universais.

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Tendo gostado da HQ, resolvi assistir ao filme, mas não com um olhar crítico. Depois de ter lido o livro Uma teoria da adaptação, de Linda Huntcheon, eu aceitei em meu coraçãozinho nerd que é quase impossível uma adaptação agradar os fãs da obra original e que os diretores não estão nem um pouco preocupados, porque quem é fã assiste ao filme de qualquer forma, nem que seja para falar mal. Então, os filmes são voltados para o público em geral e nem sempre procuram ser fiéis às obras que os inspiraram.

Com a La vie d’Adele não foi diferente, a começar pelo nome da protagonista, que na HQ é Clementine. A verdade é que dizer que o filme é inspirado na HQ parece apenas ter dado ao diretor o direito de usar uma personagem lésbica de cabelo azul, porque no mais, a película não se assemelha em nada com os quadrinhos. É um filme interessante se você assistir sem pretensão e fica fácil entender as indicações aos prêmios quando se nota a entrega das atrizes às personagens. Muito da polêmica se deve às cenas de sexo explícito entre as duas, que muita gente julgou serem longas demais, explícitas demais… Quem não leu a HQ poderia achar que a exposição excessiva da vida íntima de Adele e Emma se justificasse na obra original, mas infelizmente, o que parece é que o diretor só quis mesmo explorar a situação e isso se confirma nas declarações das atrizes. O próprio diretor declarou se sentir amaldiçoado e arrependido de ter feito o filme, pois sentiu dificuldade em ter outros projetos aprovados.

As cenas de sexo, além de picantes, são no mínimo didáticas. Quem não costuma assistir a filmes pornográficos com performances entre mulheres, talvez não tivesse ideia da infinidade de posições, opções, possibilidades que existem na troca de carinho e no ato sexual em si. Por isso, tentar assistir a película com a mente aberta, é uma experiência interessante.

Sinceramente, essas cenas não me incomodaram tanto quanto achei que iriam, pois de alguma forma elas estavam no contexto e nem eram tão longas. As atrizes conseguem transmitir com perfeição a paixão de suas personagens, não devendo nada aos grandes nomes consagrados do cinema.

O que de fato me incomodou, além da trama ser completamente diferente, foi a escolha do diretor em retratar certos momentos que não La_Vie_dAdèle_movie_poster1faziam a menor diferença para a história e poderiam ter sido cortados. Além de não serem relevantes para a trama, Kechiche deixou de explorar características psicológicas e os dramas do casal em função dessas cenas, retratando Adele várias vezes e por longos períodos em seu trabalho com crianças em uma creche. Essas cenas são repetitivas e parecem completamente desconectadas do resto do filme.

Então, como muitos amigos assistiram ao filme e me perguntaram se valeria a pena ler a HQ, eu recomendo fortemente que o façam, não no sentido de comparar as obras, porque com disse, são duas histórias diferentes, mas porque é mesmo uma leitura muito agradável. Quem gostou da versão cinematográfica, certamente gostará ainda mais de conhecer a verdadeira história da moça dos cabelos azuis e de como é possível tratar dramas complexos de maneira extremamente leve.

Penso também que se não fosse toda a polêmica sobre o filme, muita gente não teria conhecimento da HQ, ou seja, para os quadrinhos isso foi bem positivo.

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.