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Waldemar

Dema talvez tenha sido um dos maiores jogadores de futebol da nossa história. E foi também muito mais.

Dema era bonito e charmoso, bom de papo e de briga, desenhava bem e lia praticamente de tudo. Era o sonho de todas as meninas da Vila Formosa naquela bucólica periferia dos anos 60. Mas sobretudo era bom de bola.

Não é mentira, virou até lenda.

Pergunte a qualquer um com mais de 70 anos sobre a dupla Dema e Rato (seu irmão mais novo), dos campos de várzea da São Paulo daquela época. O talento lhe valeu anos de carteira registrada num grande banco do país.

Não fazia nada burocrático, nunca atendeu um cliente sequer.

Dema era pago pra jogar bola e o tal do banco foi bicampeão paulista de futebol amador. Era um timaço.

Dizem que meu pai só não foi melhor que Pelé e Garrincha. Mas um velho amigo afirma, sem qualquer tipo de pudor, que Zico e Romário comeriam poeira. Sua habilidade na ponta esquerda lhe valeu um convite para jogar no time profissional do Grêmio, em Porto Alegre. Ele não foi.

Hoje a Vila Formosa não é mais periferia de São Paulo, é bairro de classe média e tem casa valendo milhão por lá.

Da várzea mesmo, apenas os Campos do Flor resistem bravamente à especulação imobiliária que afeta a região.

Mas o velho Dema não assiste mais jogos de várzea. Simplesmente porque não chegou à velhice. Dema perdeu a batalha para o alcoolismo no início dos anos 90, poucos meses antes da seleção ser tetracampeã mundial em campos ianques.

Ele tinha 49 anos.

 

Mazzucchelli

Asterios Polyp, de David Mazzucchelli (Quadrinhos na Cia – 344 páginas – R$ 63,00) é talvez um dos gibis mais surpreendentes da história.

Primeiro porque a arte é uma porrada, seja qual for a sua referência.

A maior parte dos leitores com mais de 30 anos conhece Mazzucchelli por dois trabalhos soberbos que fez na década de 80 em parceria com o lendário Frank Miller (no tempo em que esse último ainda fazia e falava coisas que prestavam): Batman: Ano I e A Queda de Murdock.

Naquela época, para quem não viveu, os comics passavam por uma revolução sem precedentes, tanto na temática quanto na arte. Gênios como Bill Sienkiewicz e John J. Muth viravam nosso conceito de desenho nos quadrinhos de cabeça para baixo.

Mas David Mazzucchelli destruiu qualquer parâmetro existente. O que ele fez naqueles dois trabalhos não era simplesmente desenho, era muito mais. Com seu estilo minimalista, ele imprimiu aos comics uma expressividade sem igual. Seus quadrinhos não precisavam de balões, eles simplesmente falavam sozinhos.

Virou lenda entre os leitores.

Mas logo depois abandonou e foi se dedicar a outros projetos que, claro, nunca chegaram aos leitores brasileiros.

E agora, mais de 20 anos depois, ele retorna.

Mas não do jeito que vocês imaginam. O Mazzucchelli que vocês verão nas páginas de Asterios Polyp não é o mesmo de Batman e Demolidor.

E essa é apenas a primeira porrada que você vai tomar.

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Texto + Imagem

Uma das poucas regras imutáveis na arte é: mude sempre.

Se Picasso tivesse ficado sua vida inteira na fase azul, você associaria seu nome apenas a um trocadilho infame.

Se Johnny Cash não tivesse comido o pão que o diabo amassou, ele seria apenas mais um nos primórdios do rock e não uma lenda da música.

Se não tivesse convivido desde cedo com a urgência da vida frente à clara possibilidade da morte, Henrique de Souza Filho seria hoje apenas um nome numa certidão de nascimento num cartório do pequeno município de Ribeirão das Neves, em Minas. Mas a vida e a morte sempre lhe bateram à porta e Henrique Filho se tornou Henfil. E o resto é história.

Um artista, seja qual for seu gênero de expressão, não pode nunca se acomodar. Nem no fracasso, nem no sucesso.

E David Mazzucchelli, para nosso deleite, não se acomodou.

O que encontraremos em Asterios desafia qualquer conceito pré estabelecido em quadrinhos. Não que os recursos que ele tenha utilizado sejam novos. Não são. E alguns elementos, como tipografia diferenciada para cada personagem, já eram utilizados por gênios como Will Eisner na década de 40.

Mas Asterios é uma aula de quadrinhos. E uma aula ousada, dessas ministradas por professores progressistas que diretores tacanhas adoram colocar no olho da rua.

Então, ponto para a Quadrinhos na Cia por trazer esta obra ao público brasileiro.

De uma forma inusitada, Mazzucchelli  cria estilos de arte diferenciados para cada personagem, onde traços radicalmente opostos conflitam dentro de um mesmo quadro, nos dando a incômoda impressão que o gibi foi feito a quatro, seis e até oito mãos.

Balões e letras acompanham as personalidades das personagens, potencializando ainda mais essa sensação.

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Não satisfeito, Mazzucchelli também se utiliza da diferenciação de estilos para acentuar e maximizar as situações que surgem por conta das personalidades conflitantes de Asterios e sua esposa Hana, ora brincando de Cézanne (Paul, pintor francês que lançou as bases do Cubismo), ora de Munch (Edvard, pintor norueguês precursor do expressionismo).

Acha isso ruim?

Pois não é!

Simplesmente pelo fato que Mazzucchelli usa a imagem em função do roteiro. Em Asterios Polyp nada é gratuito, de um isqueiro a uma casa na árvore, tudo – absolutamente tudo – possui uma função narrativa. O que vai na contramão do gênero que ele ajudou a revolucionar nos anos 80, onde a imagem (para nossa infelicidade) tem sido muito mais valorizada que o roteiro.

Mas em Asterios não há explosões e socos (tá bom, é mentira, tem explosão e soco sim, mas em função da história) e sim reflexões e silêncios.

Por qualquer ponto de vista que você olhe, não há como ficar impune à força iconográfica de Asterios Polyp.

Mas Asterios ainda tem uma baita história…

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Asterios Polyp

Asterios Polyp é um gênio da arquitetura, premiado e reconhecido no mundo inteiro. Seus projetos valem milhões e o credenciaram a dar aulas nas mais importantes Universidades de seu país.

Bonito, inteligente, espirituoso, metódico, Asterios é o sonho de qualquer ninfetinha estudante de arquitetura.

Mas em algum momento de sua vida algo deu errado e agora Asterios é uma sombra do homem que foi, ou que poderia ter sido. E no seu aniversário de 50 anos, um acidente acaba com o resto da vida que ele ainda tinha.

A partir daí, presenciaremos a redenção de nosso herói. Capítulo a capítulo, vamos sendo apresentados ao magnífico Asterios, através da miséria que foi sua vida: cada uma de suas escolhas erradas, cada um de seus defeitos, seu mal resolvido relacionamento com um irmão que nunca chegou a ter verdadeiramente, seu casamento fracassado (na mais impressionante e poética passagem do livro), seus amigos e inimigos.

Toda a vida de Asterios nos é descortinada e, para nosso espanto, é uma vida muito – mas muito mesmo – parecida com uma vida de verdade, dessas que a gente aqui no mundo real costuma viver.

E assim como costuma ser na vida, a história não acaba bem.

Nem mal. Simplesmente acaba.

Mas para saber como isso acontece você vai precisar ler esse surpreendente gibi.

E acredite, vai valer muito a pena.

 

No boteco do Seu João

Como disse, a Vila Formosa não é mais periferia de São Paulo, mas sim classe média.

Outro dia, aproveitando a visita que faria a minha irmã, resolvi passar por minha antiga rua.

A padaria do Seu Costa – um grego mal encarado mas que sempre vendeu fiado pra gente – ainda está lá, sob nova direção.

O Lelinho – cabelereiro que todo mundo achava que era gay e decepcionou a todos quando se casou e se provou mais fértil que um coelho – também continua por ali.

E o boteco do Seu João também.

Cansei de arrastar meu pai caído de bêbado dali.

Há mais de 20 anos aquele bar não pertence ao Seu João, mas ainda assim desci do carro e entrei.

Um dos antigos amigos do meu pai bebericava uma branquinha. Seu olhar de espanto seria engraçado, se não me despertasse tantas lembranças. Não sou bonito e nem jogo bola, mas sou cuspido e escarrado o meu pai, do jeito de olhar ao sorriso barroco.

– Uma água, por favor.

O septuagenário senhor, quando ouviu minha voz, pareceu ainda mais assustado.

– Deminha?

Há muito tempo que ninguém me chamava assim.

Sorri e troquei meia dúzia de palavras educadas com aquele senhor.

Sim, sou eu. É faz muito tempo. Minha mãe vai bem obrigado. Não, meu avô já faleceu há 15 anos, mas minha avó continua firme e forte, obrigado. Sim, o prazer foi meu, até logo.

Já estava saindo quando finalmente tomei coragem em olhar para o fundo do bar, onde costumava ficar uma mesa de bilhar.

Por um momento rememorei uma cena milhares de vezes vista: meu pai ali, um cigarro na mão, o taco na outra, esperando seu oponente fazer sua jogada enquanto um copo descansava a cachaça na beirada da mesa.

Asterios Polyp podia muito bem ter sido seu adversário.

Ainda pude ouvir o velho senhor falar:

– Filho do Dema, aquele sim jogava bola.

Não olhei para trás.

 

 

 

 

 

Asterios3

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.