Recentemente terminei a minha leitura de duas sagas da Marvel Comics que já foram publicados no Brasil. Em "Assalto ao Novo Olimpo", Hércules e os Vingadores combatiam os planos da Deusa Hera em recriar o universo e remodelar toda a humanidade no processo. Já na "Queda dos Hulks/Guerra dos Hulks", Bruce Banner e a sua malfadada legião de Hulks enfrenta o conglomerado de vilões conhecido como A Intelligência, a reunião dos maiores gênios malignos em um plano para dominar totalmente o planeta.

Deixando de lado qualquer comentário sobre a qualidade dos dois arcos, a intenção deste texto é salientar uma semelhança que as duas histórias apresentam, pelo menos no Brasil. Tanto a odisséia moderna do herói grego quanto o embate final dos monstros gama sofreram edições desnecessárias por parte da Editora Panini em nosso país, limitando um entendimento mais significativo destas fases pelos leitores daqui, principalmente concebendo um olhar mais apurado sobre vários coadjuvantes da "Casa das Ideias".

Primeiramente, digo que sei quanto é impossivel termos todo o material publicado nos Estados Unidos por aqui. São muitos títulos em circulação por lá, e na iminência de uma saga também são criados alguns contos paralelos que não acrescentam muito ao roteiro principal, servindo em alguns momentos apenas para incrementar o leitor mais a fundo nas consequências daquele evento no restante do universo super-heróico. 

Com isso, é sabido que a Panini deve selecionar as mais essenciais  para apresentar ao público brasileiro, mas nos casos que citarei abaixo coloco o foco sobre a qualidade desta "peneira".  Se é pelo bom senso técnico e importância na continuidade ou se apenas relegam as séries por serem fora do mainstream, acarretando mais tarde em uma dor de cabeça para eles mesmos, pois se tornam relevantes e referenciais dentro da cronologia ou até por serem consideradas boas histórias pelos fãs. 

Além disso, o principal movimentador deste texto não foi pela exclusão de novos títulos (apesar de que citarei alguns como exemplo) e sim por histórias de 4 a 5 páginas que estavam nas mesmas revistas que acabaram publicadas em nossas bancas, sendo sumariamente omitidas pela editora daqui. Vamos dar uma olhada no que você perdeu:

1) Agentes da Atlas e a Mitologia Grega.

Preciso novamente fazer uma ressalva, pois acho que os Agentes da Atlas são o grupo mais massacrado pelas decisões editoriais em nosso país.  Já falei sobre sua primeira minissérie aqui no Quadro a Quadro. Como todos sabemos, este título ficou de fora das revistas nacionais e deve ter sido encarado de forma irrelevante para os representantes da Marvel no Brasil (já que foi lançado em 2006-2007 e não teve mais outro destaque por lá até o fim de 2008).

Entretanto, com o advento da "Invasão Secreta", o grupo voltou aos holofotes e teve breves aventuras reportadas na edição brasileira da luta contra os skrulls. No número #036 de Avante Vingadores! (que iniciava o "Reinado Sombrio") e em um retcon mostrado em Wolverine #064. O mais estranho é que após estas duas aparições, a nova publicação mensal do grupo foi novamente omitida em nosso país e acabou ocasionando um grande buraco para alguns fatos em tramas paralelas mais importantes. 

Em seus 11 números, os heróis atrapalharam os planos do M.A.R.T.E.L.O. e também tiveram embates contra os Novos Vingadores e Namor. Sendo assim, os leitores daqui acabaram não acompanhando todo o plano de Jimmy Woo e sua turma contra Norman Osborn, ficando apenas com a prévia (em Avante… #036) e o conflito decisivo contra os Thunderbolts (em Reinado Sombrio #014-#015). Além disso, não tomaram conhecimento das consequências de uma antiga rixa entre Wolverine e M-11 e tampouco os segredos entre Namora e seu primo, orquestrados desde antes dos seus nascimentos pelos Atlantes.

Podem parecer irrelevantes estes acontecimentos isolados, mas explicariam um pouco do que ocorre com Namora na mensal do Incrivél Hercules (Universo Marvel #051-#055) e em Vingadores Anual #003, curiosamente publicadas nas nossas bancas e onde os Agentes figuram como protagonistas principais tanto ao lado do supergrupo que dá nome a revista quanto com os X-Men.

E é na trama com os mutantes que temos o material necessário para a conexão com o "Ataque ao Novo Olimpo". Nela, a Atlas invade a antiga base dos X-Men em São Francisco (já transferidos para Utopia) para ter meios de buscar Vênus, sequestrada por asseclas da Deusa Afrodite. Com isso, descobre-se (aqui, pois  já fora explicado na minissérie de estréia do grupo) que a bela heróina era apenas uma sereia que passou séculos acreditando ser a divindade grega e agora somente usava a sua imagem, fazendo com que a figura mitologica sinta-se ultrajada pela crescente fama da farsante e o roubo de sua fé.

Para os brasileiros, o retorno a este assunto acontece somente em uma breve conversa entre Athena e Afrodite na edição especial A Morte de Hercules – Ataque ao Novo Olimpo, com a consequência de que as duas imortais entrem em um acordo e a Deusa do Amor acabe deixando Ares de fora do combate final. Porém, são nas micro-histórias que fazem parte da mesma revista mensal que nos é narrado o que acontece com os Agentes do Atlas durante a batalha.

Convocada por Fórcis (Deus das profundezas, mostrado ao final do crossover com os X-Men) Vênus acaba sendo novamente salva pelos seus fiéis parceiros, que decidem procurar uma maneira de adentrar no Grupo Olimpo para resolver de uma vez por todas a questão. Todavia, os comandados do agente Woo acabam por enfrentar alguns monstros mitologicos até o derradeiro conflito entre as duas entidades, terminando de forma surpreendente com a divindade transferindo o seu posto para a outrora ninfa do mar.

Assim como na série regular do semideus, o especial em duas partes em homenagem as suas glórias (que também saiu por aqui) tem uma pequena desventura que não foi reportada em nossa terra. Nela, a nova personificação do amor, em companhia de Namora, é incubida de mapear as riquezas deixadas pelo filho de Zeus por todo o mundo. Dessa vez, confesso que temos um pequeno conto, não muita relevante mas que serve como um capitulo curioso do falecido personagem. Mesmo assim, nele é muito mais perceptível as mudanças que a Deusa da Sabedoria faz a empresa de fachada dos seres gregos e o novo papel de Vênus nessa organização. Algo que poderia muito bem fazer parte da edição e trazer mais holofote a este grupo que é escrito muito bem por Jeff Parker durante todos esses anos.

2) As selvagens Mulheres-Hulk 

Após o arco Hulk Contra o Mundo, a Marvel resolveu incrementar o universo do Golias Esmeralda com a criação de diversos personagens irradiados e uma saga com ínicio bastante confuso e estaparfudio. Entretanto, ao longo da trama, conseguimos enxergar uma linha mais racional que engloba não somente os títulos principais (protagonizados pela versão vermelha e verde do gigante radioativo) como outras séries, que convergem mais tarde  na Queda dos Hulks/Guerra dos Hulks.

Dentre elas, nem me darei ao trabalho de falar de Skaar – O Filho do Hulk, revista que apresenta pela primeira vez o descendente de Bruce Banner com Caiera, a Fortaleza. Vou até relevar o fato das histórias serem totalmente desconsideradas e que somente após a chegada do personagem a Terra, a Panini modestamente colocou uma página com a retrospectiva do ocorrido (entregar o planeta Sakaar para Galactus consumi-lo e ser exilado em nossa planeta, por exemplo) para que os leitores conhecessem o co-protagonista do título publicado em Universo Marvel v2 #004 em diante. Na verdade, a minha meta é destacar a ausência de outra herdeira do monstro verde nas nossas bancas. Trata-se de Lyra, a nova (e selvagem) Mulher-Hulk.

Filha de Thundra com os genes coletados do Hulk, Lyra foi criada como uma valorosa guerreira amazona em uma realidade futurista onde homens e mulheres vivem em eterna guerra. Porém, para salvar as futuras gerações femininas (já que toda a reprodução acontece por engenharia genética) a jovem também regressa ao "passado" para enviar o item necessário as suas companheiras, mesmo que para isso nunca retorne ao seu próprio tempo e tenha que enfrentar uma das maiores heroinas do presente, a Mulher-Hulk Original (Jennifer Walters).

Mesmo com o enfrentamento inicial, as duas personagens acabam se entendendo e juntam forças para combater os Vingadores Sombrios, liderados por Norman Osborn. Nesta minissérie em 4 numeros, além de sermos introduzidos a jovem Lyra e sua amizade com Jen Walters, também conhecemos algumas informações novas sobre a linha temporal-realidade de Thundra, que ganhava destaque nas histórias do Hulk Vermelho. Dentre essas novas ideias, se confirma o fato de que o futuro pós-apocaliptico se encontra em um universo paralelo, mas segue fortemente ligado a Terra-616

Mais tarde, no retorno a mensal do Hulk (Universo Marvel v2 #001), temos o capitulo onde Jen Walters, Homem-Aranha e Ben Urich confrontam M.O.D.O.K. e libertam Bruce Banner, que acaba por perder os seus poderes temporariamente. Todavia, assim como aconteceu com os ultimos numeros de Hercules no Brasil, temos novamente a omissão de pequenas histórias que compõem este título principal e retratam um pouco dos acontecimentos que permeavam a narrativa recorrente. O mais essencial deles é: o que aconteceu com a Mulher-Hulk Original após a invasão da base secreta da I.M.A.?

Nos primeiros micro-contos, retornamos a Lyra e sua nova missão como agente da A.R.M.A.D.U.R.A. (voltada para proteção interdimensional). Enfrentando recorrentes invasões multidimensionais, a guerreira tenta desvendar o que aconteceu com a sua atual orientadora em nosso universo e acaba por se defrontar com mais uma artimanha do vingativo e ganancioso chefe do M.A.R.T.E.L.O.

O que a torna relevante para o leitor das histórias do Hulk, é o fato de que a história além de confirmar o desaparecimento da primeira Mulher-Hulk também nos encaminha para a ligação entre Lyra e a Intelligência, já que a mesma acaba incorporando as fileiras do Quarteto Terrível em lugar de sua mãe (que recusa a participação e acaba sendo salva pelo Hulk Rubro) e invade o Edificio Baxter para raptar Reed Richards.  Além disso, as histórias curtas também fazem o público conhecer um pouco mais das suas habilidades – como ter que eliminar a violência da mente para ser a mais forte – e seu futuro papel na saga que vem a seguir. Em determinado momento, a amazona é colocada de lado e outro personagem toma o seu lugar: a Mulher-Hulk Vermelha.

Ainda no mesmo formato e saindo na mesma revista, agora nos é revelado um pouco mais do temperamento desta nova vilã e a dificuldade em que os seus mestres tem para controlar o seu temperamento volátil. Também sabemos um pouco mais do que aconteceu com a Srta. Walters, presa em uma éspecie de capsula de contenção e usada no grande plano para destruir o governo dos Estados Unidos. Com o advento da Queda dos Hulks, estas pequenas informações tornam-se o motor principal para um capitulo ignorado mais uma vez em território nacional: As Sensacionais Mulheres-Hulk.

Desta vez em três edições especiais e próprias, a história conclui outros tantos buracos como a associação de Banner e sua filha, os segredos ocultos da Hulk Vermelha e a participação do trio na contenção dos soldados hulkficados pelo Líder e sua turma de gênios do crime. Parte do que é contado aqui aparece nos capitulos principais do arco, mas ficam tão soltos que somente a sua leitura acaba por trazer mais criticas a um projeto iniciado de forma inconstante e com valor narrativo bastante questionado desde os primeiros números.  Também não podemos esquecer, que durante a Guerra dos Hulks, outro personagem assume as histórias extras da revista mensal: Hiro-Kala, mais um filho de Caiera com o monstro esmeralda que detem um grande poder ancestral e atualmente havia se fundido com um planeta do microverso (eventos ocorridos ao final de Skaar – Filho do Hulk e concluídos em Domínio de Reis, continuação "secreta" de Guerra dos Reis).

Constatação

Ao final destes dois relatos vem o questionamento: é possível entender as duas tramas mesmo sem ler estas histórias que citei? Lógicamente que sim. Mas, o que está em questão vai além disso. É na verdade a constatação de que o grau de respeito entre consumidor e editora está bem distante de um bom nível de aceitação por aqui. E é nesse ponto que quero frisar bem: respeito e profissionalismo, o pilar básico para a maioria dos problemas com os quadrinhos no Brasil. 

Particularmente, não dá para aceitar as malfadadas justificativas para um trabalho que parece não ter um sentido apurado com o que vem sendo produzido e que se comporta de forma atrasada na forma de se ganhar dinheiro com arte sequencial, sem ao menos ter conhecimento ou comportamento intuitivo tanto para movimentar os titulos como para criar o mínimo de coerência ao que vem sendo publicado em nossa terra.

De certa maneira, sei que muitos podem até justificar tudo que disse com a qualidade do que vem sendo produzido, ou também pela procura do material pelos leitores. Mas reitero a minha observação: antes da qualidade, acho mais importante a seriedade, o respeito e a dedicação daqueles que publicam. Não temos isso e devemos exigi-lo até para poder julgar melhor o produto pelo seu tom narrativo ou sua arte. Temos esse dever, pois acima de tudo somos consumidores e devemos nos colocar nesta posição.

— é soteropolitano do condado de Brotas, o lendário bairro-cidade da capital Baiana. Lê e comenta sobre quadrinhos dos mais variados, além de ser aficionado por futebol em todos os níveis, desde uma final de Champions League a um confronto entre Butão e Montserrat. Sua eterna crença em times inexpressivos foi nomeada pelos amigos twitteiros de #momentoedimario… Além disso, acompanha qualquer seriado sci-fi de qualquer parte do globo, e sempre é fascinado por qualquer cronologia possível, até em novelas. Alguns dizem que pode viajar entre os multiversos apenas atravessando as ladeiras brotenses, outros que faz parte do conselho interdimensional e tem passe livre para navegar entre a matéria e a antimatéria. Relatos de sua presença em lugares como Paris, Tóquio, Nova York, Attilan, M-78, Rann e Trill são conhecidos, mas nunca foram confirmados.