Depois de muitos anos afastada dos super-heróis, a Editora Abril está de volta às bancas com quatro novos títulos da DC Comics: As Aventuras do Superman, Liga da Justiça Sem Limites, Batman – Os Bravos e Destemidos e Os Jovens Titãs, todos baseados nas animações da Warner.

Mas o destaque mesmo fica por conta do gibi do Superman, principalmente por causa da equipe criativa, já que nos roteiros está ninguém menos do que o badaladíssimo Mark Millar (Supremos, Kick Ass, Procurado) e três das cinco aventuras são desenhadas pelo excelente artista brasileiro, Aluir Amâncio, revesando com o também muito bom, Mike Manley. Ambos seguem um estilo que eu considero como a "linha clara dos comics", já consagrada em outros títulos como Batman Adventures (1993) e A Nova Fronteira, tendo como referências principais Bruce Timm e Darwyn Cooke, todos visivelmente influenciados pela  tradicional linha clara franco-belgo, que tem em Hergé (Tintim) seu maior nome (que venham as pedradas dos puristas das HQ's franco-belgas).

Voltando à HQ do Superman, a primeira edição traz histórias deliciosas, com aventuras simples, divertidas e criativas. O número 01 da editora Abril traz os números 25 a 29 da Superman Adventures norte-americana, publicadas originalmente entre novembro de 1998 e março de 1999. Mark Millar, apesar de não ser balado naquela época como é hoje, estava longe de ser um novato. Antes disso já acumulava um longo currículo nos quadrinhos britânicos e havia trabalhado com o Monstro do Pântano e Vampirella nos EUA. Aliás a própria série é marcada pelo trabalho de escritores consagrados. Antes de Millar já haviam passado pelas páginas do título Paul Dini (Batman Adventures, Superman Paz na Terra, Batman Guerra ao Crime, Detective Comics), Scott McLoud (Zot!, Desvendando os Quadrinhos) e Mark Evanier (Groo).

Nos desenhados, tanto Manley quanto Amâncio fazem um excelente trabalho mas é impossível não notar um salto de qualidade nas histórias ilustradas pelo brasileiro, que também já fez trabalhos tão variados como Zé Carioca, Jaspion, Senninha e Spirit. É interessante também como Amâncio apimenta as HQ's, colocando uma sensualidade surpreendente nas personagens femininas.

Pelo conjunto da obra não é de se estranhar que a série tenha tido várias indicações para o Prêmio Eisner. Realmente um material muito bom, que vai divertir os leitores mais jovens e também os veteranos.

Mas se o material publicado só merece elogios, o trabalho editorial da Abril deixa a desejar. Em primeiro lugar, a decisão de começar a edição brasileira pela 25.ª norte-americana. Deixar várias coisas no ar, como referências a encontros anteriores com vilões dessas histórias. A equipe criativa também não serve como justificativa, por quê não é a primeira parte da fase do Millar e nem Amâncio é novato no título. O fato de começar com uma participação do Batman? Pode ser, mas não justifica uma decisão equivocada.

Além disso, a Abril retorna ao velho formatinho…! E na sua versão mais rudimentar, com papel vagabundo e impressão borrada em várias páginas (pelo menos na minha edição) e sem sua versão realmente "formatinho", com alguns centímetros a menos, por exemplo, das edições da série Pateta Faz História, também da Abril. Além disso, não faz nenhuma referência às edições originais, como fazia em suas antigas publicações de super-heróis, e ignora também as capas originais.

Veja abaixo as lustrações de capa omitidas:

Mas tudo isso – continuidade, referências a edições originais, destaque para a equipe criativa e indicações para o Eisner – são coisas que interessam a leitores velhacos e esse não é o público dessa HQ, certo? Huum, nem tanto. Primeiro que o leitor infanto-juvenil não é bobo e hoje em dia está tão ou até mais informado do que os adultos. Aliás, eles nasceram no mundo das informações, o que pra eles nunca é demais.

Também o preço não ajuda: um formatinho por R$ 7,95. Mais cara do que a revista mensal do Superman da Panini, que custa R$ 6,90 também é mais cara do que os outros formatinhos da Abril. Um almanaque dos personagens Disney, publicados pela mesma editora, custa R$ 4,95 e tem 80 páginas, ou seja, 60% mais cara por apenas 20% a mais de páginas.

Em suma: o trabalho da Abril tem tudo para desagradar gregos e troianos. As Aventuras do Superman traz um ótimo material em um péssimo projeto editorial.

 

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.