Por Rogério Fernandes da Silva*

No dia 6 de agosto de 1945 o avião americano Enola Gay solta a primeira bomba atômica da história chamada de little boy sobre a cidade de Hiroshima. Cerca de 70.000 a 80.000 pessoas morreram instantaneamente e outros milhares perderam a vida devido aos ferimentos e envenenamento radiativo.

Em 1973, o autor japonês de histórias em quadrinhos Keiji Nakazawa criou o mangá (no Japão as histórias em quadrinhos são denominadas de mangá) Hadashi no Gen; Barefoot Gen, em inglês; em português Gen Pés Descalços. Esse mangá é um relato semibiográfico de sua experiência diante dos horrores da guerra e as conseqüências em sua vida. Nakazawa foi testemunha ocular dos efeitos da bomba de Hiroshima, pois morava na cidade, ele vivenciou na sua infância a explosão, o autor tinha seis anos de idade na época.

No ano de 1983, o autor lança uma animação com o mesmo título baseada no mangá, três anos depois é a vez da segunda animação. O principal personagem das animações é o garoto Gen, um alter ego do autor. O nome do personagem tem um sentido especial, pois na língua japonesa significa raízes ou fonte. Para o autor, Gen deveria ser um tipo ideal a ser seguido. Uma fonte de inspiração para a geração marcada pela guerra. A verdade era que a queriam preservada para medir a devastação do primeiro ataque nuclear da história. A partir das cenas da explosão a animação começa a mostrar seu peso como narrativa sobre a catástrofe. A cidade de Hiroshima havia sido poupada dos bombardeios americanos, e isso deu uma falsa sensação de segurança aos habitantes. O Japão sai arrasado e submetido e ocupado por uma potencia ocidental, os Estados Unidos. Diante da derrotada era preciso recomeçar o país destroçado e traumatizado pela fúria nuclear. Entretanto, não importava a destruição era preciso superara a amargura, a vida sempre estará se renovando, como o campo de trigo que o pai de Gen cuidava. As raízes dos trigais podem não ser muito profundas, mas não foram atingidas pelas adversidades e apesar de parecer que a planta está morta, elas brotam de novamente. Assim deveria ser para com os japoneses, segundo o autor, eles também possuíam raízes culturais fortes o bastante para a reconstrução da nação.

A visão do personagem principal é de uma criança que precisava amadurecer diante de uma realidade sem lógica. Gen tinha que sobreviver e cuidar de sua mãe grávida, pois seu pai e irmãos morrem carbonizados nos escombros da casa de sua família. O protagonista terá que fazer o parto de sua mãe subnutrida e tentar arranjar comida para ela e a recém-nascida. Ele acaba vagando pela cidade a procura de alimento e vê Hiroshima acabada, caótica e perigosa.

No final da primeira animação o protagonista faz um barquinho com uma lanterna de papel dentro. Era para seus familiares falecidos, Gen coloca o barco de madeira no rio e ao navegar surgem várias outras lanternas deixando a entender que elas representam os mortos de Hiroshima. Em algumas regiões do Japão faz parte da cultura essa cerimônia de lançar as lanternas de papel nas águas do rio. Os vivos ao fazerem isto estão enviando os espíritos dos mortos de volta para o mundo espiritual. Portanto, além de ser uma despedida é também um novo começo, pois a vida deve seguir em frente. O segundo anime, lançado em 1986, trata do personagem principal integrado a uma gangue de crianças e da perda da mãe.

As animações sobre Gen Pés Descalços têm expressões e gestos exagerados típicos da produção de animação japonesa. As situações cômicas servem para amenizar a crueldade imposta pela intransigência humana então mostrada. A geração de japoneses que vivenciou a Segunda Guerra Mundial saiu da experiência traumatizada e isso se refletiu na produção cultural do país. As revistas em quadrinhos e desenhos animados desde então eram marcadas por enredos melancólicos e realistas, nem sempre os protagonistas-heróis acabavam tendo trajetórias e finais felizes.

Quando os efeitos da radiação começaram ser conhecidos surgiu o preconceito contra os sobreviventes. Muitos tinham medo de que as vítimas de Hiroshima e de Nagasaki (destruída pela segunda bomba nuclear, em 9 de agosto de 1945) fossem contagiosas, não queriam para cônjuge pessoas que poderiam morrer em poucos anos ou ter filhos com eles por acharem que nasceriam deformados. Por isso, muitas das vitimas sobreviventes das bombas atômicas esconderam suas origens.

As animações sobre Gen Pés Descalços não são muito conhecidas no Brasil, o público que as conhecem estar restritos aos especialistas em quadrinhos e as aulas de História Contemporânea universitárias. As duas não utilizam as melhores técnicas de animação da época, mas por seu caráter testemunhal são de imenso valor. Enfim, a obra de Keiji Nakazawa é atemporal, um relato triste, mas esperançoso, pois é um relato sobre a humanidade que supera a intolerância e os resultados da guerra.

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Professor da rede pública do Estado do Rio de Janeiro e especialista em História do Brasil pela UERJ, e-mail: prof_rfernandes@yahoo.com.br
Texto publicado com a autorização do autor.
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— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...