Assim estreia a deusa do trovão no cenário de quadrinhos brasileiro. Lançada na primeira edição de Novíssimos Vingadores (Janeiro de 2016), a narrativa mostra os efeitos que uma indignidade se abateu sobre o másculo Thor. Seu poder foi passado para uma (até então) misteriosa mulher. Mas a leitura do roteiro de Jason Aaron não mostra que não é apenas uma simples questão de mudança de gêneros.

O alarde brasileiro aconteceu a pouco menos de um ano em redes sociais quando a Marvel apresentou a radical mudança na divindade do trovão, deixando sua masculina massa muscular e testosterona darem lugar a uma beldade de silhuetas mais languidas e feminil, mas não menos poderosa ao levantar o maestral Mjolnir. Aí é que entramos num ponto sobre gênero: Os padrões sexuais. Os padrões sexuais são exatamente as construções de identidade de gênero que determinamos socialmente para os sexos masculino e feminino.

A masculinidade sempre foi elaborada através de reconhecíveis performances que envolvem coragem, força e virilidade, são animosas pressões sociais que fazem com que tenhamos ícones de masculinidade facilmente reconhecíveis. Enquanto homens são fortes, competitivos, impávidos, as mulheres são reguladas aos espaços performáticos da solidariedade, amorososidade, maternidade. Desta forma, ainda que não percebamos, construímos modelos a serem seguidos e repudiamos as suas alternativas. Naturalizamos aquilo que é inventado pela sociedade. De que a realização feminina é a maternidade e seu voto basilar é a fidelidade enquanto os homens satisfazem seu modelo enquanto provedores familiares e proprietários dos desejos e da sexualidade.

Assim como construímos papeis e lugares masculino, construímos papeis e lugares femininos. Odin, pai de Thor, deixa a hierarquia de gênero bem clara, na página 16 da edição. Depois de um longo sono, o Pai de Todos retorna para governar Asgard (agora chamada Asgárdia), que estava sob a tutela da Mâe Suprema, cargo assumido por Freya durante o exílio do marido. Odin alerta a tomada de decisão de Freya e diz: "A breve era da Mâe Suprema passou", e completa: "É hora de você se lembrar de seu lugar naquele mundo, Freya".

12966530_914122852033713_1774414232_nDiante desses dois personagem míticos escadinavos temos a educação sobre os padrões sexuais. Odin é o deus masculino, da força, sabedoria e guerra, atributos bastantes ligados a modelos masculinos em diversas culturas. Freya é a deusa do amor, da beleza e da fertilidade, também atributos correlacionados a modelos femininos em muitas sociedades. Eis que uma mulher carregar o martelo da deidade do trovão e a coisa dá uma mudada.

Não defendo, aqui, nenhuma condenação a qualquer papel performático de gênero que uma pessoa queira assumir. Uma mulher pode, sim, ser passiva e amorosa, assim como ser aguerrida e proativa (até mesmo sexualmente). Nem aqui se faz uma ocultação das diferenças sexuais que possuímos, mas uma acusação das frágeis correntes que fazem com que nossas diferenças sejam justificativas para desigualdades de gênero. Numa sociedade sexista, tais normas sociais são limitadas, gerando hierarquizações onde o tratamento de gênero é injusto. As identidades são mais plurais que as simplificações encontradas em normas sociais binárias. Ainda que a passagem desta deusa do trovão na mitologia Marvel não seja longa, ela já causa questionamentos sobre modelos e que até então sua presença no panteão lhe foi feita com inegável dignidade.

 

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!