Vamos a terceira parte do conjunto de 4 posts sobre o mercado editorial brasileiro. (As duas primeiras podem ser encontradas aqui e aqui). Neste post, iremos discutir a influência dos polêmicos scans nas vendas e na divulgação das hq`s, assim como a venda e a disponibilização de versões online por suas editoras. Opiniões emocionadas, técnicas ou polêmicas tem se tornado nossa especialidade nesta série, tudo com o intuito de provocar vocês, leitores, para pensarem e discutirem o assunto conosco. Vamos lá!

3) O que acham de apostas como disponibilização de material online? Os polêmicos scans chegam a atrapalhar as publicações?

Guido: Acho uma alternativa que dificilmente vingará. Acredito que a maioria das pessoas procurem scans de algumas publicações que lhe interessam e que por algum motivo não puderam ler no papel. Pode ser que a publicação seja um clássico e esteja esgotada, pode ser que seja uma publicação cara e que o leitor não tem a certeza do investimento ou pode ser que a publicação não tenha saído ainda no Brasil. Nos três exemplos que citei, não vejo grande ameaça ao mercado. O primeiro é de fácil resolução, basta as editoras republicarem seus clássicos, e duvido que os leitores que possuem scan não prefeririam ler o gibi. A segunda depende exclusivamente da qualidade do material. Se o material é bom, em muitos casos o leitor vai querer comprá-lo mesmo depois de ter lido. Se o material é ruim, ora, a editora vai querer sobreviver vendendo material ruim? E o último também depende exclusivamente da editora publicar o material por aqui, e de ter a qualidade garantida. Por fim, enquanto os tablets não popularizarem e leitura digital não tornar-se um hábito tão corriqueiro que nos faça aceitar trocar alguns de nossos gibis pela versão online, não consigo imaginar nenhuma outra alternativa entre os três exemplos que citei que me faria ler gibi online.

Edimario: Para mim não atrapalham quem faz um bom trabalho e quem diferencia os formatos. Em meio ao que chamo hoje de "caos editorial", a leitura online tem sido uma boa alternativa até para quem quer mais coerência na cronologia. O problema é que a leitura hoje é sustentada mais pelo mercado pirata. E por que isso? Por que realmente não foi notado que esse vácuo tem que ser preenchido. 

 
Desde o ínicio da globalização virtual, existe a demanda pelos produtos culturais. CDs, seriados, quadrinhos ficaram mais fáceis de serem conseguidos e quebraram algumas barreiras comerciais que se tornaram obsoletas. Exemplo disso é que não existe mais lógica para que filmes tenham suas estreias com 5 meses de atraso, que seriados demorem 1 ano para estrear no seu país ou até que os quadrinhos sejam apresentados de forma editada e atrasada. Indo por esse lado (dos comics), temos além de uma demanda suprida, um espaço para os nichos: aquelas séries sem muita popularidade ou com assuntos direcionados para alguns indivíduos que não renderiam lucro em vendas físicas.
 
A questão é que as editoras precisam se conscientizar disso, PRINCIPALMENTE as revendedoras como a Panini. Se eles deixam de lançar Nova e Guardiões da Galaxia, por exemplo, e logo depois pulam para Guerra dos Reis com explicação dos fatos passados em uma nota de rodapé, por que não lançar esse material para leitura online?? Ou até criar um arquivo virtual, com pacote de assinatura, para ter acesso a todo o universo daquela editora. A Marvel pensou isso desde a epoca pré-ipad, mas se equivocou depois que o produto surgiu. Outra questão são os preços… não dá para cobrar a mesma coisa que o papel… 
 
Enfim, são alternativas que não devem ser desprezadas porque os editores tem mente conservadora. É uma possibilidade rentável e deve ser imaginada como tal.
 

 

 

 

 

Sergio:  não acho que os scans sejam tão prejudiciais quanto a indústria faz parecer. Se é verdade que eles fazem com que alguns deixem de comprar as revistas, também é verdade que muitos passam a comprar revistas justamente por conta deles – depois de conferir a qualidade do material disponível na Internet. A questão aí é que a indústria de quadrinhos foi construída sobre o modelo compre e depois julgue, e a Internet está impondo o modelo julgue e depois compre.
Não gosto de ler em telas de computadores e acredito que o artefato "revista" tem um valor intrínseco que se agrega ao conteúdo da HQ, tornando o gibi algo mais do que simplesmente quadrinhos. No entanto reconheço que novos dispositivos como os tablets, leitores tradicionais, como o Kindle, e (aguardem) leitores com telas OLED são o futuro e que os quadrinhos digitais (online ou não) são a nova forma de expressão da nona arte.
Agora só falta a indústria de conteúdo desenvolver um modelo de negócio que faça sentido e que beneficie tanto autores (que terão seu material fácil e fartamente distribuído) quanto leitores (que pagarão um preço justo por este material). O que não dá é continuar aplicando a lógica tradicional aos quadrinhos digitais e vendendo material digital com uma pequena diferença de preço em relação ao material tradicional. O Megaupload anunciou ter testado e avisou que colocaria pra funcionar em 2012 um modelo de negócios que remuneraria ou autores mesmo quando o material fosse baixado de graça. Se for verdade, esse será o caminho.

 

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.