Uma das coisas que mais me atraía para entrar para o Quadro a Quadro era a possibilidade de manter discussões interessantes com os outros Quadrados pelo grupo de emails. E foi em uma dessas trocas de email que discutimos, num aspecto geral, o panorama das publicações brasileiras e as opções disponíveis. Vendo que aquela conversa deveria ser melhor organizada, dando a oportunidade de cada um estruturar e expor melhor seus pensamentos, idealizamos este post. 

O intuito é de maneira ainda informal, como uma entrevista, mostrar nossas opiniões especificamente sobre a publicação de Comics (quadrinhos de super-heróis) normalmente no formato Mix ou de outras publicações das editoras Marvel e DC. Não abordaremos nesta série a publicação de quadrinhos autorais, independentes, brasileiros, etc, apenas analisaremos a forma como as publicações norte americanas são vendidas por aqui. Além  disso queremos que vocês, leitores do blog, aproveitem essa oportunidade e deixem suas impressões, na forma de comentário.

Esta é a primeira parte de uma série de 4 textos a serem publicados nos próximos dias. Boa Leitura!

 

1) Com as vendas de quadrinhos nas livrarias crescendo e as vendas nas bancas diminuindo, os gibis de banca como temos hoje no Brasil, em formato de Mix, são uma fórmula ultrapassada fadada ao fracasso?

Guido:  Não acho que esteja fadado ao fracasso. Acredito que as publicações em livrarias sejam o melhor caminho para atrair novos leitores (principalmente adultos) e para alavancar as  vendas, mas a permissão de publicar apenas os encadernados que foram lançados nos EUA impede que esta seja opção a substituir as publicações de banca. Os leitores estariam impossibilitados de ler algumas sagas, e recorreriam cada vez mais a scans. No mais, acho que deve existir a variedade de publicações, gibis de banca, encadernados mais baratos, encadernados mais bem produzidos, etc. Mesmo que uma venda menos que a outra, acho errado tentar migrar todo o conteúdo para um só formato ao invés de tentar solucionar o problema local. 

Sergio: Sim e não. Acredito que os Mixes precisam se rever e reinventar para continuar sobrevivendo. A migração dos quadrinhos das bancas para as lojas especializadas e livrarias é um processo gradual e fortemente influenciado pelos aspectos culturais da nossa terra. Acredito que a migração é irreversível (a banca do Shopping Salvador, por exemplo, não trabalha mais com quadrinhos), mas acho que o formato mix tem algumas coisas boas e poderá sobreviver.

Um exemplo de mix bom é o da revista Vertigo. Nos demais casos, o mix costuma misturar alhos com bugalhos e colocar lado-a-lado material muito bom com material meio boca e/ou ruim mesmo. Outra questão complicada é ter vários arcos diferentes de um mesmo personagem e pular de um pra outro. Nem sempre é confortável e, pior, quando os arcos fazem parte de uma saga maior (como no caso do retorno do Batman) é lambança certa.

Uma coisa legal que a Vertigo faz é colocar uma página antes de cada história informando o que aconteceu até ali. Talvez isso diminua o desconforto de pular de arco em arco nos outros mixes. No mais, pagar um valor alto (por que vai ser alto) por vinte e poucas páginas de apenas uma história do seu herói favorito seria um tiro no pé – pelo menos hoje, pelo menos com a atual cultura de consumo de quadrinhos no Brasil.

Edimario: Acho que sim. Se nos EUA já se reclama bastante da cronologia confusa e muitas vezes cheia de arcos para se acompanhar, a forma como as revistas são concebidas por aqui danificam mais ainda algum entendimento para um novo leitor. Até os velhos fãs, já condicionados com esse formato desde a editora Abril e Ebal, tem reclamado bastante também da continuidade dos Mix. Trabalhei um tempo na área de vendas desse produto especificamente e essas eram as justificativas mais ouvidas pelos compradores.

Vale ressaltar que a Panini até é mais ortodoxa que as editoras anteriores, pois na maioria das vezes coloca apenas 1 história de cada um dos títulos por edição e não se preocupa se o mesmo personagem apareça na mesma revista em dois momentos distintos. Outra questão é a escolha desses mixes, muitas vezes bem equivocada e alguns casos até oportunista. Não dá para aceitar, por exemplo, que se compre uma revista porque apenas lhe agrade uma história e a outra seja até fora do contexto do universo (como quadrinização de filmes).

Na minha opinião, o mercado mudou. Primeiro porque temos hoje diversos tipos de formatos sendo testados, dentre deles vemos até alguns com mix concebidos de forma mais dinâmica. Além disso, a concorrência com outros quadrinhos em formatos mais concisos (mangás, albuns europeus e brasileiros) e até com os scans tem mostrado que é o público atual enxerga de outra maneira os quadrinhos, e vem esperando isso dos comics… mas sem resposta aparente. Criar mix de 3 edições em vez de 4 e aumentar o preço das revistas não são bem soluções verdadeiras, são contenção. Não acho que a culpa seja de vender em banca, e sim de como se vende.

Outra questão é que esse formato estraga a publicidade. Pois aqui no Brasil a melhor divulgação para esse produto vem de duas frentes: Boca a Boca (virtual, pessoal, etc) ou dos produtos de adaptação como filmes, seriados e series animadas. É muito mais complicado até emprestar histórias de um determinado herói com uma edição de 72 páginas que o cara só precisa ler 24. Pedido de revistas anteriores ou até a venda de material especifico é altamente danificado nesse sistema também.

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Foto da chamada: Zona Franca Comics

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.