No final da década de 70 era comum eu ficar em cima do pé de ameixa da casa da minha bisavó.

Passava tardes inteiras ali, comendo ameixas e esperando ansiosamente a figura esguia aparecer na esquina, com suas calças boca de sino e sua pasta executiva de couro.

Adorava o cheiro daquela pasta. Não havia documentos ultra secretos, nem canetas espiãs. O que havia ali era um monte de chaves de fenda. A pasta cheirava a óleo Singer. Nada mais apropriado, meu pai era empregado da Olympus e consertava algo que hoje é peça de museu: máquinas de escrever.

Mas muitas vezes havia um envelope por ali também. Nessas ocasiões, ele dizia “Will (sim, esse é um dos meus apelidos, corruptela de Willians), vai lá e pega uma chave de fenda pra mim”. Eu ia, claro.

E voltava todo feliz, abrindo o envelope de papel pardo já sabendo que ia encontrar um gibi lá dentro.

Mas naquela tarde eu havia ficado paralisado. Dentro do envelope tinha um gibi estranho, horripilante. Na capa, o Conde Drácula que eu curtia dos filmes atacando um negro que se parecia muito com um vampiro também.

Era um exemplar de “Terror de Drácula”, da Editora Abril.

A arte, embora eu não fizesse a menor idéia na época, era de um gênio do traço. Um cara chamado Gene Colan.

Naquele tempo havia um monte de gênios trabalhando na Marvel. E Colan era um dos maiores.

Não demorou muito pra eu pegar aqueles velhos gibis do Homem Aranha publicados pela RGE e cruzar com o cara de novo. Adorava os ângulos de seus quadros e aquele jeito que ele desenhava um cara tomando uma porrada, com o corpo no ar, as mãos tentando alcançar o vazio, o nariz em evidência.

Fez escola e se tornou um dos maiores.

Criou o Blade e o Falcão, participou de uma das melhores fases do Homem Aranha e desenhou praticamente todos os personagens da época na Marvel. Mas sobretudo, imortalizou a melhor série de Drácula já feita em quadrinhos.

Faleceu na última quinta, dia 23, vítima de uma combinação fatal entre uma fratura no quadril – que o levou ao coma – com um câncer devastador no fígado. Tinha 84 anos e ainda desenhava.

Na minha mente, um moleque de sete anos, com a mão lambuzada de ameixa e o nariz impregnado com o cheiro de óleo de máquina, abre afoito um envelope de papel pardo.

Não havia nada dentro, apenas o vazio onde deveria haver um gibi. O vazio de um traço que nunca mais veremos.

gene_colan

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.