Em parceria com o GIBI RASGADO

Aos vinte e poucos anos eu tinha o cabelo comprido, a orelha cravejada de brincos e passava as noites ouvindo rock e bebendo cerveja num inferninho qualquer. Para piorar, fazia teatro. Confesso: eu era um estereótipo ambulante.

Meu ingresso no Teatro Popular União e Olho Vivo, no começo de 2000, descortinou-me um mundo improvável, que eu nunca havia observado, apesar de ter crescido nele.

Um mundo onde a cultura popular é muito mais forte e influente do que uma canção do Roberto ou uma novela da Globo. Foi no União e Olho Vivo que aprendi a ouvir as vozes gritadas na periferia mas pouco ouvidas no Centro. Meu conceito – acadêmico, obtido na Faculdade de Belas Artes – do que era ou não arte virou de ponta cabeça.

E entre as muitas surpresas que tive uma delas se destaca, seja pela sua obviedade, seja pela sua inusitada aderência a um cara que é (ainda hoje) fã de Iggy Pop e Black Sabath: o Samba.

O samba é o resumo da raça e da arte. Não importa se está sendo acompanhado por uma caixa de fósforos ou por um conjunto de cordas de violinos: o samba tudo comporta. É a mais pura tradução do povo brasileiro.

Uma coisa que a indústria fonográfica não entende nessa sua incessante busca pelo lucro é que o samba não pode ser domado ou rotulado pela quantidade de brincos de diamantes ou de roupas caras que os recentes grupos de “samba” usam quando se apresentam no circo de aberrações que é a TV aberta no Brasil.

O samba – o bom samba – é muito mais do que isso.

É o copo americano de cerveja no canto da mesa e é o braço abaixado tocando um pandeiro. É aquela senhora que não é bonita, mas que quando samba naquele pagode em cima da laje, na casa sem reboco, se torna a coisa mais linda da festa. O samba é a cabeça do sambista ninando no corpo da cuíca.

E foi com esse sentimento e lembrando dos belos versos de “Samba da Antiga”, imortalizados na voz de Candeia, que voltava pra casa naquele dia. Em minhas mãos o recém devorado Almas Públicas, de Marcello Quintanilha (Editora Conrad, R$ 39,90). Pela janela a paisagem mudava rapidamente dos luxuosos prédios do Jardim Anália Franco, na região do caro bairro do Tatuapé, para a arquitetura caótica de Artur Alvim, já quase em Itaquera.

Mundos cruzados num vagão superlotado. Os últimos finos pares de sapatos desceram na Estação Guilhermina Esperança. À partir dali, só casas alugadas e apertadas, coxinhas na padaria antes da aula, dois dedos de uma branquinha pra abrir o apetite, cachorros felizes rasgando sacos de lixo e sorrisos furtivos entre os reflexos dos vidros do ônibus. Um mundo onde as aparências importam menos do que um bom pagode ou do que uma verdade dita “na cara, pois aqui tem é homem, não tem moleque não”.

O meu mundo, aquele onde cresci e tenho orgulho de dizer que é meu.

Ao meu lado no vagão Acirzinho, o melhor beque do Rio de Janeiro, que começou a carreira lá na Cia Manufatora Fluminense de Tecidos. Do outro lado Macarrão, sambista dos bons que morreu em 1966.

Em pé na porta estava o Agnaldo, que mora lá no sertão da Bahia. Agnaldo é jogador também – não sei se é melhor do que o Acir – e já tá com 30 anos. Mas ainda sonha com em jogar no Corinthia ou Palmeira.

Um cara fortão levantou assim que nos aproximamos do Metrô Itaquera. Se secada matasse o cara caía duro ali mesmo, porque o Tião Pomba Gira não tirava o olho da bunda dele. Naquela hora o Tião ainda não sabia, mas ele morreu (ou se suicidou) embaixo das rodas de um taxista, como última prece um pedido de perdão pela culpa de ter causado um acidente parecido a um amigo meses antes.

Tudo bem, esses caras não poderiam estar todos juntos naquele vagão. E realmente não estavam. São todos personagens do excelente Almas Públicas.

Mas também são as mesmas pessoas que voltam todos os dias para casa naquele metrô infernal, que se sentam ao meu lado no ônibus, que estão na fila da padaria pra pagar o cafézinho que serve de desjejum.

Marcello Quintanilha nos mostra que um gibi é muito mais do que um colant apertado e um “S” no peito. Seu Almas Públicas pulsa vivo em nossas mãos, possui uma realidade que transborda de suas páginas e invade nossas vidas, nos fazendo enxergar ali a nossa própria realidade.

Ler Quintanilha nos faz elevar os quadrinhos a um outro patamar, inclassificável, emocionante, sensível e trágico. Em cada rosto, em cada cômodo das apertadas casas, em cada situação extremamente banal, Marcello enxerga beleza e poesia.

Pouco importa se é o copo de pinga no balcão do boteco ou o gol perdido com o goleiro já vendido num campo pelado de grama, tudo é história nas mãos desse excepcional artista.

Marcello Quintanilha faz gibi como quem faz um bom Samba…

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.