“Nessas terra tem gente de tudo canto do mundo. Mas se veio pará aqui… é pur que não sobrô mai nenhum lugá no mundo pra ficá.”

A vida é feita de pequenas jornadas. Todas dentro de uma jornada maior, que é a própria vida. De algumas delas pouco ou nada vamos nos lembrar. Outras nos definem!

E é uma dessas jornadas – dessas que definem uma vida – de que fala “La Dansarina”, de Lillo Parra e Jefferson Costa.

A própria leitura da obra, por si, já é uma jornada marcante.  Uma obra que não se enquadra em qualquer categorização das quais se costuma rotular as histórias em quadrinhos. Chamar esse álbum de “graphic novel” ou que seja “bande dessinée”, utilizando os (prestigiosos) termos estrangeiros, seria desmerecer a autenticidade que esses autores dão ao trabalho e à demonstração de maturidade e potência dos quadrinhos nacionais. Então, convenhamos, é um belo exemplar de quadrinho nacional!

Não vou fazer uma resenha técnica sobre o álbum (aqui é o Quadro a Quadro, não fazemos isso por essas bandas) e nem me cobrem uma visão imparcial (sim, sou amigo do roteirista), mas posso prometer ser sincero, absolutamente sincero nesse texto.

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Conheci o Lillo em 2011 e desde então venho acompanhando sua trajetória nos quadrinhos. Algumas adaptações muito boas de Shakespeare (que lhe valeram até um HQ Mix), uma ou outra HQ encomendada por editora, com resultados bons mas longe de ser empolgantes (desculpe, amigo, mas prometi ser sincero) e algumas histórias curtas. Tudo muito caprichado e bem feito, mas pelo que eu já conhecia do Lillo, faltava a obra em que se pudesse ouvir sua voz. Gritando!!

Já com Jefferson, poucas vezes troquei algumas palavras, mas talvez ele seja o mais impressionante desenhista quadrinhos em atividade no Brasil (levou o HQ Mix junto com Lillo, pela adaptação de "A Tempestade"). Um mestre… um monstro… chamem como quiserem. Dono de um traço de absoluta personalidade e uma narrativa fluída, escancara para o leitor as portas da história e o coloca lá dentro, bem ao lado dos personagens. Apesar disso, por várias vezes você é obrigado a parar a leitura e ficar de queixo caído, admirando a beleza de sua arte.  

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Sem dúvida, “La Dansarina” é a obra-prima destes dois autores: um grito de sensibilidade visceral! Um grito sussurrado de uma poesia em prosa e desenhos. Uma poesia leve, mas pesada. Suave, mas áspera. Que fala de morte, mas saúda a vida.

Mas não falei da história, em si, não é? Basta saber que é sobre a jornada de Pedro, uma criança com um quê trágico de Antígona. Mas… além disso… “La Dansarina” é, sim, uma HQ sobre dança. Uma dança cujos passos ensaiamos desde nossos primeiros dias, à espera de que a bela “hespanhola” venha ser nosso par. 

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— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.