E mais um ano chega ao fim. 

Dezembro sempre traz consigo um clima de retrospecto, de avaliações, de renovação, de esperanças pelas mudanças de atitudes e pensamentos. De coisas novas. 

Também chega o tempo de tentar ler os quadrinhos atrasados que ficaram empilhados na cabeceira da cama, tentar encaixar este ou aquele gibi naquela lista dos "melhores" do ano. 

Ler aquela história mais do que especial para fechar o ano em um clima pra lá de legal.

Nos últimos anos, bem na manhã de natal, tenho lido sempre a mesma coisa: A Tempestade.

Não o quadrinho, mas a peça mesmo. 

Meio que virou tradição pessoal. É um texto que pra mim resume bem todo o fluxo de emoções do ano. Há uma amargura presente em quase toda a peça, o desejo de vingança de Próspero que pode muito bem ser lido como os mais diversos momentos em que durante o ano nos deparamos com situações em que a ira toma conta dos nossos desejos mais intimos; o texto por sí só já é repleto de melancolia: Shakespeare produziu essa peça após o seu periodo de glórias. O teatro elizabetano era apenas boas lembranças e o reinado de James I mostrava-se incerto para o Bardo. 

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E não é o que acontece em todo dezembro? As incertezas sobre o que virá se fazem presentes e. para amenizar as paranóias, dizemos que são "as esperanças" de um ano melhor.

2014 foi uma tempestade para mim: muita ira, muita sede de vingança, muitos caminhos perdidos. Entretanto, da mesma forma que Shakespeare expressou através do jovem Fernando (ou Ferdinando, a depender da tradução), existe uma certa energia estranha que preenche o ser humano, uma força de vontade que nos faz continuar a procurar aquilo que se mostra perdido; através desta "mística", encontrei em algumas qualidades humanas a força pra continuar. 

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E é nesses momentos em que nos tornamos meio Mirandas. 

Por viver isolada com o pai em uma ilha, a jovem Miranda desconhecia completamente a humanidade – aliais, a sua única referencia de ser humano era o próprio Próspero. E não é sem motivo que, ao se deparar com Fernando, em um momento de total fascinação pelo humano (não pelo indivíduo, mas pelo conceito), expressa uma das mais belas falas que a literatura já viu:

Oh céus!
Quantas graciosas criaturas estão aqui!
Que belas são! Admirável mundo novo,
Que tem gente assim!

Ah, pois! E não é que quando chega dezembro nos tormamos meio Mirandas? Ao perceber como a humanidade consegue ser tão plural, com suas qualidades, defeitos, incongruencias, verdades, incertezas, toda a beleza e feiura que conseguem produzir apenas no espaço de um único ano ( e aqui nem comento os acumulos dos anos anteriores). 

Quantas graciosas criaturas, este humanos!

Tudo isso para recomendar a leitura de um gibi para este fim de ano. 

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Por isso, na manhã do próximo dia 25, enquanto todos ainda estão dormindo empanzinados do banquete das vésperas, dê uma lida na adaptação desta peça tão maravilhosa feita pelo Lillo Parra e pelo Jefferson Costa. Embora não seja um lançamento, é um trabalho que gerou muitas esperanças para o mundo dos quadrinhos. Falar deste quadrinho cairia numa coisa meio retórica, por isso ficarei por aqui apenas com a recomendação.

Desejo a ti, leitor, de todo o coração, um final de 2014 espetacular.

E que sejamos ainda mais Mirandas para ansiar por um Admirável Ano Novo!

 

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.