Existem dias que têm tudo para serem ruins.

Assim começou essa segunda-feira (26/09/2011) aqui em Salvador, Bahia. O céu cinzento já demonstrava o que vinha pela frente e não tardou a ser anunciada a tempestade. Às 08hrs recebi a notícia de que faleceu o melhor editor de quadrinhos do mundo, Sérgio Bonelli. Em San Gerardo di Monza, Milão, aos 78 anos, o famoso editor, que estava hospitalizado há uma semana, deu seu último suspiro. 

Sérgio Bonelli, que iniciou sua carreira como argumentista/roteirista com o pseudônimo de Guido Nolitta, com suas hábeis mãos, tornou a editora criada pelos seus pais em uma poderosa empresa e a mais importante editora de publicação dos quadrinhos italianos. Sob sua tutela a Sérgio Bonelli Editore (SBE), carinhosamente chamada de Casa dos Sonhos de Papel, ampliou seu leque de personagens, publicando alguns dos melhores títulos de quadrinhos da Itália, como Dylan Dog, Ken Parker, Martin Mystère, História do Oeste, Nathan Never, Julia, Tex e tantos outros que ficarão eternamente na memória dos fãs. 

Como escritor, Guido Nolitta mostrou-se um talentoso contador de histórias, trabalhou em Tex, escrevendo aventuras com um estilo bem diferente do seu pai, criando histórias mais reais e humanas, expondo a parte mais dura da vida no Oeste Selvagem. Influenciado pelos comics estadunidense e pelas aventuras de Tarzan, Bonelli criou Zagor (1961), personagem que completou 50 anos esse ano. Mas foi em 1975 que o escritor (um eterno apaixonado pelo Brasil) criou seu herói preferido, Mister No, um ex soldado dos Estados Unidos, que vivia aventuras na Amazônia brasileira dos anos 50, com tramas inteligentes até a sua saída da série, o que resultou no cancelamento do título do personagem após vinte anos de publicação.

Afastado dos roteiros, destaca-se por seu incrível trabalho como editor, elevando a arte dos quadrinhos na Itália, apresentando novos talentos criativos e presenteando os fãs com uma profunda, intensa e fluida produção quadrinistica. Seu falecimento marca, sem dúvida, o fim de uma era para os quadrinhos italianos!

Em Salvador a chuva não deu trégua por toda segunda e entrou pela madrugada fustigando a cidade. A terça-feira, apesar de menos chuvosa,  amanheceu triste, fria e com um céu cinza-chumbo  que só reforça a sensação de perda sofrida pela nona arte.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...