Há quem diga e defenda que, no mundo dos quadrinhos, criar é um processo de clausura.

Há algumas poucas verdades nisto, mas também muita bobagem, estas produzidas por um bando de românticos do meio do séc. XIX e que perdura até hoje.

Desde que comecei a futucar os mais diversos cenários "alternativos" de Salvador, eu percebi que, de fato, essa idéia de "andante solitário" é um papo muito furado. E, no mundo dos quadrinhos, muito mais.

Neste último sábado, isso apenas se confirmou por mais uma vez.

Para quem não soube, nos últimos dias 20 e 21, aconteceu aqui em Salvador mais uma edição do 24 Horas de Quadrinhos.

A maratona foi idealizada pelo norte-americano Scott McCloud e a sua primeira edição foi realizada em 1997. O evento cresceu ganhou âmbito mundial em 2004.

Aqui em Salvador a maratona já entrou para o calendário oficial de eventos sobre quadrinhos na RV Cultura e Arte – que pela 5ª vez organiza o evento em terras soteropolitanas.

E, por mais um ano seguido, eles montaram uma boa programação paralela, visando uma interação do publico leitor com o público produtor. Quem não teve vontade de participar das 24 horas, aproveitou muito bem as conversas com a quadrinista alemã Aisha Franz, o ilustrador Samuel Casal e Eduardo Duparah – um dos diretores da Associação Café Espacial

Enquanto os maratonistas produziam suas páginas, Aisha fazia uma bela apresentação sobre seus dois livros publicados pela RepdruktAlien e Brigitte – e a história envolvendo cada um deles. Com muita simpatia, conquistou a atenção e a curiosidade de toda a platéia na bela tarde de sol que foi o dia 21 e ainda divulgou os trabalhos do grupo de "auto-publicadores" da qual participa, o The Treasure-Fleet.

Logo em seguida, Samuel Casal conversou sobre a sua vida, seu processo de criação, suas técnicas e detalhes sobres alguns dos seus trabalhos no mundo dos quadrinhos, em especial o Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere do Zé do Caixão,  hq publicada em 2008 e que funciona como um prólogo para o filme "A encarnação do demônio", também lançado em 2008.

Há de enfatizar que na galeria da RV também está rolando uma exposição com muitos trabalhos do Samuel Casal que recebeu o título de "Gravado no Osso".

Finalizando as sessões de conversa, Eduardo Duparah apresentou ao público a revista cultural Café Espacial e contou um pouco da história da publicação, sua evolução, suas premiações e os percalços acometidos por todos aqueles que se envolvem no mundo das produções independentes. Apresentou a recém impressa edição nº 11 da revista e finalizou explicando algumas das dinâmicas da Associação Cultural Café Espacial.

E, durante as mais diversas vezes em que alguns dos maratonistas se sacrificavam para conferir algumas das conversas e alguns dos "não maratonistas" se vislumbravam com a qualidade do material que era produzido ali, essa idéia besta de criação enclausurada me veio à cabeça. Ter uma vida de produção solitária não é nada legal. Para criar, precisa-se, antes de mais nada, viver. Não um "Carpe diem" ao pé-da-letra, mas conversar com as pessoas, trocar idéias, mesmo que não seja sobre quadrinhos mas talvez sobre as possíveis formas de se fazer brigadeiro. Muitas histórias boas surgem de tal dinâmica e, por que não, muitos parceiros de trabalhos.

Fiquei imensamente feliz, como há muito não ficava com o cenário local, quando vi a quantidade de maratonistas, das mais diferentes idades e estilos. Algumas figurinhas repetidas, outras estreantes, mostrando que até mesmo marinheiros de primeira viagem podem sim se destacar.

E, com estes 28ºC que me torra a cabeça neste momento, só consigo pensar nos frutos que esta última edição do 24 Horas de Quadrinhos trará.

Para conferir mais fotos da maratona, confiram as fanpages do Quadro a Quadro e da RV Cultura e Arte no Facebook.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.